terça-feira, 8 de outubro de 2019

VIVÊNCIAS – CONTOS

ÉRAMOS DOZE
Os doze na viagem para instalar o Núcleo Colonial Vale do Urucuia


Éramos doze! Juntos nos vimos, em dia distante, no meio de uma clareira entre a serra da Conceição e o ribeirão da Conceição de olhos num rancho de palha que seria nossa moradia no sertão inóspito apenas com uma motivação especial: conhecer as veredas tropicais e bater de frente com as morenas de olhos verdes. Às vezes, em noites escuras, rodeávamos uma fogueira assando ubre de vaca, cantando Uchained Melody, Inamorata, Índia, Boneca Cobiçada. A gente ria feliz naquele recanto esquecido, perdido na geografia mineira, espalhando alegria. E foi que demos por conta como levamos o élan do idealismo cultivado nos bancos da escola-mãe exercitando-o com exuberância, na força que explode na natureza chegada a Primavera. Era, então, o nosso mundo e passamos vivê-lo com intensidade na crença de estar criando um mundo novo naquele sertão esquecido.
            Éramos doze! Vivíamos um mundo de novidades e encantos, vistos nas coisas mais simples a qualquer olhar. Quem poderia admirar o rio Conceição com seus meandros, águas claras, praias de areia brancas, brilhantes como a neve, sombreado pelas copas do pajeú, e com esconsos onde dorme o surubim? Quem poderia ficar parado diante de um capão de angicos só para assistir, em suas densas copas,  às estripulias dos barbados depois da colheita de milho na sua roça? Quem poderia contemplar extasiado o despontar da lua no fundo do capão de angicos precedido de suave brisa? Quem poderia contemplar os raios da lua cheia mais subida aos céus infiltrando nos ranchinhos entre as palmas de buriti da sua cobertura? Quem poderia resvalar nos imbés despontado de frestas de lajes da cachoeira do Conceiçãozinho de águas puras e cristalina, que no correr dos séculos como paciente arquiteto lapidaram piscinas e canais de belezas incomuns? Quem poderia se aventurar no universo/cerrado resvalando-se entre árvores tortas, umas floridas e perfumadas? Quem poderia, naqueles gerais, acompanhar a carreira de emas buscando esconderijo para suas crias? Quem poderia pousar à entrada de uma vereda, descansar os pés na sagrada água do sertão, ouvir a canção das palmas sopradas pela brisa do cerrado e entreter-se com a algazarra de araras e jandaias em busca do fruto vermelho do buriti? Quem poderia estancar o burro à porta de um humilde ranchinho de pau a pique e coberto de palha e ser recebido com generosidade pelo morador que não tendo nada, com um sorriso dá as boas-vindas e oferece água, e dele ouvir tantas histórias nunca antes contadas? Quem poderia estar em um lugar esquecido, isolado, inóspito, distante, sentindo que estava no centro do mundo, construindo uma história?  Quem poderia estar abrigado em um rancho com tapumes de palha de arroz e coberto com palmas de buriti, piso de chão batido, achando, assim mesmo, que estava morando em um palácio? Quem poderia viver na isolada  fazenda Brejo Verde, cercada  de lobeiras, assentada em terras secas cobertas de pedregulhos –  de verde só tinha a certeza de  ali acender a luz da esperança, do amanhã no coração de crianças? Quem viveria na planície à beira do Riacho Morto na erguida fazenda Cabo Verde, em terra perdida no tempo e isolada para levantar uma escola e levar esperança para crianças e gente então abandonada? Quem veria o corredor de pedras no alto da Serra da Conceição, parte da lenda de Joaquina, matriarca  que primeiro fez a história da fazenda Conceição? Quem poderia sentir arrepios e se emocionar diante das ruinas do casarão de dona Joaquina e da  ermidinha que inspirou Manoel Ambrósio a escrever o romance A Ermida do Planalto narrando a saga de dona Joaquina? Quem poderia, por tempo e no tempo correndo, viver, conhecer e compartilhar a vida de urucuianos, homens, mulheres e crianças que não tinham nenhum contato com a civilização, que viviam em mundo isolado, sem estradas, sem qualquer assistência; homens que em situação mais desvantajosas que a dos índios, tinham que inventar a vida para viver? Quem poderia tirar lições de vida da vida dessa gente e com eles aprender? Quem poderia com eles cantar versos narrando fatos daquele universo, nos ternos de folia ou a beira de uma fogueira?
Assim éramos os doze no começo de uma grande missão. Juntos por bons tempos vivemos  e desfrutamos daquela alegria. Depois, por contingências do trabalho, fomos divididos em células – no próprio universo e fora dele. Contudo a alma de cada um ficou presa, adormecida no Urucuia e no coração entrelaçado de cada um dos doze, eram irmãos.
A  fogueira arde. Apenas ela o luzeiro na imensa escuridão. Crepita! Estrelinhas acendem-se ao céu bordado de estrelas siderais. De repente, meus olhos percebem seis estrelas mais luminosas desgarrando-se do nosso universo. O que veem meus olhos sensibiliza minha alma, sou tomado pela emoção e imensa dor, pois ali vejo que não somos mais doze. Seis estrelas que se desgarram do nosso mundo são seis dos nossos irmãos que se encantaram.
Éramos doze. Os Doze Bandeirantes do Urucuia.

