sábado, 15 de agosto de 2026

UM PAÍS SEM EXCELÊNCIAS E MORDOMIAS - I

 


O estado de letargia de grande faixa de brasileiro leva a imaginá-los como zumbins vivendo um tempo sem perspectivas, sem se importar. O que acontece, e cada vez mais amadurecendo no País, é de se estarrecer. De ponta a ponta a esteira de escândalos em quase todas as áreas leva-se à incredulidade, ao extremo do absurdo e a perguntar: até quando o país vai suportar? Há uma vala, tal como o maior dos oceanos, entre o que vive a parte maior da população e um grupo de privilegiados, destacadamente a classe política que, no regime democrático, é a legítima representação do povo. Então, pergunta-se, que povo? Entre tantas e tantas ilustrações, encontramos o livro da jornalista Claudia Wallin com o sugestivo título “Um Pais sem Excelência e Mordomias” que mostra, com números, que é possível existir um pais com alto índice de desenvolvimento, com nível de vida da população muito elevado e com todas vantagens sociais possíveis tendo, ao mesmo, tempo, como no Brasil, uma representação popular.  Ela expõe, com dados, que é possível a existência de políticos e governantes vivendo como povo, com toda dignidade e igualdade.

Radicada na Suécia Claudia registra conversas com deputados que desconhecem mordomias e o tratamento de “Excelência”, que não aumentam o próprio salário e – acreditem – não entraram na vida pública para enriquecer ou levar vantagem.  Explica que o sistema político sueco é baseado em três pilares: transparência, educação e igualdade. Uma leitura capaz de provocar vergonha e raiva no leitor e no eleitor brasileiro – dois sentimentos que podem ser um bom começo para a mudança.

UM PAÍS SEM EXCELÊNCIAS E MORDOMIAS - II



No Brasil cada senador tem direito a um veículo oficial alugado pela Casa para uso em deslocamentos no Distrito Federal e entorno. Os deputados federais não recebem um carro oficial fixo individual fornecido diretamente pela instituição. O deslocamento e o aluguel de veículos em Brasília ou nos estados de origem são custeados por meio da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (conhecida como "cotão"). Cada deputado gerencia sua própria verba mensal da cota para alugar carro conforme a sua necessidade de sua atuação política

Na Suécia os parlamentares   vivem em apartamentos funcionais que chegam a ter 18 metros quadrados, e onde não há comodidades como máquina de lavar – as lavanderias são comunitárias. No Brasil senadores e deputados federais têm direito a moradia custeada pelo governo em Brasília, podendo escolher entre ocupar um apartamento funcional da União ou receber um auxílio-moradia em dinheiro caso o imóvel não esteja disponível ou não seja de interesse do parlamentar. Imóveis residenciais de grande porte (geralmente com cerca de 225 m², quatro quartos e mobiliados) mantidos pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal em áreas nobres de Brasília (Asa Sul e Asa Norte)

Nenhum deputado sueco tem direito a pensão vitalícia, plano de saúde privada nem imunidade parlamentar. No Brasil os parlamentares possuem acesso a programas de assistência médica de autogestão de alto padrão bancados parcialmente por recursos públicos e administrados pelas próprias Casas (como o SIS no Senado Federal e o Pró-Saúde na Câmara dos Deputados).

Ex-senadores que exerceram o cargo por um período mínimo (como 180 dias) e seus dependentes mantêm o direito ao plano de saúde de forma vitalícia.  Na Câmara: Os deputados contam com atendimento próprio e podem solicitar reembolsos ou manter a assistência conforme normas internas específicas da mesa diretora. Um caso à parte: o plano de saúde dos Correios foi para o beleléu, quem dependia de atendimento especializado ficou a ver navios.

