O pôr do sol em São Francisco é um registro de rara beleza, que sensibiliza profundamente a todos que o admiram nas tardes na beira do São Francisco. Este presente da natureza, tão cantado em versos e prosas, alvo de filmes e fotografias, foi alvo da apreciação do escritor Noraldino Lima quando, em 1925, viajou no vapor Wenceslau Braz de Pirapora a Januária na comitiva do Presidente do Estado, Mello Viana. Ele não resistiu aos encantos do São Francisco e escreveu o livro No vale das maravilhas (edição esgotada, hoje uma raridade) e, como prova desta maravilha ele dedicou uma página à contemplação do pôr do sol no São Francisco – uma página de rara beleza, de profunda contemplação e com sentimento poético.
O Portal Veredas traz esta página à apreciação dos são-franciscanos e daqueles que tanto apreciam o pôr do sol em São Francisco.
Quero em um preito do meu culto à magia do grande rio – o majestoso São Francisco – levando o espírito ao céu do sertão, às paragens iluminadas onde nada acaba e nada começa, para uma derradeira e comovida evocação. Um pôr do sol em pleno sertão ermo!
Tenho ainda no olhar e na saudade todo o seu esplendor. Coisa banal, por certo, um crepúsculo, mas cheio de um encantamento fantástico, maravilhoso, inenarrável, quando tudo acontece ao longo das retas gigantescas do São Francisco. Quem assiste uma vez a esses poentes de ouro e sangue não pode mais esquecê-los, tal o fulgor das suas tintas, a confusão de seus aspectos, entre a luz que se vai e a sombra que vem...
Rimas de poeta, palhetas de pintor, palavras de alta expressão dos maiores artistas do pensamento – nada traduziria o envolvente espetáculo daquele crepúsculo singular; aos lados, como ponto de interseção entre duas grandezas – o rio e o céu – as árvores, festivas no começo, alvoraçadas de trilhos e gorjeios, namorando-se faceiras, na orla buliçosa do rio, depois, debruçadas sobre a frieza de si mesmas – sentinelas do silêncio – como espectros oscilar no fundo das águas tranquilas, guarnecem as margens, como duas colunas, imóveis na sua imponência, sustentando o peso dos espaços.
O poente no sertão é como um caleidoscópio encantado: o capricho e a fantasia das cores brincam na concha azul do céu profundo e na face bisotada das águas mansas.
A princípio o sol, como que pairando, resplandecente e glorioso, sobre o tope recortado da mata, vaidoso borda a ouro líquido a superfície das águas; ao seu mergulho no abismo, o rio parece uma cauda azul e muito longa, e à medida que largas manchas escarlates, como lacre derretido, dominam, de baixo para cima, da âmbula de Deus, o rio é todo um só clarão – condensado aqui, mais tênue ali, todo ele, porém, espelhando as modalidades do mesmo incêndio a propagar-se no braseiro vivo, que agora se tonaliza, do vermelho rutilo ao fosco, do alaranjado ao violáceo do amarelo em todos os tons ao verde de todos os matizes, até que uma faixa luminosa entre o horizonte e as nuvens, mais viva, mais apagada, limitando-se, diminuindo, morrendo aos poucos, lentamente, penosamente, se vai tornando cor de cinza – da cinza agônica de grande fogaréu.
Diante do espaço, nessa hora, diante do rio, diante da mata, o homem sente-se grande e pequeno ao mesmo tempo a um tempo – grande na grandeza ascensional do espírito, porque este sobretudo nos vapores das tardes, que a gente tem a impressão de que se confunde com as própria nuvens e acima delas com o próprio éter, fazendo-se imponderável, inebriado perdido sem fim; pequeno porque há grandeza cuja majestade esmaga, é a paisagem do São Francisco em um pôr do sol, tem amplitude que os olhos enxergam sem medir, na exaltação que é um atordoamento dos sentidos.
O crepúsculo... em cima, a suprema dilação do mistério – o colapso da luz e a nostalgia da sombra; embaixo numa empolgante palpitação, como que a se repartir no balanço dos ramos, no sussurar nos ninhos, no vozeio desconhecido do capoeirão, no sereno rolar das águas – ajoelha-se a alma da solidão, debruçada no céu sobre os dois abismos – o abismo da floresta e o abismo do rio.
O crepúsculo... O êxtase e o silêncio... Há pouco, o reboliço e a luz, irritante na sua orgia, esplêndida na irradiação triunfal de sua nudez; agora o entorpecimento, a quietação: os jaburus e garças, os baguaris e os mergulhões, os tucanos e os papagaios, os martinho-pescadores e os patos selvagens, todo esse dilúvio de penas que alvejavam nas margens, ou riscavam a flor das águas, buscando, num fugitivo tatalar de asas, o pouso que ninguém conhece – tudo sumiu, tudo passou.
Crepúsculo...Sombra que cai, noite que desce, envolvendo no sono de umas horas até a alvorada próxima, a grandeza que dorme há séculos – na terra e nas águas – a espera de sua madrugada de luz.
Para te saudar ainda uma vez, no teu crepúsculo que é uma aurora, oh! Francisco – vale das maravilhas – só pedindo às “Meditações” de Lamartine, a alma da “Solitude” para, da região dos montes, na tua glória bendizer a glória de Deus que te criou.
Noraldina Lima escritor e político mineiro – foi interventor do Estado de Minas em 1946. (1855/1951)


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