sábado, 3 de outubro de 2026

DE UMA PROMESSA À REALIDADE

 


Na flor da infância ele já demonstrava a sua veia artística tomando um prato de mesa inox como bateria, que ficou amassado. O pai então comprou uma bateria para ele que, no entanto, foi atraído pelo Cajon e demonstrou, de imediato, o domínio do ritmo acompanhando o pai em cantarolias no ambiente familiar. Passo seguinte encantou-se com o teclado e, logo, tocava trechos de composições de Mozart e Beethoven. As cordas o atraíram vendo o pai tocar no ambiente familiar e na Igreja. Chamou atenção imediatamente um fato: tinha o ouvido absoluto e logo dedilhava, com propriedade o violão. Vendo-o tocar um tio dele lançou um desafio: “Dou 15 dias para você acompanhar a música Sapato Velho (Roupa Nova)”. Como menos de uma semana ele procurou o tio e exibiu o acompanhamento da música. O tio ficou espantado e foi adiante: “Quero ver você acompanhar uma música de João Bosco”. Pouco tempo corrido ele demonstrou que aprendera o acompanhamento, indo além, cantando a música.  Naquele momento nasceu uma paixão:  começou a tocar e a cantar músicas (complicadas) de João Bosco. Um sucesso. O pai premiou seu talento nato matriculando-o na escola de violão do professor Igor. Deu-se bem, logo já fazia leitura de partituras tocando clássicos da Idade Média. Família, amigos e músicos, todos o que o ouviam ficaram impressionados. De uma feita ele surpreendeu a família e amigos  convidando-os para uma viagem musical em uma ambiente que lembrava um palco de música de câmara. Durante uma hora e trinta minutos ele cantou quase todas as canções (dificílimas) de João Bosco passando, ainda, por clássicos de Vinícius de Morais e Tom Jobim... Hoje, com 14 anos, ele domina o violão de 7 cordas de maneira magistral, reconhecido e muito elogiado por músicos e amantes de música. Foi importante o incentivo dos tios Ricardo e André conduzindo-o a João Bosco.

O menino é Emanuel Naves, filho de Eduardo (Dudu) e Nádia. 

SÃO FRANCISCO NAS LENTES DO GUILHERME

 


Gui com sua câmara viaja o universo são-franciscano registrando os encantos da fauna alada e momentos especiais de nosso cotidiano. Há sempre um motivo, mas de especial a presença do rio São Francisco, razão de São Francisco com a marcante estampa da igreja Matriz de São José que, nas origens vem dos momentos primeiros da cidade.


Os caminhos

– como teia de aranha

Levam a um ó ponto:

Este porto


(Viajando Sete portos – JNM)


O pescador não tem tempo de partir, não tem tempo de chegar. O que tem de certo é o seu porto.

CONHECENDO VULTOS DE NOSSA HISTÓRIA

 MARIA ALVES PEREIRA – II


Outras e importantes lembranças vividas por dona Maria Pretinha nas décadas de 1925/1930. Ficou marcada na memória dela uma atrocidade, infelizmente comum naquela era, a morte de Antônio Bispo dos Santos – Antônio Barriga – sumariamente executado pela polícia do tenente Alcides do Amaral. Um fato macabro ela narrou: “A mulher de Barriga Branca mandou uma menina procurá-lo e ela foi parar no pátio da Delegacia. Ao ser indagado sobre o paradeiro dele, o tenente Alcides tirou um lenço do bolso do defunto, passou-o pelo sangue da ferida provocada pelos tiros e o entregou à menina dizendo: aqui está ele. Vai mostrar para a sua mãe”.

Maria Pretinha lembra de Elísio Horbilon, uma figura icônica na sociedade são-franciscana daquela época: “Era um homem forte, inteligente, que sabia dar remédio para sarar qualquer doença. Ele participava do movimento dos vicentinos na Igreja São Félix e fazia reuniões nas furnas da Lapinha (Sociedade Reino Lapínico)”.

Maria Pretinha acompanhou de perto o reboliço que foi a morte de Odorico Mesquita “numa emboscada quando ele voltava, a cavalo, de sua fazenda Carrapicho” e conta os detalhes macabros com árvores tombadas no meio da estrada para impedir a passagem de cavaleiros.

A lembrança de Maria Pretinha passa por coisas boas falando de Reginaldo que tinha um ajoujo que servia para a fazer a travessia do rio. “O ajoujo, para ir mais de pressa tinha uma vela feita com um cobertor. Se ameaçava chuva com muito vento, ele arriava o cobertor para evitar de virar o ajoujo”. Ela lembra que Reginaldo tinha um filho que era muito inteligente (Professor Raul Reginaldo lembrado com o nome de uma escola na cidade).

