sábado, 16 de maio de 2026

O PÔR DO SOL

 



Várias tardes eu vaguei,

Nas coroas que são filhas

Do vale das maravilhas,

Do saudoso Noraldino; 

Indizível alegria

Se apoderava de mim,

Ao mirar o céu sem fim

De fulgor esmeraldino.



Nunca mais esquecerei

O belo efeito de luz,

Que de tarde o sol produz,

Ao despedir-se do dia,

Contrastando com a sombra

Da noite triste caindo

E, meigamente sorrindo,

O astro-rei se despedia.


Era uma vista soberba,

Era um cenário radioso,

Quando o astro formoso

No ocaso se escondia,

Fantasiando novos quadros

Das cores mais brilhantes,

Joias finas e elegantes

De encantadora poesia.


Se um dia quiseres ver

Esplendorosas pinturas

E o canto das saracuras,

Que é o hino do arrebol,

Vinde cá na minha terra, 

No meu torrão belo e arisco,

Vinde ver em São Francisco

Como é lindo o pôr do sol!


Revolvendo velho arquivo encontrei esta beleza de poesia com uma dedicatória: “Ao fulgurante talento do Professor João Naves. Januária, 21 de setembro de 1961. Joviniano dos Santos”. Como ele foi generoso comigo, um jovem professor 

Eu tinha um ano e meio de vivência em São Francisco, transferido da Escola Caio Martins do Núcleo Vale do Urucuia para dirigir o Centro de Treinamento para Jovens Líderes Rurais da Escola Caio Martins substituindo o Coronel Oscar Caetano, que se afastara depois de prestar inestimável contribuição à obra, que inaugurou. À época eu já era cronista do saudoso jornal SF-O Jornal de São Francisco o que ensejou, certamente, contado com o poeta Jovem da Mata.

Diante de tão inspirada poesia, que canta o maior e inigualável tesouro de São Francisco, antes que se perca no tempo, a publico no Veredas, rendendo homenagens ao amigo, para nós conhecido como da Jove da Mata, posto ser fazendeiro na Mata do Engenho, nas barrancas do São Francisco, município de Januária, cidade irmã de São Francisco. Enviada, ainda, cópias para o pessoal do Conselho Municipal da Cultura e Grupo Poetas de São Francisco.



13 DE MAIO: UMA DATA COM DOIS SENTIDOS

 


UM: O Dia de Nossa Senhora de Fátima comemorado intensamente pela Igreja Católica em dezenas de países, com destaque especial para Portugal onde ela apareceu para três pastorinhos.

DOIS: dia da Abolição da escravidão, a Lei Áurea assinada pela princesa Isabel em 1889. O ato provocou a impopularidade da Monarquia e a princesa Isabel foi a mais execrada principalmente pelos barões, os grandes fazendeiros do café, porque não foram indenizados pela perda dos escravos (a explicação dada a respeito não se justifica). A princesa foi esquecida pelos brasileiros, nem sequer é festejada a data da abolição, contudo deixou uma célebre mensagem: . "Se mil outros tronos eu tivesse, mil tronos eu perderia para pôr fim à escravidão!"]


TRÊS: escritores, políticos, jornalistas engenheiros e outros negros que se destacaram na história do Brasil e não são reverenciados, conquanto tanto se deve a eles.

José do Patrocínio: foi um dos maiores jornalistas, escritores e líderes abolicionistas do Brasil. Conhecido como o "Tigre do Abolicionismo", ele usou sua oratória e seus jornais para mobilizar a opinião pública contra a escravidão. 

Luiz Gama: advogado, abolicionista, orador, jornalista e escritor. É o Patrono da Abolição da Escravidão do Brasil. Nascido de mãe "negra, africana livre" e pai "fidalgo", Gama era livre quando o próprio pai o vendeu como escravo aos 9 anos de idade, e permaneceu analfabeto até os 17. 

André Rebouças: engenheiro, inventor, empresário e intelectual foi um dos mais importantes articuladores do movimento abolicionista 

Nilo Peçanha: professor, advogado, deputado, senador, governador e presidente da República. Teve papel importante no desenvolvimento da educação no país e na relação com os indígenas com um dos marcos mais importantes da história indigenista brasileira: a criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), que mais tarde deu origem à atual Fundação Nacional dos Povos Indígenas.