sábado, 7 de setembro de 2019

VIVÊNCIAS – CONTOS

A INVEJA


José Fanto, enquanto servidor público, ao receber e a atender as pessoas, dava muita importância ao seu cargo. Ia além do necessário para mostrar-se senhor da situação e expor mais conhecimento do que guardava. No entanto, era bem quisto, embora alguns colegas fizessem pilherias sobre sua quase arrogância. Na verdade não era arrogância, era mais jactância – ele se orgulhava de si mesmo, e quanto.
            Enquanto trabalhava, foi previdente. Aos pouco foi construindo sua moradia, e quando se aposentou pôde sair do aluguel e pousar em seu, e de seu, lar. Ao aposentar-se ainda teve que enfrentar umas dívidas relativas à construção da casa. Por isso, montou um escritório de assessoria na área que atendia na administração pública – nisso era competente. Acontece que, assim que saldou as dívidas, resolveu refestelar-se na condição de aposentado. Indagado sobre o fato de fechar seu escritório, dizia:
              Vou curtir minha vida de aposentado. Tenho o direito.  
          Então fez isso no melhor estilo daqueles que optam pela sombra e água fresca. A aposentadoria, ainda que não fosse lá grande coisa, dava para sua subsistência de sua família – ele e a mulher – sem atropelos. Outras despesas imediatas, não tinha, senão água e energia elétrica, que não eram de taxas elevadas. Assim, enfiou-se em uma bermuda de brim, que raramente trocava, uma camiseta regata e saía pelas ruas bem cedo, levando um porrete na mão tendo um cachorro vira-lata sempre ao lado. Media as ruas da cidade, parava na porta dos botecos, contava causos, mentia e seguia caminho. Todos os dias a mesma rotina – como diz o povo da terra “o mesmo Mané-Maria”.
            José Fanto tornara-se folclórico. Todos dele sabiam e falavam – “um sem o que fazer”, uma pena. Mas ele não se importava, vivia como queria, um aposentado.
            Paulo Santos era seu amigo de trabalho. De quando em quando se encontravam, depois que Fanto deixou o serviço. E foi ele que registrou dois fatos interessantes envolvendo-o. É o que conta.
            – Tempos atrás, quando a cidade era menor, mais pacata e eram guardados velhos costumes, com todo respeito da população, a padaria da cidade fazia a entrega de pães a domicílio, bem cedinho. O entregador pedalava uma bicicleta bagageira com enorme cesta na frente cheia de sacolas com pães. Passa à porta do freguês e pendurava a sacola com pães em um gancho do portão e gritava bem alto avisando:
            – Padeiro! Olha o pão! – e seguia rumo a outra casa.
            – Numa feita, a dona Zuita, moradora de uma casa quase vizinha à do Fanto atrasou-se  para recolher os pães – não foi coisa de muito tempo, a voz do entregador ainda estava no ar. Abriu o portão, olhou o gancho e cadê a sacola com os pães?  Nisso viu o José Fanto saindo, todo serelepe, sacudindo uma  sacola com pães. Como foi no ato, ela gritou:
            – Seu Fanto, esse pão que o senhor está levando é aqui de casa.
            – Sem demonstrar qualquer surpresa, por ter sido pego “com a boca na botija”, no ato da rapinagem, ele se justificou:
            – Ora dona Zuíta, eu não sabia que essa sacola era da senhora. Eu tava passando e vi o pacote jogado na calçada, meio longe do seu portão. Imaginei ter caído da cesta do padeiro que não deu por fé do caso. Então pensei que se ficasse ali ia ser comido pelos cachorros. Foi por isso que peguei a sacola. – dito isso, entregou a sacola para dona Zuíta e escorregou-se rua afora como se nada tivesse acontecido.
            A dona Zuíta não o reprimiu alto, mas resmungou indignada:
            – Sei! Cachorro! Cachorro é você safado ladrão de pão.
            Doutra feito Paulo se encontrou com Fanto que chorava a vida, reclamando sem razão, já que tinha uma boa casa e uma esposa muito dedicada. Coisas que pareciam ser poucas para ele, medidor de rua. Fanto, mirando a casa levantada ao lado da sua disse para o companheiro:
            – Paulo, como é que a Ângela  conseguiu fazer uma casa como essa? De onde tirou dinheiro para fazer um palacete como esse?
            Ora, a casa de Ângela, uma jovem desquitada, não tinha nada de especial. Era pouco maior e melhor que a do Fanto. Bem construída, com jardim à frente e uma vista agradável, mas nada de especial. O que chamara atenção do Fanto, possivelmente não era a casa em si, mas o fato de Ângela, uma jovem desquitada ter dado conta de construir uma casa, o que ele só depois de aposentado conseguiu terminar.  O problema é que Fanto não olhava para dentro de si, mas sempre para os lados, para o que tinham os outros, era um invejoso que sempre queria ser o melhor.
            Paulo, enfim, mirando Fanto, lembrou de um pensamento de Arthur  Schopenhauer que diz “Ninguém é realmente digno de inveja e tantos são dignos de lástima”. E balbuciou: – É, o Fanto é uma lástima, como é invejoso. E dirigiu-se a ele.
            – Fanto, você não tem motivo algum que justifique sua fala. Ora, a Ângela é uma mulher dedicada ao trabalho sério, pesado. Fora do emprego, assim como você teve o seu, ela faz muitos serviços extras de acordo com sua profissão. Trabalha dia e noite, domingos e feriados. Faz tudo para manter sua família com muita honradez e seriedade. A casa é simples fruto do seu trabalho. Ela não para. E você, Fanto, o que faz a não ser medir rua? E digo mais para você. A melhor casa é a nossa. Nenhum palacete é melhor que a nossa casa, onde temos nossa vida, o fruto do nosso suor, dos nossos anseios e trabalho. A casa do vizinho nunca poderá ser melhor que a nossa, pois ela não tem a nossa alma. Você tem uma boa casa. Agradeça ao seu trabalho, o seu esforço e a Deus que o protegeu. E tem mais. Se você acha pouco e que a vizinha tem coisa melhor, deixe essa vida de passeador, essa vida de andarilho sem ter o que fazer, jogando o tempo fora, arrume um trabalho, pois você é novo e é capaz. Plante um jardim na frente de sua casa, plante umas fruteiras e, assim, vai sentir o renascer da vida. Entregue-se a uma tarefa.
            Fanto fechou a cara e deixou Paulo sem ouvir o final de sua fala...
            – O  invejoso é covarde, não suporta a verdade. Isso é uma falha de caráter.


sexta-feira, 23 de agosto de 2019

VIVÊNCIAS – CONTOS

CORA CORALINA
“Aprofundar cada vez mais nos estudos da Literatura e Teoria Literária para entender e decifrar o universo poético desta grande poeta” – é o que me passou Iêda Vilas-Bôas na apresentação do seu belo  livro Cora Coralina – A mulher-poeta e suas múltiplas vozes.
            A chamada abriu-me o caminho para uma reflexão e, ao mesmo tempo, uma imediata resposta a uma crítica que um amigo fizera a respeito da poesia, ou seja, a  forma dela dizer alguma coisa ao leitor, que não aceita o sentido figurado e muito menos o hermetismo.
            Entendo a leitura da poesia de duas formas. Uma: o simples apreciar, o gostar, o desfrutar de cada verso com a sensibilidade, que pode tocar o coração através da janela dos olhos. O simples gostar. Pronto. Duas: como disse Iêda, ainda na apresentação de seu livro: “Como elemento facilitador para a ampliação do universo literário dos leitores”.
            Pela primeira forma posso dizer que gostei muito da poesia de Cora Coralina porque de tão simples, pura e cheia de emoção, ela me tocou de imediato. Sim, por que digo de imediato? Porque Iêda despertou-me o interesse pela decantada poeta que, ainda, não tinha lugar em minha estante. Assim, a minha primeira providência  foi a de comprar alguns livros dela e assim o fiz, de inicio, com duas obras – uma coletânea de autoria de Darcy França Denófrio – “Cora Coralina – e Vintém de Cobre, Meias Confissões de Aninha”, este da própria Cora. Devia tê-lo feito antes, pois Cora me emocionou, conquistou-me.
            Cheguei ao poema Das Pedras, de beleza rara, exalando simplicidade, profundo significado e palpitando a vida nos mais profundo do âmago para se revelar o “universo do leitor” para narrar uma história. Porém, volto a dizer, que encontrei  caminho para abrir o meu universo em relação à própria poesia e, assim, de cara, entendi e senti, muito mais o primeiro poema lido de Cora e foi como tivesse caminhando, ao lado dela, pelas ruas de sua cidade, molhando os pés no rio Vermelho.
            Eu revelei à Iêda, que parte de minha infância eu vivi em Araguari cuja proximidade geográfica com Goiás acendia em nós fascínio por aquele Estado. E motivos não faltavam: eu morava com meus tios, em uma casa que ficava a um quarteirão da praça da estação da ferrovia Goiás, onde trabalhavam minhas primas Helena e Margarida. De Goiás vinham, de quando em quando, índios em busca de ajuda e meu tio, italiano radicado no Brasil, sempre repetia: “esses são os verdadeiros brasileiros”. E para Goiás eu sempre viajava em excursões, como Lobinho de um grupo de escoteiros da cidade – o destino era, sempre, Anhanguera, onde ficávamos atentos e curiosos com a história do bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, Anhanguera, que pôs fogo na água de uma lagoa para amedrontar os índios e deles tirar informação sobre a existência de ouro na região. Com esses elementos povoando minha infância eu repetia na escola que era goiano. Ainda menino deixei o Triângulo levado para Belo Horizonte e nunca mais voltei. Depois de alguns anos, ainda na flor da juventude, meu destino foi o Norte de Minas onde plantei minhas raízes nas barrancas do rio São Francisco.
            Agora, meu pensamento é levado a voar em território goiano, pousando na cidade de Goiás, na Casa Velha da Ponte, às margens do rio Vermelho. Daqui para frente será uma nova aventura no meu desbravar do mundo construído de letras pela sensibilidade de Cora Coralina.
            Por tão auspicioso presente – inesperado posso dizer – agradeço muito à Iêda.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

