sábado, 22 de agosto de 2026

AGOSTO: PRENÚNCIO DA PRIMAVERA

 


O mês de agosto é prenúncio da Primavera. A natureza ainda está em dormência. As árvores estão desfolhadas e aquelas que  suportam algumas folhas, tem-nas marronzadas, retorcidas e ressequidas, e as flores são raras. Eis que, sem dar aviso, algumas espécies vão se adiantando nas vestimentas primaveris e nisso acabam se dando bem, notadas naquele contraste vivaz com o triste cinzento. Isso tenho visto, por andanças pelo cerrado na inflorescência do ipê, árvore símbolo do Brasil e na orla do São Francisco acompanho as transformações manifestadas. Chama a atenção o tamboril. No final de julho ele está desfolhado sustentando apenas as sementes. Nada nadinha de verde, senão ramos de teimosas ervas de passarinho. Algumas plantas são mais sensíveis às umidades profundas, ainda que não se sinalize chuva no céu. Veios d´água devem furar bloqueios de pedras, barro ou tauá procurando caminhos e, com isso saciando raízes mais profundas. Então, é o que se vê: o pajeú, árvore de beira de rio, sempre ali pregada nas barrancas, testemunha de grandes enchentes e terríveis secas, se vestindo de florada: de buquês verdes primeiro e depois passando ao vermelho – flores às pencas cobrindo toda a fronde das árvores. É um topete escarlate refletido nas águas do rio, nesta época tão cristalinas. Um pouco afastadas das barrancas, mas ali na orla, a caraibinha se arrebenta em flores brancas, mimosas e docemente perfumadas. Soltas aqui e acolá, mais próximas do balaustre sobem moitas de algodão manso. É uma plantinha tão comum na catanduva, nas matas secas, muito mais em terrenos de pedreiras e de solos áridos, de pouca água, que poucos dão ligança para ela tendo-a como sem serventia, mas tem: a de servir de brinquedo para as crianças explodindo seus botões brancos em formas de esferas ocas.  E o que têm elas, então, para merecer uma atenção, agora? As flores, tão delicadas e desenhadas. Formam pequenos buquês e quando se abrem aprecia-se a engenhosidade de traços coloridos. É prenúncio da Primavera.  

É preciso tanta tristeza assim para sentir o rebentar da vida, que nos oferece a natureza quando chega a Primavera. É preciso o cinza para festejar o verde lustroso e o colorido de tantas e tantas flores que se abrem. 

Eu queria ser como o tamboril. No inverno seco, enrugado, cascas eriçadas, cinzentas, um quase morto, que chegando a Primavera brotam pequeninas folhas – uma, duas e tantas outras, quase transparentes, translúcidas que depois, mais aglomeradas, como um manto verde, forram a fronde da árvore. Eu, ao contrário,  a cada Inverno vou perdendo o vigor que não se renova com a chegada da Primavera...

COLÉGIO PLANO KIDS E O FOLCLORE

 



O Colégio Plano Kids implementou o Projeto Folclore Brasileiro: nossa história, nossa cultura e nossa tradição atendendo alunos da educação infantil, primeiro, segundo e terceiro anos do ensino fundamental no período de 17 a 22 de agosto. Como se sabe, agosto é o mês do Folclore. Segundo a professora Damaris de Jesus Santos, diretora do Colégio, “o projeto tem como objetivo valorizar o folclore brasileiro como expressão da história da cultura e das tradições do nosso povo. A proposta busca, além de apresentar as manifestações do folclore nacional, dar ênfase especial à cultura e às tradições da região de São Francisco, aproximando as crianças das histórias, costumes, brincadeiras e saberes que fazem parte da memória local.”

Deve ser realçada a importância desse projeto que segundo a professora Damaris “proporciona as crianças uma experiência significativa de conhecimento e valorização do folclore brasileiro, com ênfase especial na cultura e nas tradições da região de São Francisco. A intenção é que nossas crianças não apenas conheçam o folclore por meio dos livros e das atividades em sala de aula, mas tenham a oportunidade de vivenciá-lo, entrando em contato com personagens, histórias, costumes, brincadeiras e manifestações culturais que fazem parte da história do nosso povo e da nossa região. Busca-se, assim, aproximar as crianças da cultura local, possibilitando que reconheçam, valorizem e compreendam a importância das histórias e tradições que foram transmitidas de geração em geração, fortalecendo o sentimento de pertencimento e a preservação da nossa identidade cultural”.

Como parte do projeto os alunos, que dele participam, visitaram o folclorista João Naves de Melo, membro da Comissão Mineira de Folclore para que conhecessem o seu acervo sobre o folclore são-franciscano. Os alunos participaram com vivo interesse do encontro demonstrando grande interesse pelo nosso folclore através de perguntas sobre aspectos variados recebendo do folclorista livros de sua autoria para a biblioteca do colégio.