Sem dúvida, o Brasil coleciona outros vultos que foram esquecidos e não são reverenciados pelo tanto que fizeram à nação. 13 de maio, pelo que eles representaram no movimento abolicionista seria a data apropriada para lembrar do feito deles.

MUITO COM TÃO POUCO – I






O trabalho social no município tem se desenvolvido com a participação do voluntariado, associações comunitárias e outras que, às duras penas, promovem mudanças de destaque. Nesse campo encontra-se a Associação Esperança Capoeira que tem à frente Antônio Ferreira Silva, conhecido como Tok-Tok que há mais de 30 anos trabalha com crianças, jovens e adultos sem qualquer apoio do poder público. O centro de suas ações está no CT Esperança localizado no Jardim Milena, onde trabalha com crianças e adolescentes, de 7 a 16 anos ministrando-lhes aulas de capoeira e muay thai. Noutras áreas ele atende nas seguintes comunidades: Porto Velho, Bom Jardim, Santa Helena e na sede da Ong Preservar ministrando aulas de capoterapia para adultos, na maioria idosos; e capoeira e mauy thai para crianças e jovens. E mais, dedica-se ao futebol coordenando a equipe Unidos de São Francisco – infantil, juvenil e amador – que, atualmente, está disputando um torneio regional (Norte de Minas).

Os mestres Tok-Tok e Coyote, outro que se dedica à mesma atividade, recentemente levaram 2 jovens ao Rio de Janeiro para participar de um torneio nacional de muay thai que foram bem sucedidos sagrando-se campeões. Atualmente ele está preparando uma equipe de 8 alunos para participar de um torneio de muay thai regra K1, em Montes Claros, no dia 16, com a participação do CT Energia, de Coyote (inclusive um representante do município de Icaraí de Minas).

É formidável o trabalho do Tok-Tok praticamente voluntário, pois o que recebe pelas aulas de capoterapia e de alguns alunos, mal cobre as despesas de locomoção para as comunidades rurais, inclusive pagando a travessia da lancha. Quantos jovens mudaram de vida graças o envolvimento com as práticas esportivas e as lições recebidas no CT Esperança (o nome já diz tudo)?  

Apoio decisivo Tok Tok só tem recebido de Francis D´Ávila Soares (Nino) na parte organizacional e captação de recursos com o fim de custear as viagens dos alunos/atletas – tema para o próximo capítulo.  

sábado, 9 de maio de 2026

REFLEXÃO

 

O Brasil se encontra como um navio à deriva em alto mar açodado por violentas ondas que, à falta de lastro, está adernando com risco de naufrágio. Para o cidadão de bem e cônscios de seus deveres a situação é crítica se constituindo num verdadeiro dilema expressado em dito popular: “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. O fato é que o cenário é de total desencontro em todas as camadas. Destrambelhou-se a governança tornando-se difícil encontrar um porto seguro (qualquer um é um risco), pois as ondas convergentes não se ajustam e não permitem a governabilidade do leme do barco. 

No Brasil, pelo que se acompanha em eventos sociais, culturais e, principalmente,  artísticos, as pessoas que desejam uma rota do bem, alcançar um porto seguro, ficam desnorteadas. O governo federal não tem a indicação da rota segura, perdeu-se a bússola e, tenta-se tampar os rombos no caso do grande navio. Os marinheiros se desencontram nas ações. Querem, uns, arcar com a responsabilidade de conduzi o barco, produzem esforços nesse sentido; outros apenas esperam a ração e se contentam com isso sem se importar com a tragédia prevista, pois só se interessam pelo presente, o agora. Aí, conclui-se, tem falhado a escola de formação de marinheiros, pois nelas nada mais interessa do que o proselitismo, ou aproveitar-se de benesses apenas pelo comparecimento nela. Aprender, desenvolver-se, tudo não passa de mera questão de aproveitar o tempo. A educação afunda-se como o navio.