VIVÊNCIAS – CONTOS

TAPERA DO FELIPE
Bons tempos esvaídos nas brumas do passado chegam ao desconhecido e inóspito sertão urucuiano. Um jovem desgarrado viajava  montado em garboso burro ruão de viageiro macio. Não se provia de muitos apetrechos. Levava apenas uma capoteira com uma capa, uma  rede e um cobertor. Indo de lado – e às vezes disparando na frente do burro – um cão perdigueiro. Burro e cachorro não tinham nomes. Eram três em um só. O jovem atendia pelo nome de Felipe – Felipe só, não adiantava o nome da família e lá tinha seus motivos. Viajava escoteiro e isso não causava espanto, pois na região sempre aparecia cavaleiro solitário – a serviço ou fugitivo da polícia.
            O sol descambava no horizonte tingindo o céu de suave vermelho esbatendo para o dourado, quando Felipe despontou em um limpo, que dava entrada a uma vereda. Pouco trotado divisou um rancho ali aprumado. Era pequeno, mas bem cuidado, de aspecto agradável. O terreiro da frente era cercado por paus roliços. Não tinha mato nele, apenas   um pé de bouganville coberto de flores vermelhas. No fundo outro cercado com um pequeno mandiocal, alguns pés de algodão crioulo, dois jiraus  tomados pelo verde da cebolinha de cheiro, coentro e couve; pés de limão rosa, mamão e touceiras de bananeiras. No meio do mato, algumas galinhas, vigiadas por um galo, ciscavam em busca de vermes para o bando de pintainhos que a seguiam com avidez. Nada mais havia.
            Felipe chegou-se à beira da cerca e, sem apear da montaria, chamou sem dar alarde – Ô de casa!
            Esperou um pouco e repetiu o chamado, um pouco mais alto.
            Logo depois despontou na portinhola do rancho, entreaberta, a figura de um homem magro, estatura mediana. Trajava com simplicidade, mas com decência, tanta a calça quanto a camisa pareciam ser tecidas de algodão. Factível de ser por obra de sua mulher que cultivava algodão crioulo no quintal e que, por certo deveria possuir um tear.
              Pois sim, viajante. Tardes. E quem é o moço?
            Felipe adiantou a montaria mais próxima da cerca sem forçar o contato e se anunciou:
            – Sô de fora. Tô de chegada no sertão e preciso de ter notícia de umas terras da minha gente. Preciso também de sua serventia de um pouco de água e um breve descanso. E se não incomodar o senhor, um ponto para esticar a rede e descansar.
            O morador, então, ultrapassou a porta do rancho e se adiantou até a cerca e anunciou ao forasteiro – Eu sou Mané Tercilo. Moro aqui desde menino. O moço apeia. É bem-vindo. – falando isso, afastou os paus da tronqueira para dar entrada ao visitante com sua montaria.
            – Prazer, seu Mané Tercilo. Desculpe-me estar incomodando – disse Felipe apeando do burro.
            Mané, muito solícito, como um bom urucuiano, apressou em convidar Felipe para chegar ao seu rancho: – Vamos adentrar no rancho, seu Felipe. É pequeno, mas cabe nós dois e mais, pois é de bom grado receber os amigos.
            Dito isso, Mané abriu a porta do rancho para a entrada de Felipe a uma sala, muito pequena, iluminada apenas pela luz passada pela porta, sem janelas que era. Uma tosca mesa com três tamboretes de tálamo de buriti compunha o mobiliário humilde. Em um canto, numa pequena armação, encontrava-se um pote coberto de pano branco bordado, com dois copos de alumínio disposto numa travessa. Era só.
            À vista do pote, Felipe pediu ao Mané que o servisse de um gole d´água e foi prontamente atendido.
            – Toma, seu Felipe, que é pura e fresquinha. É da vereda. – Emendou, depois – Então, o que traz o senhor a esse fim de mundo?
            Felipe, com serenidade colocou o chapéu de lado, alisou os fartos cabelos e fitando seu Mané, relatou:
            – Olha, seu Mané, eu viajo meio sem rumo. Procuro uma fazenda que foi do meu avô. Ela está abandonada há muitos e muitos anos, nem sei como pode estar nos dias de hoje. Meu avô vivia nela, era muito rica em criação e produção. Sucedeu que, meu pai viajou para a cidade e não mais voltou, foi estudar. Depois, tempo depois, minha vó morreu. Meu avô sozinho naquela fazenda não aguentou a solidão. Deixou a fazenda nas mãos de empregados e foi atrás de meu pai. Eu era pequeno quando ele chegou em nossa casa. Lembro da conversa dos dois. Pouca coisa, pois era menino. Vô pedia para meu pai voltar e tomar conta da fazenda. Meu pai não cedeu ao pedido dele. Vô, todas as tardes insistia com meu pai dizendo que seu destino era aquela fazenda, fazenda de raiz da família. E o dois ficaram lá na cidade sempre repetindo a mesma história. Tempo foi passando até que meu avô se despediu desse mundo sem ver meu pai atender seu pedido. Morreu guardando tanta tristeza.
            – Ouvindo aquele relato, Mané deu um suspiro profundo e gemeu – Que história triste, seu Felipe.
            – Pois é, seu  Mané. Depois chegou a vez do meu pai. Também ele se foi. Esqueci daquela história até que um dia, bateu em mim um chamado. Não sei se era em sonho ou se eram vozes mesmos. Dizia que eu tinha de tomar conta da fazenda e que ela era o encanto da nossa geração. Não entendi. Mas o sonho se repetia e as vozes também. Resolvi então atender o chamado e aventurar pelo sertão em procura das terras de meu avô. Pode ser que a encontre, pode ser que não, pois tem tanta gente invadindo até terra produtiva, imagina uma esquecida.
            – Qual é o rumo dessas terras, seu Felipe? – perguntou Mané.
            - Não sei muito bem, seu Mané. Lembro vagamente do meu pai comentando com um amigo dele que meu avô abandonara uma grande fazenda na mão de capatazes nas bandas de um rio chamado Vazante, nas fraldas de uma serra de nome Constantino. Dizia que era um vale muito bonito, verde-verde de pastagens, um mundo novo.