COMENTANDO


A importância deste projeto vai muito além daquilo que apresenta: é uma prospecção para o futuro. Tome-se como exemplo uma floresta: não fora a semente ela não existiria. A semente é a árvore amanhã, mostra que o futuro grande nasce de um pequeno gesto atual. Ela ensina que o cuidado com o início define o sucesso do fim. Isso vale para a natureza, para a vida pessoal e para a sociedade. Transmite-se a essas crianças o ensinamento de Alceu Maynard que, com muita propriedade, disse que “Mais ama um povo quem ama as suas tradições”. É o que está fazendo, com tanta alegria, o Colégio Plano Kids. 

NAS BRUMAS DO TEMPO - II

 


Transporte terrestre era feito através de tropas de muares, que abriam trilhas pelo sertão definindo rumos que tempos depois se transformavam em estradas. Tempo também das boiadas que eram levadas para Montes Claros e até Diamantina – meses vazando o sertão. Quanta história. E as vendas? Eram interessantes pontos de encontros, de conferir e dar notícias do dia-a-dia – jornal ao vivo. Pequenas mais sortidas. Um balcão de madeira liso pelo uso no tempo; caixotes com arroz, feijão, farinha, açúcar, sal, rapadura, e nas prateleiras queijo, requeijão, velas e anzóis (não poderia faltar, pois na cidade tantos eram os pescadores de precisão ou só por gostar), e um mundo de quinquilharias de servir às senhoras damas e até a querosene para as lamparinas. Ah! de especial eram os tamancos e de tanta profusão levantando poeira nas ruas ou reproduzindo o toc-toc nas pedras do cais.

Era uma cidade gostosa de se viver. Nem tanta comodidade, nem tanto progresso tinha. Para quê? Tinha banda de música: os maestros Elísio Orbilon, Manoel Clemente, Joviniano Cunha; tinha os cavalos esquipadores com exibição de orgulhosos cavaleiros chegando ao Comércio (cidade). E tinha festa do Divino, com procissão guiada pelo Imperador empunhando a bandeira (e muito churrasco, depois, com boi doado por fiéis). Os feriados de respeito além dos oficiais: Santo Antônio, São João, São Pedro, Bom Jesus da Lapa, 13 agosto (dia de aziago), a Semana Santa inteirinha (na quaresma não havia festa, brincadeiras, nada de comer carne e de bebida alcóolica e imperava a lei do silêncio com muita penitência) – e a igreja sempre estava com a porta aberta (tão reverenciada por Vicente Celestino). Na saúde, o pequeno Hospital São Vicente de Paulo (hoje EE Brasiliano Braz), mas grande, muito grande mesmo, era o número de curadores, benzedeiras e parteiras – a farmácia estava na natureza. Na assistência dentária um protético: extração e dentaduras, somente. Farmácia só conhecida a do dr. Tarcísio Generoso, farmacêutico formado, outras eram de boticários. Na arte havia um avanço e muito entretenimento: teatro, serestas, bailes nas residências, bate-papo às tardes nas calçadas na frente das casas.

SÃO FRANCISCO NAS LENTES DO GUILHERME

  Guilherme Barbosa Pereira, professor, diretor da EE Everaldo Gonçalves, empunhando a sua máquina fotográfica transforma-se no artista das lentes, o Guilherme Barranqueiro. O Portal Veredas está postando algumas de suas belíssimas e expressivas fotos para que nossos leitores acompanhem a sensibilidade do fotógrafo e admirem como tem São Francisco cenários tão expressivos, belos e históricos.


A sensação que se tem na foto de dois barcos apoitados nas margens do São Francisco é de paz, repouso e de espera. Espera do raiar de novo dia para ir em busca do peixe. Na noite caída, lá do outro lado, no brilho das luzes do cais, vê-se o sinal da cristandade, a Matriz de São José, no alto do penedo onde foi plantada a cidade de São Francisco no final do século XIX.

sábado, 15 de agosto de 2026

UM PAÍS SEM EXCELÊNCIAS E MORDOMIAS - I

 


O estado de letargia de grande faixa de brasileiro leva a imaginá-los como zumbins vivendo um tempo sem perspectivas, sem se importar. O que acontece, e cada vez mais amadurecendo no País, é de se estarrecer. De ponta a ponta a esteira de escândalos em quase todas as áreas leva-se à incredulidade, ao extremo do absurdo e a perguntar: até quando o país vai suportar? Há uma vala, tal como o maior dos oceanos, entre o que vive a parte maior da população e um grupo de privilegiados, destacadamente a classe política que, no regime democrático, é a legítima representação do povo. Então, pergunta-se, que povo? Entre tantas e tantas ilustrações, encontramos o livro da jornalista Claudia Wallin com o sugestivo título “Um Pais sem Excelência e Mordomias” que mostra, com números, que é possível existir um pais com alto índice de desenvolvimento, com nível de vida da população muito elevado e com todas vantagens sociais possíveis tendo, ao mesmo, tempo, como no Brasil, uma representação popular.  Ela expõe, com dados, que é possível a existência de políticos e governantes vivendo como povo, com toda dignidade e igualdade.