  Emite-se o SOS. Ouvidos moucos. O grito perde-se no etéreo. Na cabine confortável, desprezando o perigo, o capitão desenha rotas e mais rotas sempre com o propósito de encontrar um porto que seja do seu e dos seus. Leva-se a uma frase de Kant: “Age de tal modo que possas tratar sempre a humanidade, seja em tua pessoa, seja no próximo, como um fim; não te sirvas jamais disso como um meio”. Pois é, enquanto o capitão e seus comandados e seguidores agirem egoisticamente pensando apenas em si, a outra banda da tripulação corre o risco do naufrágio.

PROFESSORA SEBASTIANA PEREIRA DA SILVA

 


Muitos vultos que tiveram papel importante na história de São Francisco não têm destacados a sua importância e o seu trabalho em prol da coletividade e fatos de sua vida. Dos mais ilustres aos mais humildes, consultando suas trajetórias, descobre-se como foram elos significativos na composição de nossa história. Neste contexto temos a figura da professora Sebastiana Pereira, um caso à parte, pois seu nome foi dado a uma escola estadual (Santana de São Francisco) e Biblioteca da EE Dr. Tarcísio Generoso. Conquanto relevante os destaques, mister ir além e levar seu trabalho ao conhecimento público apresentando sua biografia.

A professora Sebastiana Pereira da Silva nasceu no dia 8 de agosto de 1939 e faleceu  29 de dezembro de 1979. Filha única do casal Francisco Rodrigues de Macedo e Maria Senhora Natividade, desde cedo demonstrou responsabilidade, força e sensibilidade. Era casada com José Rodrigues Damião com quem teve sete filhos, reconhecida sempre como uma mãe exemplar e uma filha dedicada. Uma destacada família na região de Santana de São Francisco (Jiboia).

Ela destacou-se como uma mulher provedora, resiliente e determinada, enfrentando desafios com coragem e dignidade. Com formação até o Ensino Fundamental (anos finais), cursado na EEDAM em São Francisco, demonstrou grande vocação para o magistério, o que se realizou, pois atuou por 24 anos como educadora em escolas rurais, com dedicação e compromisso. Lecionou na comunidade de Logradouro e foi professora fundadora da Escola Estadual Sapé de Relíquias. Trabalhou na Escola Estadual Doutor Tarcísio Generoso, onde encerrou sua carreira.

Contribuições e Legado: a professora Sebastiana foi uma educadora dedicada que transformou vidas por meio da educação, especialmente em comunidades rurais. Mesmo com poucos recursos, levou conhecimento, esperança e oportunidades a muitos alunos, deixando um legado de compromisso, amor e transformação social.

Sua memória permanece viva na comunidade escolar e entre todos que foram impactados por sua trajetória vê-se manifestações –  de ex-aluno: “Ela ensinava com paciência e carinho, e acreditava no potencial de cada aluno”. De uma ex-aluna: “Mais que professora, foi como uma mãe para muitos de nós”. De uma colega de trabalho: “Foi uma professora dedicada, que nunca desistia diante das dificuldades.”.

A professora Sebastiana sempre foi respeitada como dedicada mestra, comprometida com a missão e de trabalhar como agente transformadora da educação. Seu legado permanece vivo nas escolas, na comunidade e na memória de todos que tiveram a oportunidade de conhecê-la ou aprender com seu exemplo.

sábado, 2 de maio de 2026

LOCHA NOS DEIXOU

 



No dia 22 deste mês uma fatalidade levou o folião Locha ao encontro de sua esposa Tonica (Antônia da Silva Souza) que o precedeu no encantamento deixando-lhe imenso vazio, reclamado dia a dia. No dia 22  ele sentado no tradicional banquinho, como ficava todos os dias, na frente de sua casa, mais uma vez manifestou: “Tonica, venha me buscar”.  Ao regressar ao interior de seu lar, um escorregão e na queda sofreu uma concussão cerebral que o levou à morte. Foi realizado o seu pedido.