Nisso, Felipe estancou a fala, ficou a modo de pensar. De repente, como num estalido, como se achasse uma coisa preciosa, gritou:
            – Seu Mané, é isso, o nome da fazenda é Mundo Novo!
Mané socorreu-o de imediato – Seu Felipe, pera aí. Sei donde fica essa fazenda. Não é longe, coisas de 10 e poucas léguas indo para o rumo de Goiás. Tá lá no Mundo Novo. Sei só que a tal fazenda é tratada, hoje, como a Tapera. Não foi tomada e ninguém vai lá.  Não é que seja assombrada, pelo que sei. Mas o povo tem medo dela.
            Felipe se agitou. A emoção palpitou em seus olhos e na face ruborizada. Depressa perguntou – Então, onde fica a terra, seu Mané?
            Mané Tercilo, chamou Felipe no terreiro e fez um desenho no chão, um mapa dando os rumos da viagem para chegar ao Mundo Novo. – O senhor vai deixar essa chapada e buscar o vão até encontrar o rio Manso. Vai acompanhar sua descida, sempre margeando. De um lado vai ter, quase sempre, as encostas da serra Taboão. Não tem de errar. – apontou no chão o risco dizendo  – É aqui o rio Manso. Oia aqui! Nesse ponto tem um ribeirão entrando no Manso. É o chamado Parado. Aí o senhor vai subindo por ele, vai ganhar de novo a chapada. Na cabeceira desse córrego, passado uma grande cachoeira, vai dar numa grande vereda. Segue por ela, sempre e lá no final, virando para a direita, o senhor vai ver um grande vale  verde. É o Mundo Novo. Lá está sua fazenda.
            No outro dia, ainda com a Estrela D´Alva no céu, Felipe arreou o ruão, agradeceu o adjutoro do seu Mané, chamou o cão e ganhou a trilha. Viajou o dia inteiro até chegar ao córrego Parado. Fez pouso nas suas margens. Peou o ruão deixando-o pastar na verde grama das margens do córrego e, debaixo de portentoso pau d´óleo, armou a rede, acendeu uma fogueira e pôs-se a matutar seus rumos. Pensava o que faria, depois de encontrar a fazenda. Abandonada estava como dizia o seu Mané. Como iria aprumá-la se recursos não tinha. Nada nadinha mesmo, senão sua coragem. Saiu de casa nas pressas só para atender um chamado que mal entendia. A noite passou sem dormir ouvindo o pio das corujas, uivos de lobos e até o canto do urutau, o que lhe desgostou.
            No dia seguinte, bem cedo, retomou a jornada. Pôs o ruão na estrada subindo pelo Parado. Ganhou a chapada e encontrou a vereda descrita no mapa do seu Mané. Foi contornando-a com admiração tanta por sua beleza. Era tão verde com as palmeiras enfileiradas, as palmas balançando no sopro da brisa dos gerais. Dava para perceber o bando de araras descendo em suas copas para saborear um fruto vermelho, o buriti. Mais próximo passando dava de ouvir o murmurar das águas brotando de locas e dançando no meio da raizama. Eis que, na cabeceira da vereda, virando-se para o lado direito, deparou com um belo vão, um vale verde, verde como jardim. – É aqui! –  suspirou Felipe, direcionando o ruão pela trilha que dava rumo ao vale. Em pouco tempo estava na planície. Não muito cavalgado, meio à entrada de um bosque fechado de aroeiras e pau d´óleo, encontrou a casa da fazenda – de fato, uma tapera. Seu coração disparou. Eis que, de repente, ele vislumbrou, na janela, seus avós acenando para ele com alegria. Assustou-se com a visão. E não foi só ele. O ruão estancou-se e levantou as orelhas querendo entender algum sinal do que não entendia e o cachorro ganiu ao invés de latir. Foi uma cena de arrepiar. Felipe não teve medo. Esporou o ruão que teimava em ficar estancado. Relutante seguiu, mas com passos medidos. Foram se aproximando... aproximando. Felipe de olhar fito na janela ainda divisando a sombra de seus avós. Ruão já trotava mais solto e o cachorro corria de um lado para o outro latindo, latindo como seu buscasse uma inhambu.
Incrível! O que parecia ser uma tapera, como atingida por um jato de luz, forte, fortíssimo, despencado de uma estrela, transformou-se numa casa reluzente. A casa ganhou vida. Sem medo, Felipe avançou pela porteira até encontrar a escadaria que levava ao alpendre. Desceu do ruão que não teve cuidado de amarrar e ele, sequer, aluiu do lugar. Degrau a degrau atingiu o patamar superior da escada e assim que pisou na varanda a porta da fazenda abriu de par a par. No interior da sala resplandecia uma luz suave, translúcida. Cristais bailavam no ar como pirilampos pareciam diamantes. Os janelões da sala abriram-se e mais luz iluminou o ambiente, mas era uma luz incomum, não do ambiente natural, do sol... No lado oposto à entrada Felipe divisou um corredor que parecia chamá-lo. Foi até lá, passo a passo. Atravessou o umbral da porta e adentrou no corredor e percebeu, então, que ele não tinha fim, como um raio de luz prolongado se afunilava e, a cada passo que dava, mais longe ele ia.
            Felipe avançou, avançou como uma pena a flutuar, nem sentia o chão sob seus pés. Aí, uma voz muito suave, doce como uma carícia, balbuciou aos seus ouvidos:
            – Você veio, meu filho. Você veio.
            Felipe se encantou na casa. Do lado de fora o ruão e o cachorro não deixaram o local esperando Felipe... esperando.
            E a tapera continuou mais tapera que nunca.
            Contaram essa história para o Mané Tercilo, que havia mencionado para algumas pessoas sobre a passagem do viajante Felipe em busca da fazenda Mundo Novo. Assim que soube do destino do burro Ruão e do cachorro, e ninguém falando do Felipe, ele imaginou o que acontecera e se benzeu:
            – Louvado seja o Pai do Céu. A tapera era o destino do seu Felipe.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