Radicada na Suécia Claudia registra conversas com deputados que desconhecem mordomias e o tratamento de “Excelência”, que não aumentam o próprio salário e – acreditem – não entraram na vida pública para enriquecer ou levar vantagem.  Explica que o sistema político sueco é baseado em três pilares: transparência, educação e igualdade. Uma leitura capaz de provocar vergonha e raiva no leitor e no eleitor brasileiro – dois sentimentos que podem ser um bom começo para a mudança.

UM PAÍS SEM EXCELÊNCIAS E MORDOMIAS - II



No Brasil cada senador tem direito a um veículo oficial alugado pela Casa para uso em deslocamentos no Distrito Federal e entorno. Os deputados federais não recebem um carro oficial fixo individual fornecido diretamente pela instituição. O deslocamento e o aluguel de veículos em Brasília ou nos estados de origem são custeados por meio da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (conhecida como "cotão"). Cada deputado gerencia sua própria verba mensal da cota para alugar carro conforme a sua necessidade de sua atuação política

Na Suécia os parlamentares   vivem em apartamentos funcionais que chegam a ter 18 metros quadrados, e onde não há comodidades como máquina de lavar – as lavanderias são comunitárias. No Brasil senadores e deputados federais têm direito a moradia custeada pelo governo em Brasília, podendo escolher entre ocupar um apartamento funcional da União ou receber um auxílio-moradia em dinheiro caso o imóvel não esteja disponível ou não seja de interesse do parlamentar. Imóveis residenciais de grande porte (geralmente com cerca de 225 m², quatro quartos e mobiliados) mantidos pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal em áreas nobres de Brasília (Asa Sul e Asa Norte)

Nenhum deputado sueco tem direito a pensão vitalícia, plano de saúde privada nem imunidade parlamentar. No Brasil os parlamentares possuem acesso a programas de assistência médica de autogestão de alto padrão bancados parcialmente por recursos públicos e administrados pelas próprias Casas (como o SIS no Senado Federal e o Pró-Saúde na Câmara dos Deputados).

Ex-senadores que exerceram o cargo por um período mínimo (como 180 dias) e seus dependentes mantêm o direito ao plano de saúde de forma vitalícia.  Na Câmara: Os deputados contam com atendimento próprio e podem solicitar reembolsos ou manter a assistência conforme normas internas específicas da mesa diretora. Um caso à parte: o plano de saúde dos Correios foi para o beleléu, quem dependia de atendimento especializado ficou a ver navios.

NAS BRUMAS DO TEMPO - I

 


Corria a década de trinta anunciando a década de quarenta. São Francisco, como o Norte de Minas, parecia adormecido, quieta no tempo. A cidade era um pouquinho de nada com a maior força da população no meio rural. Ligação com o mundo era através do rio São Francisco – Sul e Norte. A ligação mais expressiva era com o Norte, através de vapores ou Estrada Baianeira, de onde veio grande contingente de sua população. As notícias demoravam chegar, que precário era o correio postal ou pelo telégrafo, com constantes avarias da rede de transmissão – trabalho para Zeca Correio, o guarda-fios. Uma caldeira alimentava pequena usina de geração de energia (prédio onde instala-se a Ong Preservar atualmente) apenas para luz em algumas ruas e casas, somente até 22 horas. No mais eram os lampiões ou fifós, e ninguém se importava, pois o costume era dormir com as galinhas e acordar com o canto dos galos. Ainda assim uma conquista, pois poucos anos antes a iluminação das ruas era com lampião a querosene. Cidade e roça eram a mesma coisa, não havia distinção. Moradores da roça, em especial os fazendeiros, vinham às atividades religiosas na cidade trajando ternos, e muitos eram do Apostolado do Sagrado Coração de Jesus; as mulheres, devotas Filhas de Maria. O transporte ainda era feito com carros-de-boi, que chegavam à cidade cantando, vindo por estradas poeirentas e cheias de valas – estradas-carreiras da região da Vaqueta, São Domingos pelo Norte;  Jiboia e Mocambo pelo Sul. E era grande o tráfego deles transportando cal, pedras, tijolos, lenhas e produtos agrícolas; levando mercadoria para embarcar em vapores e do porto para cidade as mercadorias desembarcadas. O movimento era grande. Para embarcar transportavam mamona e algodão, que muito expressiva era a produção do município. Do vapor para o mercado havia de tudo um pouco: pedras de filtro de água e torrefação de farinha, redes, colchas bordadas e outros itens. 

Outra movimentação do comércio se via através de mascates que passavam pela cidade de quando em quando oferecendo uma variada gama de produtos: espelhinhos, canivetes, facas, perfumes, pó-de-arroz, rouge, grampos, pentes e tantas coisas mais.