Filomeno Alves de Souza, era seu nome de batismo; Locha o nome comum entre seus companheiros dos ternos de folia e nos campos da Escola Caio Martins fabricando tijolos. Era uma criatura alegre, que se mostrava sempre tão feliz com vida, o que ele sempre  irradiava. Na Escola Caio Martins ele era parte de uma grande família, não apenas como oleiro, mas como grande companheiro e propagador do nosso folclore. Exímio folião, que se exibia tanto na caixa quanto na viola; criador de versos para as danças do Quatro e do Lundu sempre se inspirando na fauna, inventando palavras que ganhavam sentido conforme a história narrada no canto:  “Vô m´imbora, vô m´imbora não/ Pois eu vi duas roxa chorando debaixo do laranjá”, “Papai mamãe não qué que eu case com José/ José é um malandro, não dá conta da muié”. E o belo e sensível verso que embalava a dança do quatro: “Canarim preso na gaiola, que tristeza num será/ Canarim panhô solto, ôiá/ Que alegria num será/ Canarim, passarim bunitim/ Foi pra rua passeá”.

Na década de 1980, quando eu dirigia o Centro Integrado das Escolas Caio Martins de Esmeraldas, onde estudavam diversos jovens de São Francisco e região, formei um grupo para apresentações do nosso folclore – coral, dança e jogral. Sem problema para o coral e o jogral, mas no caso da dança, para ter autenticidade, reproduzindo o nosso folclore, era indispensável o toque inebriante da viola e o sonoro e apaixonado repique da caixa no lundu, no quatro e na catira. Encontrei um meio para resolver o problema, chamei o meu amigo Locha e ele, prontamente, passou meses no CI ensinando os repiques da caixa e os acordes da viola. Com nosso coral era convidado para apresentações em Betim, Belo Horizonte e, uma, de maneira especial em Divinópolis a convite do prefeito. O coral se apresentou em uma acústica em praça pública recebendo cumprimentos do prefeito e, especial, da grande poeta Adélia Prado – Locha foi parte do grande feito.

Em São Francisco Locha era um folião respeitado e amado, sempre alegre, feliz, criativo, excelente cantor e “dançador” do Quatro e do Lundu. Sem dúvida, um nome para a nossa galeria de mestres da arte popular ao lado de Minervino, Nego de Venança, Adão Barbeiro, Vicente Quiabo, Henrique Quente, como parte de uma galeria de tantos foliões que se transformaram em agentes que cultuavam, preservavam e divulgavam a nossa cultura.

Locha se encantou aos 85 anos. Com Tonica ele teve oito filhos (sete mulheres).

Locha, sentimos saudades. Você, agora estará tocando  viola com Minervino e Adão Barbeiro para agradar São Pedro.

REFLEXÃO

 


O poeta J.G. Jorge de Araújo inaugurou o soneto Naturismo com esta estrofe: “Foi aprendendo a ler que aprendi a pensar/ e hoje pelo pensar sou um degenerado, / – já foi puro o meu Ser, tal como a Luz e o ar,/ Como o ar e a luz de um céu sereno e descampado...”.

Um sentimento de pessimismo que leva a Shopenhauer, que defende que a existência é fundamentalmente sofrimento, movida por uma "vontade" (desejo) insaciável que gera frustração contínua. 

Tanto um caso quanto o outro leva-se ao momento que tem tornado a vida de muitos cidadãos brasileiros em uma incógnita: o que é certo e o que é errado. Vive-se, hoje, até mesmo o cerceamento da palavra, exigindo-se constante vigilância a respeito de tudo que possa expressar o pensamento. Ainda que pudesse ser caricato – para alguns, mas arguidor do pensamento do povo – o fato leva-se a uma das “tiradas” de Kafunga, comentarista esportivo: “O certo é o errado; o errado é o certo”. E, aí, volta-se a Schopenhauer, que argumenta que “a vida oscila como um pêndulo entre a dor (desejo não realizado) e o tédio (desejo realizado), tornando a felicidade duradoura impossível e a existência o "pior dos mundos possíveis”.

No Brasil da atualidade, aquele que de anos tantos passados era anunciado como “O País do futuro”, no cenário pátrio e internacional mostra-se em tela diferente. A sucessão interminável de escândalos políticos, financeiros, tráfico de influência, geração de influenciadores e por aí afora, são tantas as “verdades” que impossível é distinguir as tantas “mentiras”. E, enquanto isso, abre-se uma vala enterrando o país. E pensar que quando jovem ouvi a análise de um professor diante da então crítica situação do país, que pior não poderia ficar, pois ele já se encontrava no fundo do poço. Infelizmente ledo engano, muito otimismo, pois hoje vejo que o poço não em fim!