VIVÊNCIAS – CONTOS


CAVALINHO BRANCO

           
Cabeça levantada com pompa, cheio de estilo, jogando as patas exageradamente para frente como ensaio de um balé. Assim que entrou no terreiro levantando as patas, lembrei-me do meu tempo de menino em Belo Horizonte em desfile de Sete de Setembro como requintista da banda de música do Instituto João Pinheiro. Depois passagem da nossa escola postamo-nos ao longo da avenida para assistir ao desfile dos demais participantes. Aí fomos surpreendidos pela entrada dos cadetes de Barbacena com uma cadência quartenária, enquanto nós outros desfilávamos com a cadência tradicional, a binária. Os cadetes entraram com os punhos fechados, levando-os, com os braços esticados, à altura do peito formando um ângulo reto. As pernas, da mesma forma, eram erguidas formando, também um ângulo reto em relação solo e corpo, com a batida forte no solo na cadência das caixas – um, dois, três, quatro. Ficamos boquiabertos com aquele espetáculo marcial impactante e de beleza até. Falaram-nos tratar-se do Passo do Ganso, um estilo de marcha desenvolvido originalmente no século 18 pelo comandante prussiano Leopoldo I, o Príncipe de Anhalt-Desau.
            Agora, vendo o cavalinho branco na doma, esticando as pernas para frente, muito alto, tão diferente do comum aos animais de monta, lembrei-me do Passo do Ganso. O domador o conduziu para o ponto onde eu me encontrava. Apeou e me entregou o cabresto dizendo:
            – Seu menino, esse cavalo não tem jeito, não. Num vai aprender passo algum, viageiro ou marcha. A mania dele é só jogar as patas para frente. Desse jeito nenhum cavalo anda.
            Lá se foi o meu sonho. O cavalinho branco era meu. Eu o adquiri de José Braga, um criador de animais da região de Santa Rita, próximo do Núcleo da Conceição. O danado era muito bonito. Não tinha grande estatura, mas o físico era bem conformado, clinas compridas, pescoço delgado e empinado. Era bonito. Assim que ele me foi entregue fiquei feliz e dei-lhe o nome do primeiro satélite artificial lançado ao espaço, Sputnik pela URSS em 1957 – uma honraria.
            Naquela quadra eu viajava muito pelos gerais urucuianos a serviço do Núcleo Colonial e da Justiça Eleitoral, inscrevendo eleitores nos mais perdidos e distantes grotões, lugares quase nunca visitados por gente de fora. Eu tinha uma pequena tropa à minha disposição – o burro Avião, forte, resistente e bom de viageiro. As jornadas montado no Avião não me cansavam nem deixavam com as pernas e o corpo doendo; a mula Ruana, bem menor e também de bom viageiro; e a Moeda, essa muito arisca, que exigia estratégia para ser montada e, assim mesmo, com o cavaleiro em cima ela tinha que dar uns pulos. Em viagens mais curtas eu fazia no cavalo Tarzan, que era meu. Eu gostava do Tarzan, pois seu viageiro era macio, mas ele não tinha muito estilo, era por demais comum e até mesmo um pouco feio, pois era muito fino, sempre magro. Assim, comprei outro cavalo e me veio o cavalinho branco. Eu precisava ter um cavalo fogoso, que impressionasse, que chamasse atenção quando eu chegasse a um aglomerado de pessoas. Assim, eu já me imaginava no dorso do Sputnik e ele sacudindo as compridas clinas, esquipando com graça e eu levado em seu dorso sem que mexesse qualquer parte do corpo mexia. Em um bom cavalo esquipador o cavaleiro pode carregar um ovo na colher. Seria um sucesso. Eu moço da cidade exibindo montaria no sertão. Depois me imaginei nas trilhas dos gerais, entrando com o Sputnik num largo bordejando uma bela vereda em busca de um ranchinho daqueles perdidos. Só nós dois naquele mundão de meu Deus, só a abóboda celeste azulzinha, nuvens de carneirinhos passeando de lado a lado, os buritis em fileira como numa procissão, com as palmas apontando para o céu de preces para o Criador de todos. Encostava-se à porta do ranchinho e chamava o dono. Esperava acomodado no dorso do Sputnik branquinho como a neve contrastando com o verde dos buritis e embaúbas Saudaria o dono do rancho e apeava com estilo amarrando o Sputnik no tronco de uma caraibinha forrada de flores amarelas.  E o Sputnik entrava na encenação, sacudindo o pescoço para realçar as clinas compridas belas e prateadas. O dono do ranchinho teria que ficar admirado.
            Fiz tantos planos, eu e meu cavalinho branco, o meu Sputnik, senhores de um mundo especial.
            Quantas viagens empreendidas, escoteiro, naquele belo cenário. Horas e horas, dias inteiros, sem encontrar outra viva alma, sem uma fala senão a voz do cerrado, o canto das palmas dos buritis, um mundo especial em que se via, nas pequenas coisas, a presença do criador. A arara azul no topo da palmeira, querendo espaço para o ninho ou somente para saborear o fruto carnudo. As palmas levemente agitadas pela brisa dos gerais fazendo cantiga, sonoridade dos ares dos gerais, incomum, inconfundível. De repente daria de ver veadinhos chegando para bebida da água fresca brotada de ocas nas raízes das palmeiras – chegam de orelha esticada, abandando como a capitar ruídos estranhos e o toquinho de rabo rodando como pequeno radar assuntando perigos. Milagres dos gerais. Ah! Meu Deus grandioso!
         Brumas chegam! Brumas passam! E lá foram os meus sonhos de príncipe dos gerais, das veredas cantantes em um cavalinho branco. Triste, sem jeito a dar, mandei soltar o cavalinho branco na larga. Seria livre para correr os campos sem peias e arreios. Iria correr os gerais livre como o Sputnik corria os céus.
            Dizem no Urucuia que de quando em quando surge nos gerais, saindo de uma vereda, um cavalinho branco jogando as patas para o alto a modo de querer voar. O Urucuia tem seus mistérios.


sábado, 6 de julho de 2019

VIVÊNCIAS – CONTOS


No mês passado vivemos o clima dos festejos juninos. De forma muito especial, grande parte da população são-franciscana participou da romaria de Santo Antônio de Serra das Araras, uma tradição que chega perto do segundo centenário. Neste conto, busco um pouco da beleza, dos mistérios e do tanto que significa a Serra das Araras no campo religioso, cultural e turístico para nós são-franciscanos.