NAS BRUMAS DO TEMPO - I

 


Corria a década de trinta anunciando a década de quarenta. São Francisco, como o Norte de Minas, parecia adormecido, quieta no tempo. A cidade era um pouquinho de nada com a maior força da população no meio rural. Ligação com o mundo era através do rio São Francisco – Sul e Norte. A ligação mais expressiva era com o Norte, através de vapores ou Estrada Baianeira, de onde veio grande contingente de sua população. As notícias demoravam chegar, que precário era o correio postal ou pelo telégrafo, com constantes avarias da rede de transmissão – trabalho para Zeca Correio, o guarda-fios. Uma caldeira alimentava pequena usina de geração de energia (prédio onde instala-se a Ong Preservar atualmente) apenas para luz em algumas ruas e casas, somente até 22 horas. No mais eram os lampiões ou fifós, e ninguém se importava, pois o costume era dormir com as galinhas e acordar com o canto dos galos. Ainda assim uma conquista, pois poucos anos antes a iluminação das ruas era com lampião a querosene. Cidade e roça eram a mesma coisa, não havia distinção. Moradores da roça, em especial os fazendeiros, vinham às atividades religiosas na cidade trajando ternos, e muitos eram do Apostolado do Sagrado Coração de Jesus; as mulheres, devotas Filhas de Maria. O transporte ainda era feito com carros-de-boi, que chegavam à cidade cantando, vindo por estradas poeirentas e cheias de valas – estradas-carreiras da região da Vaqueta, São Domingos pelo Norte;  Jiboia e Mocambo pelo Sul. E era grande o tráfego deles transportando cal, pedras, tijolos, lenhas e produtos agrícolas; levando mercadoria para embarcar em vapores e do porto para cidade as mercadorias desembarcadas. O movimento era grande. Para embarcar transportavam mamona e algodão, que muito expressiva era a produção do município. Do vapor para o mercado havia de tudo um pouco: pedras de filtro de água e torrefação de farinha, redes, colchas bordadas e outros itens. 

Outra movimentação do comércio se via através de mascates que passavam pela cidade de quando em quando oferecendo uma variada gama de produtos: espelhinhos, canivetes, facas, perfumes, pó-de-arroz, rouge, grampos, pentes e tantas coisas mais. 

SÃO FRANCISCO NAS LENTES DO GUILHERME

  Guilherme Barbosa Pereira, professor, diretor da EE Everardo Gonçalves, empunhando a sua máquina fotográfica transforma-se no artista das lentes, o Guilherme Barranqueiro. O Portal Veredas está postando algumas de suas belíssimas e expressivas fotos para que nossos leitores acompanhem a sensibilidade do fotógrafo e admirem como tem São Francisco cenários tão expressivos, belos e históricos.


A foto desta edição tem um significado muito peculiar e histórico. Trata-se de um trecho da rua Antônio Ferreira Leite (o Maroto) um político emblemático na história de São Francisco, sobretudo pela passagem de Antônio Dó em seu governo. Era tão grande a desavença que Dó manda terríveis recados para ele, através da população: “Vou fritar Sancho Ribas na sanha de Maroto” duas personagens envolvidas na desdita de Antônio Dó, que o levou à vida de jagunço. Detalhe: Sancho era magro e Maroto muito gordo.

Destaque: o trecho é da praça Centenário à praça Januária, com a matriz no fundo – a foto transmite um sentimento de paz, de remessa ao passado.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

ERAS DO ANO – Um passeio no universo urucuiano

 A QUATRAGEM ERAS DO ANO


Quatro com grupo folclórico da Escola Caio Martins de São Francisco


Eu nunca clamei minha vida

Hoje em dia estou clamando

Meus trabalhos vão seguindo

Na regra dos meses do ano

Moça, por seu respeito,

Vivo no mundo penando

Chorei saudade

Recebi o seu desengano


Menina, por seu respeito

Eu sofro o ano inteiro

Sofro paixão por você

De janeiro a janeiro

Menina, o seu olhar

Que me faz ficar banzeiro

Fico triste apaixonado

Seu amante o ano inteiro

Chorei saudade

Do seu olhar banzeiro


Fevereiro, março e abril

Três meses que passei mal

Coração firme e amoroso

Como o meu não tem igual

Seu coração é falso

O meu firme e leal

Seu coração é falso

Me faz sofrer noite e dia

Chorei saudade

Por viver sem alegria


Maio, junho e julho

Meu rabalho foi dobrado

Lembro de você, morena

E fico triste apaixonado

Um coitado como eu

Que só vivo incomodado

Sujeito a sofrimento

Porque não estou ao seu lado

Não posso esquecer

Chorei saudade

Daquele tempo passado



Quando entra o mês de agosto

Logo vai entristecendo

Que o ar fica parado

E o sol fica tremendo

Logo vai chegando a tarde

A fumaça vai descendo

Coração fica amoroso

Logo vai entristecendo

Não posso me esquecer

Chorei saudade

Porque não estou te vendo”


Setembro, outubro e novembro

Eu me queixo com razão

Não posso me acostumar

Com aquele primeiro trovão

Passo o dia e passo noite

Naquela imaginação

Não posso me esquecer

Chorei saudade

A nossa separação


Dezembro é o fim do ano

Completa o meu sofrimento

Não como, não bebo nada

Minha paixão é meu sustento

Tem dia que mal resisto

A todo este sofrimento

Sem vida, sem alegria

Não posso me esquecer

Chorei, saudade

De sumir pelo mundo adentro.