DESVENDANDO O MUNDO DA SERRA


            A Serra das Araras, de qualquer acume – que são poucos em São Francisco – ,  pode ser vista como uma linha destacada no horizonte – ora azulada, ora outra marronzada e até de cor negra, mas sempre  acima do comum. De junto, em especial em tarde de sol nas costas, ela resplandece, brilha como um tesouro, tem  coloração diferente, destacada de tudo que a cerca, por baixo e por cima. Aquele paredão imenso, que sai do vão, atinge os gerais, a grande chapada que vai muito além, tem um manto verde escuro, todo riscado de vermelho e eril, coisas feitas com o tempo pela chuva e o vento, furando gargantas nas escarpas. Tudo muito aprumado de desestimular a subida ao seu tope senão pelas poucas trilhas – essas mais parecem o lombo de um camaleão, um fio só, escorrendo perigosamente para os lados sem maneira de se segurar, nem pedra, nem árvore. Do ponto de mirada, que atraía os aventureiros para ali chegar, ela tinha uma ponta de se mostrar, como serra, quase caindo na vila, ali tão próxima, que recebeu seu nome – Serra das Araras. Em linha na direção pela esquerda aponta para o município de Januária; pela direita estende-se  para o chapadão. Uma parede formidável que segue de linha horizontal, no nível de se ver, até esbarrar nos pequenos picos brancos, que lembram torres de catedrais, são tantos. Ali dá passagem à garganta que desemboca nos Buracos, morada de mineiros tradicionais. A planície, descendo da rodovia – vem ela de mais além, muito longe – é forrada de capim de ano, miúdos arbustos e muito salteados, tão raros que dá para correr de carro sobre eles se por precisão. Encosta de chofre no sopé da rampa e ali acaba. Subindo é outra a vegetação, ou quase nenhum senão o ralo mato.
            A Serra das Araras exerce uma atração muito especial tanto para os romeiros de Santo Antônio como para pessoas que ali chegavam fora de época, só por gostar daquele mundo tão encantado.
Assim aconteceu com um pequeno grupo de jovens de cidade alhures –  Paulo, Cláudia, Luís, Robledo, Helena e Sara, talvez namorados. Queriam mergulhar um pouco naquele universo que vinha de uma lenda ou verdade de quase duzentos anos, quando ali foi encontrada a imagem de Santo Antônio e, depois da história contada, de sua ida para cidade e, logo depois, a misteriosa fuga para voltar ao antigo ninho. Todos mochileiros chegaram à vila com um aparato para caso de acampar em qualquer ponto. Na vila da Serra contrataram Zé Toco como guia, conhecedor que era da região, dos melhores, e de tantos “causos” ali contados.
            Deixando a vila como um ponto para trás, o grupo partiu para escalar a serra pela trilha que tinha pé no barranco da vereda Catirina. Uma  trilha cheia de arestas que, com qualquer descuido, pode causar danos aos pés dos caminhantes. A jornada pelo platô tinha razão de conhecê-lo e, depois, alcançar os “buracos”, do outro lado. De fato, pela falas de Zé Toco, os Buracos tem muitos atrativos, não só pela beleza natural como pela gente que ali montou moradias. Lá no alto tudo muito agreste. Sinal de vida só do vento sacudindo  a vegetação rala, vento, que ia do cicio ao silvo forte.
            Vinte minutos depois estavam na aba da serra, junto às torres brancas e ali montaram acampamento. Esperaram a noite.
            Paulo ajeitou primeiro seu saco de dormir, afastando os râmulos frágeis da quaresmeira que tombavam sobre seu leito permitindo uma boa visão do céu. Porém não ficou ali, foi para junto dos companheiros à beira da improvisada fogueira onde o guia Zé Toco lhes preparava o café. Surpresa: haviam esquecido do coador. Somenos valor, acudiu o próprio Zé Toco, que haveria de cuidar do café a moda antiga: sedimentar o pó na brasa. Isso fez: colocou o pó na água fervente da chocolateira e deitou-lhe alguns pedaços de carvão incandescentes. Ouviu o chiar da brasa ao contato da água e, como imã, o carvão atraindo o pó de café e, aí, foi servir a bebida sem agitar a vasilha.
            Conversavam: Paulo, Cláudia, Robledo, Helena,Luís e Sara, de lado Zé Toco apenas curiando, dando suas pitadas na conversa quando lhe cabia emendar alguma coisa com sua sabedoria sertaneja. De repente um brando sopro, mais um cicio que cortava o vale até esbarrar nos contrafortes da serra, pelo vale afora – raiar da lua cheia. As plantas rasteiras, tantas por ali, balançavam de manso, recebendo os primeiros raios prateados da lua,  que levantava no cume da serra. Um espetáculo de rara beleza: aquela imensa bola branca, tomada de brilho dando parecer estar se sustentando no platô da araras e de lá aspergindo gotas de luz sobre o vale.
            Os jovens falavam de coisas diversas, fixando mais na violência urbana até que Zé Toco interferiu, rodando o paeiro na boca, até ajeitá-lo de lado, quase caindo.
            - Cês tão falano de coisa ruim e tão assustado. Carece não, pois sempre foi assim e nada muda no modo de ser do home. É tudo pior que bicho, memo, que tem mais beleza e até sê capaiz de falá, o que os outro num pode.
            - O que é isso, Zé? Tá amolado com o mundo? – quis saber Luís.
            Zé, impassível, emendou:
            - Assunta só o que matuto qué endendê. A modo de que Caim matou Abel se eram só dois viventes no mundo além do pai e da mãe, Adão e Eva? Pouca gente na terra e já cuidavam de matar uns aos outros. E Adão e Eva num puderam tomém se conter só nos prazer dado pelo Pai? Pra que foi querê mais arrastando o pecado pra todos nóis?
            Zé falava como se perdido no tempo, com os olhos na lua que já subia coisa de um quarto de céu deixando o platô para baixo. Na beira da fogueira, como abobalhados, os companheiros ainda bebiam as palavras de Zé quando ele emendou.
            - Essas histórias me contaram dona Lourdinha, beata da igreja de Santo Antônio, na Serra. Ela falou que é coisa contada no livro sagrado. A bíblia, sabe? Falou ela que é o livro de Deus. Se é de Deus intonce é coisa séria de não se duvidá. Eu num sei muita dessas coisa, pois sou sem letra, male-male escrevo meu nome para podê votá. Aqui se ocê num votá num recebe os favores dos pulítico. Os danados só te dão uma coisinha se ocê dé o voto pr´ele. Mais num é isso não. Quero dize prus cês que o homem é bicho ruim. Intão pregunto: quem foi pió, Antônio Dó ou os soldado da puliça e da Coluna? No sertão, esse mundão de meu Deus, longe de tudo e esquecido de todos, pensa que  cidadão, inté muié e minino tinha sussego? Quale que, os home deles matavam pur achá graça, de pura ruindade e pra se mostrá muito home. O Dó matava fugindo da polícia e vingando dos pulítico. Até que num fazia muito má pros povo da roça não, só quando precisasse, caso de traiança e de disconfiança. Cês imagina, ele que matô tanto gente, tombém teve morte matada, de mão de pilão, justo por parte dos amigo dele. Amigo? E se num fosse o que haverá de sê? E a Coluna que fazia pió. Até hoje os mais antigo, deles conhecido quando aqui trilharo, diz em cantiga de folia: “Quem disse que a Coluna num vem? Ela vem capano os home e as muié tomem?” E contam que matavam tudo, num deixava um bicho vivente nas fazenda pra mode num servir de comida, depois, prus soldado do guverno que envinha no rastro deles. Tinha mais ruindade. Eles chegano numa fazenda, se viam um rapaz de muita força carregava ele pra servir de sordado da Coluna.
            Deu uma paradinha, puxou fundo o paeiro, que ajeitou o fogo com a unha do polegar e emendou:
            - Num é só na cidade qui o home é ruim não e nem é d´hoje, não...
            Falou e quietou em profundo mutismo, hipnotizado pela lua, expurgidos os aivos pensamentos, ainda que homem simples.
            Naquela noite ninguém mais falou, embora tão encantada pela luz cheia, uma bola de prata que já altaneira, esparramava luz sobre todo o vale e deixava os paredões da serra tão claros de se poder ver os buracos, ninhos das araras.
            Da fogueira que, Zé Toco providenciara de acender para passar a noite e, de certo, para espantar os bichos que quisessem visitar o acampamento, restava apenas teimosa fumaça. Logo Paulo chamou os companheiros
– Vamos simbora moçada. Vamos dar uma olhada nas torres brancas.
Sara e Cláudia, esfregando os olhos, animaram-se com o chamamento da Paulo, pois tinham demonstrado muito interesse em conhecer as torres brancas.
- Eba! Então agora vamos conhecer as famosas torres.
Não eram torres e nem famosas. No extremo oeste da serra das Araras a erosão provocada pela chuva e vento, e quiçá, de tempos imemoriais observa-se um conjunto de escarpas. Rasgado o corpo da serra foram surgindo fendas, pequenas cavernas e um trecho de maior concentração calcária, daí a coloração branca. De fato, visto de longe, os picos brilham tão diferentemente das outras áreas da serra coberta pelo mato. As fendas  dilacerando o corpo da serra caprichosamente formam pilares que se assemelham a torres.
O grupo aproximou-se, o quanto pôde do conjunto, não foi possível escalá-lo, pois considerando o aclive do paredão, preciso era equipamento apropriado.
– Estou satisfeita, pessoal – disse Sara. – bati muitas fotos para mostrar aos nossos amigos quando voltarmos.
Seguiram, depois em direção aos Buracos.
            Horas caminhadas seguindo uma trilha que, pelo sinal, parecia ser curraleira, de passagem de tropa. Iniciaram nova subida, sem sacrifício, pois do caminho cuidaram os animais com seus cascos e sequer tinha o obstáculo das pedras.
            – Cheguemo nos Buraco. – anunciou Zé. – Ocês deixa a trilha e me acompanha aqui. – Nisso deu uma guinada para a direita e aprofundou-se no mato. Pouco depois estancou-se.  chegaram à rampa descambando para os buracos.
            Aos olhos do  magnífico panorama, Paulo chamou a atenção do grupo:
            – Ei turma, esse vale me leva a um livro que li há muitos anos – Vale Aprazível, de um escritor americano, Luis Bromfield, um apaixonado pela natureza. Impressionante como faz bem viajar pelo vale aprazível, dá descanso e nos aproxima mais do Criador. Lembrando do livro, eu acho que o nome Buracos não fica bem para este vale aprazível, pois ele não tem nada de buraco, é um vale,  é éden.
Lá embaixo um vale formidável se estendia em rumos distantes, espremido por dois paredões. No distante era azulado de tão longe, um regalo aos olhos ao contemplá-lo.
Zé Toco admirado com a fala de Paulo chamou a turma para os gritos.
– Que gritos? – perguntou Sara.
– Assunta só. Chega aqui na ponta. – falando isso, Zé Toco deu três gritos bem fortes
– Óia gente!
A voz dele correu pelo vale, navegou por cima das águas claras do rio Pardo, trespassou as palmas do buriti e, quando parecia a todos que se perdera, ele voltou com o mesmo vigor – Óia, gente!
A  nitidez do eco é impressionante, chama a atenção. Zé toco até explicou:
– Quando o pessoal passa viajando pela estrada, indo para a Chapada, quando chega na ponta dos Buracos, para só para ficar se divertindo com os gritos.
Do acume, descendo pelos taludes formados por séculos de sopro e chuva corrida, era de se passar por trechos forrados de silte brilhando ao reflexo do sol dando parecer água parada – se fosse noite factível seria de dizer tratar-se de vaga-lumes  piscando. Trechos de tauá desmanchando-se em placas num processo de tantos anos somados no calor e no frio. Descida difícil, perigosa. Medo não havia, pois o estímulo para a aventura os sufocava, antes e sempre, empurrava avante e mesmo, no ponto onde estavam,  tinham que descer. O mais difícil ainda era escolher a dala mais segura pois tantos eram os trilhos, certamente sulcados por reses da solta, porque cabrito ainda não era a preferência de criação local, embora mais conveniente para a região tão árida e de pouca pastagem. Tudo é questão de costume, preferência.
            Arrastavam-se com lentidão pela encosta abaixo, examinando cuidadosamente onde colocar o pé. Demoravam e isso não era bom, pois já prenunciavam sinais da celagem da noite e se o lusco-fusco, que se prenunciava, os alcançasse na descida, teriam problemas sérios, na certa. Aí, uns aos outros, como bando de álacres jandaias se puseram a gritar como maneira de estímulo interior para as forças exteriores. Foi como um estrondo, de certa maneira surpreendente e belo, o refletir o eco, de todas as vozes, lá no fim de vale, para voltar-lhes o mesmo encorajamento gritado. Riram a valer.
            No sopé da serra, entrada do vale, aramaram, outra vez, o acampamento, acenderam a fogueira e esticaram conversa. Zé Toco, enquanto acendia a fogueira, deu início às suas histórias.
            – Ocês já ouviro falá do famaliá? – perguntou olhando para as moças.
            – Sabemos da história, não, seu Zé. Conta pra gente – pediu Cláudia.
            – Pois é. Aqui pras nossa banda acontece coisa. Coisa que até Deus duvida, gente. Aqui, coisa de uns tempo atrás foi conhecido um homem solitário, que ficou conhecido de seu Gaspar. Não tinha grandes posse, só uma tapera. Ninguém dava ligança pra ele. Sabe que, de uma hora pra outra ele foi crescendo. O povo diz que ele não saiu daqui, não catirou nem  mascatiou, num tinha nada, intão acuma podia melhorá de vida? Pois melhorou. Em pouco tempo fez uma fazendona de espichar pasto para toda banda a sumi de vista. Gado e cavalo é que não faltava. De repente já era o coroné Gaspar, home de posse e mais posse, muito respeitado. Deu de muita gente querê sabê daquela mudança. Mistério. Coroné Gaspar tinha um neguinho, tratado de Expedito,  que fazia serviços para ele em casa. Era só ele. O menino num era de andar muito. Vai que um dia ele campeando uns animá bateu os olhos numa menina da região, a Chiquinha, filha de um morador na redondeza da fazenda. Engraçou com ela tanto; e viu e gostou. Sempre arrumava modos de campear só para ver a menina. E assim começaro a se falá. Tempo corrido, confiança adquirida, mais amô chegado, o menino foi se abrindo com a Chiquinha. Foi que num dia ela perguntou intrigada para ele como o patrão dele que num tinha nada, e de um dia para outro ficou ricão. Expedito  ficou no cismejo, mas de tanta Chiquinha, com todo  dengo pedir, ele contou. Falou que o patrão tinha um capetinha preso numa garrafa. Tudo que ele pedia o capetinha dava. O menino falou que o coroné conseguiu o capetinha indo nos galinheiro em busca de ovo de galo, coisa tão difícil, é do tamanho do ovo de juriti. No dia que achou o ovinho ele levou ele pra casa e esperou a Sexta-feira Santa. Intonce foi pra uma encruzilhada, botou o ovo debaixo do suvaco e correu pra casa. Ficou quarenta dias de cama até que nasceu o capetinho. Depressa ele botô ele numa garrafa e arroiô. Contou o menino que já viu a garrafa muitas vezes, mas num tocô nela. E daí, quis saber Chiquinha. Daí, contou Expedito que tinha o lado ruim, e se benzeu com três sinal da cruz. O capetinha leva a alma do patrão. É o trato deles. Num faço isso por dinheiro nenhum, disse o menino para Chiquinha. Zé Toco arrematou a história:
            – Já foi muito falada essa história na região. Nunca vi o tá capetinha, mas que ele existe, existe, e é tratado de Famaliá.
            E a moçada foi dormir espantada. Eta sertão.
            Na manhã seguinte o grupo se despediu do sertão passeando pelo vale aprazível, os Buracos. Desceram acompanhando uma bela vereda, cabeceira do rio Pardo. Uma parte da água vinha de locas da serra de onde escorriam como línguas de prata. Na vereda o córrego tomava mais corpo, era água brotando das raízes dos buritis e, de pouco já volume maior se fazia ganhando nome de rio, rio Pardo. O grupo andou bons quilômetros deslizando na água fresca, pés na areia branca, fina. No alto ouvia a cantiga do vento balançando as palmas dos pés de buritis, tudo juntado com o canto das araras e outros pássaros. Outros bichos vinham mais de longe para saciar a sede na água fresca da vereda.
            Paulo respirou profundo. Chamou os amigos para um abraço
            – Meus amigos, vamos dar um abraço na natureza. Este belo vale persiste, mas até quando? O homem vem por fora, vem rodeando. Aqui e acolá dizima-se o cerrado dando lugar aos pastos, plantio de soja e eucalipto. Sabe-se que os córregos estão secando. Existem poucos daquela exuberância de aguada que foi de tempos atrás. Nesse ritmo alucinante de destruição, o que será das comunidades deste vale aprazível, o que será dos moradores dos Buracos.
            Abraçaram-se comovidos e fizeram uma prece a São Francisco de Assis, amigo das águas.