ERAS DO ANO – Um passeio no universo urucuiano

 

Quatro com grupo de foliões


A vez primeira que eu a ouvi foi no misterioso sertão urucuiano, na fazenda Conceição, à luz de um lampião, na quatragem do grupo Serrano: a Eras do Ano. Voltando ao Urucuia, outra vez a ouvi em uma escola da então vila Porto de Manga, na voz de Maria Helena, ex-aluna da Escola Caio Martins de São Francisco. Apaixonei-me pela melodia e pela letra da dança quatragem que, no Urucuia era denominada Guaiano (não encontrei explicação para este nome a ela relacionado) que inclui no repertório do coral da Escola Caio Martins de São Francisco. Despertou a minha atenção a indolência da música e a malemolência dos dançarinos levando a uma onírica viagem pelos gerais e vãos urucuianos, bebendo nas cristalinas águas das veredas ou pousando nas mansas águas do Conceição. A letra narra uma história apaixonada de um caboclo, um clamor do fundo da alma associando, cada verso, ao seu cotidiano: o trabalho, a natureza, levando a um sentimento profundo de paixão no correr de cada mês do ano. É precisa a expressão do sentimento, numa simplicidade que exalta um amor profundo e a ansiedade pela possibilidade de uma perda: “Eu nunca clamei a minha vida, hoje estou clamando”. E chega com uma frustação: “Menina, por seu respeito eu sofro o ano inteiro, que sofro de paixão por ti de dezembro a janeiro”. E de quadra em quadra vai cantando a sua paixão com extravasado sentimento e tristeza. E vai de mês a mês: “Menina, por seu respeito/Eu sofro o ano inteiro/ Sofro paixão por você/ De janeiro a janeiro”. Um primor é o verso revelando o sentimento no mês de agosto: “Quando entra o mês de agosto/ Logo vai entristecendo/ Que o ar fica parado/ E o sol fica tremendo/ Logo vai chegando a tarde/ A fumaça vai descendo/ Coração fica amoroso/ Logo vai entristecendo/ Não posso me esquecer/ Chorei saudade/ Porque não estou te vendo”. E fecha dezembro com um verso nostálgico: Dezembro é o fim do ano/ Completa o meu sofrimento/ Não como, não bebo nada/ Minha paixão é meu sustento/ Tem dia que mal resisto/ A todo este sofrimento/ Sem vida, sem alegria/ Não posso me esquecer/ Chorei, saudade/De sumir pelo mundo adentro. Bonito quatro. Muito bonito, mas de tristeza profunda, paixão lá de dentro do coração de suscitar Schopenhauer (A vida oscila incessantemente entre a dor e o tédio).

CAMINHOS PARA A OPACIDADE


Guilherme Barbosa Pereira, professor, diretor da EE Everaldo Gonçalves, empunhando a sua máquina fotográfica transforma-se no artista das lentes, o Guilherme Barranqueiro, que tem mergulhado no universo da fauna barranqueira registrando a sua riqueza com mais de 200 espécies de aves. O Portal apresentará, a partir desta edição, um painel dos seus registros de paisagens são-franciscanas: um primor visual com muita sensibilidade.

Neste outeiro, banhado pelo rio São Francisco foi implantado o povoado Pedra dos Angicos e nele, os primeiros marcos da civilização foram o cruzeirinho e a capela de São José. Tempos passados Pedras dos Angicos transformou-se em cidade de São Francisco e a pequena capela na bela Matriz consagrada a São José. O outeiro é o mesmo e o São Francisco ainda o beija em jornada eterna, pois como disse Guimarães Rosa, “com mais amor!” E o barco leva o homem, o pescador, o vazanteiro, marcos do liame homem-rio-terra.