sexta-feira, 28 de junho de 2019

VIVÊNCIAS – CONTOS

ESQUISITICE



UM RECADO

Há muito tenho planejado aventurar na senda dos contos. Não havia, antes, escrito nada nesta linha, tendo passado pela poesia, folclore, pesquisas e memórias. Tomei gosto pelo conto depois de leituras mais acuradas de autores que se dedicaram ao ramo. Não tento imitá-los, nem poderia. Mas quero, também, guardar minhas vivências – do antes e do presente. Por isso, busquei um título para o livro que irei publicar reunindo todos os contos que tenho prontos, – VIVÊNCIAS. Sim, é um mergulho em fatos que vivi ou que me inspiraram a divagar, sonhar e até ter o que não consegui.
O primeiro conto – conforme prometi – é dedicado ao meu amigo/irmão Walter de Oliveira, rememorando o tempo em que ele viveu  e trabalhou como professor/diretor da Escola Antônio Ortiga no Núcleo Colonial do Carinhanha das Escolas Caio Martins. Certa vez, ele me agraciou com uma carta. Tomei um susto danado, pois pouco entendi o que ele dizia e fui obrigado a recorrer ao dicionário – ele se esmerara na erudição. Foi divertido, tão divertido que jamais me esqueci da carta.
Neste conto não abusei muito no esmero do vernáculo, apenas ensaiei algumas extravagância, tão somente para lembrar do amigo.





         Ossázio e Chico Fuísca escorregaram das bandas da serra Preta por uma trilha comprida cheia de voltas para se livrar dos troncos das aroeiras. Batiam precatas a modo levantar poeira, grãozinhos despropositados que ganhavam pouca altura para voltar ao chão - se bem que o céu quisessem para modo ver mais longe e de ter pureza só, e não aquele chão seco, rachado, pisado e mijado pelos animais. Destampando numa clareira natural esbarraram num ranchinho, ou mais certo de ser uma tapera: era um monte de palhas de buriti atadas em paus roliços. Palhas secas, acinzentadas, carcomidas pelo tempo, que até imitavam cabelo despenteado com as pontas  espetando o aranhol ali armado por dezenas de aranhas de velho, dando ao quadro o jeito de bruxaria.
            Na soprada do vento da celagem da noite, que era a hora da chegada deles, vindo de dentro da tapera, a inhaca arrepiava os cabelos do nariz e uma terrível aca insuportável. Bicho morto não podia ser pior. Ossázio suspirou desanimado e já virava o corpo com propósito de outro rumo, de jeito definitivo rejeitando ir mais perto da tapera quando, de inopino, surge uma figura arrredando as palhas que pareciam servir de porta da tapera. Meio claro, meio escuro, mas dava para perceber: tinha aparência de uma taioca e era por ver mais perto, quando de estranho se via na sua cara uma enorme berruga dependurada. Se balbuciou qualquer coisa, os chegantes não ouviram, mas viram a profunda caverna, quase a chegar na garganta, tudo breu só, sem proteção de brancura de marfim.
            Eramá! Ocorreu ao Ossázio. Que pudera ter feito no dia, acudiu-lhe ainda o pensamento quase em desespero já buscando saída, para ali estar naquela hora? Mas foi atalhado por um cutucão esticado pelo Chico Fuísca, que lhe soprava na cova da orelha direita: “é a safada que um dia me acertou. A bandida deve prus home e pra Deus. Num presta”. De fato, o Chico, teve caso com uma mulher de tempos muitos passados, que com um golpe de facão deixou-lhe um profundo gilvaz na cara, quase uma avenida. Chico prometera vingança e agora viu na velha a figura da mulher que o afrontara. Assaz agitado criou mundo de história na orelha de Ossázio que podia mais que ele e era merecedor de respeito por parte das autoridades. Quis, Chico, implicar a velha. Falou coisas dela. Ossázio, mais para dar satisfação ao companheiro adiantou passos para as bandas da velha que se postara  na soleira da tapera. Passo dado pisou em galhos de mamoneira provocando estranho ruído no esfregar de bagos espalhados como tapete no chão, por certo, ou de doença sofrida no campo por vez das secas havidas. O óleo escorreu na ponta da precata e ele segurou o passo. Mirou mais a velha e de ver melhor seu cariz estremeceu lembrando o mote da região: “muié de bigode nem o capeta pode” – a velha ostentava vistoso bigode preto; não de deixar cair as pontas, mas alongado de ponto de se ver bem. “Que coisa e que coice”, segurou Ossázio. Aquele bigode parecia urubu despencado do céu em voo siado. Credo! Sentiu arrepio correndo pelo espinhaço de ver que o modo da velha encarar os dois era de esgar. E ela era e não era, pois de modos lúbricos ela vinha sem deixar se prender até mesmo pelo olhar. Ossázio, pensava mais, falar ela não precisava, pois não iria libar na suas palavras – se as tivesse, e possível até que não, pois parecia coelho emergido de profunda e escura lura, para não pensar no pior, lembrando de tantas entidades que vagueiam ou habitam o sertão, em toda parte – nas taperas abandonadas, nas galhas escuras das gameleiras gemedeiras, detrás dos troncos dos tinguis e amoitada nos cemitérios. Ficou ali inerme. Era o que pensava dela conduzido pelos dizeres do Chico tão influenciador.
            Chico Fuísca, cabra taimado, queria que queria acertar a velha, expurgi-la de vez, como fumaça no vento. “Se desse pra ela suvertê ficava cum suas coisas, de pouco que fosse, mais ficava pra pagá o qui me fez isturdia” – era o que dizia, sem convicção, mas fazia Ossázio acreditar de tão insinuante, como cobra má que se fazia. Era pouco mesmo o que ocorria servir aos desidérios de Chico – adir aos seus parcos recursos a pouca fortuna da velha: uns pobres asnos, que urravam por ali perto, talvez só usados para buscar água em algum tanque ou córrego. No mais só a tapera, que mais precisava era de fogo.
            Ossázio avançou mais um passo. Era de intenção de resolver o caso, falar com a velha sobre o que se dera no passado entre ela e o Chico. Avançou. Nisso, a velha estendeu a mão mostrando uma gamelinha com uns bolinhos  de bró, no que falou macio: “qui o moço que chega no pobre rancho deve tá devera com fome, pois tarde é, se vê. Num tem comida de mais grandeza, só mesmo o cozido de raiz de umbu, o que resta no sertão. E tem garapa de fedegoso pra acompanhá. Dô de bom grado. Qui o moço se sirva. Tá limpo”.
            O coração de Ossázio estremeceu no susto do gesto.  O peito estremeceu e subiu-lhe, palpitando, o sentimento de amiseração. Perdeu a fala.
            De repente, melhor olhando, viu que a velha era muito bonita e iluminada. Viu, enfim, pelo coração no sopro da solidariedade e gesto de amor que dela se desprenderam.
            Ao contrário de Eupompus de Aldous Huxley, viu no revirar da insanidade de Chico que a razão pode melhor esclarecer os fatos e o bem é um caminho dos melhores.