Maria Pretinha conta que ajudou na construção da igreja matriz carregando pedras, tijolos e areia. Sorrindo, ela lembra do ajudante Joia “um homem muito feio, igual à mulher do sarampo,  que caiu da torre da igreja, em pé e não morreu. Foi o primeiro milagre de São José” em São Francisco.  

sábado, 26 de setembro de 2026

DIA DA ÁRVORE

 


Conquanto tenha diminuído a sua importância; conquanto tenha sido objeto de palanque político; conquanto ainda é fonte de renda, a árvore não tem merecido respeito e relevada a importância quanto à sobrevivência da humanidade. Lá se foi o tempo em que nas escolas  eram realizadas cerimônias especiais com o plantio de árvores insuflando nas crianças o amor e respeito pela natureza. Era comum uma criança plantar uma árvore e nomeá-la carinhosamente. Nos últimos anos a ciência tem comprovado que as árvores e o homem têm muito mais em comum do que poderíamos pensar. Assim como nós, elas se comunicam, mantêm relacionamentos, formam famílias, cuidam dos doentes e dos filhos, têm memória, defendem-se de agressores e competem ferozmente com outras espécies.... Registros fantásticos as descobertas de um mundo oculto sobre a árvores, o que elas sentem, encontra-se no formidável livro do biólogo alemão Peter Wohlleben – A vida secreta das árvores, resultado de pesquisas de mais de 20 anos.

Por cá não se revela tanto amor pelas árvores. Basta ver a devastação do cerrado, a supressão de árvores na área urbana e o pouco que se dá de atenção à árvore. Uma pena, especialmente aqui na cidade que enfrenta um clima de temperatura muito elevada sabendo-se que em ambiente arborizada suporta-se mais a intempérie.

Salve a árvore que apareceu com a criação do mundo no Éden. 

UM REGISRO CULTURAL IMPORTANTE

 


Keila Moraes Rodrigues e Aline Cardoso Lima*  trazem uma contribuição muito valorosa para a divulgação e preservação de um fato cultural expressivo e marcante no folclore são-franciscano: uma estudo sobre o “Terno Reis dos Temerosos: origem, características e simbolismo culturais.”

É repetido que o município de São Francisco tem um valioso acervo folclórico, em diversas vertentes, que não tem merecido uma melhor atenção – divulgação e publicações. Em tempos corridos, não tão longe, a ONG Preservar esteve à frente de grandes eventos que envolviam as escolas do município e o público, a cada ano, com as famosas Raízes São-franciscanas. Foram mais de uma dezena de eventos, representados a cada ano.

Depois, como uma nuvem que passa ao sabor do vento, não mais se falou do assunto. Pena! Uma publicação, anterior a esta, é o livro Folclore de São Francisco, de João Naves de Melo, com um compêndio de todas as manifestações do nosso folclore, sem contudo, aprofundar nas raízes como se tem agora, com o trabalho de Keila e Aline.  O tema é importante e oportuno, pois são reduzidas as pessoas que têm ideia da origem e desenvolvimento deste auto que é tão apreciado no município, onde é mantido com insistência – aqui chegou, nos idos da década de 1960, na Escola caio Martins com uma apresentação de João Damaceno (Januária). Adão Barbeiro viu, gostou e criou um grupo em São Francisco, que vige até hoje. Contar esta história é mito importante sobre o ponto de vista cultural e, sobretudo da história.

Belo e importante trabalho que merece e precisa ser  apresentado em todas as escolas do município e para o conhecimento da sociedade.


*Keyla é graduada em Pedagogia pela Unopar, m Comunicação  Institucional pela Belas Artes-SP e pós graduada em Arte Cultural e Educação pela Unopar.

Aline é Mestre em História Social pela Unimontes.

SÃO FRANCISCO NAS LENTES DO GUILHERME

 “No rastro da lua cheia

Se chega a qualquer lugar”

                                             Almir Sater


Cantado em prosa e versos é o pôr do sol em São Francisco. À tardinha, o chamado à meditação e ao repouso – o são-franciscano chega ao cais e estende o olhar ao crepúsculo, é a hora mágica.

A lua cheia é diferente, pois quando ela desce ao acaso os admiradores do Sol ainda estão em repouso. Pena! É preciso olhar, admirar e enternecer-se quando ela desce e deita o rastro prateado no São Francisco. E vai que o rastro beija a proa de um barco que chega ao porto, que chega a um lugar. 


CONHECENDO VULTOS DE NOSSA HISTÓRIA

 MARIA ALVES PEREIRA – I


Pontos marcantes na história de São Francisco extraídos de entrevista concedida por Maria Alves Pereira, a famosa Maria Pretinha,  o jornal O Barranqueiro no ano de 1997, reproduzido no livro Às margens do São Francisco: a cidade e sua gente, publicado online - Amazon. 

Maria Pretinha veio ao mundo no dia 9 de setembro de 1910 na pequena vila dos pescadores, no Quebra, descendente de gorutubanos (mudaram para São Francisco por causa da grande seca que assolou aquela região). Aos 14 anos ela foi morar na rua Direita, que era “puro mato”, que quando ela voltava para casa em noite escura só “acertava o caminho pelo brilho dos lampiões acesos pelos homens subindo em escadas”.

Maria Pretinha não pode estudar, pois tinha que trabalhar para manter a casa e os irmãos com a morte de sua mãe. Chegou a frequentar a escola de dona Marcionília (São Francisco ainda não tinha o grupo escolar) e teve como professoras donas Rodolfina, Graziela Pereira e dona Alice Mendonça. Famosa em toda a região como grande cozinheira, criou a família com a cozinha, dizia orgulhosa. Cozinhou 26 anos para o político Carolino do Amor Divino; cozinhou em vapores no itinerário Pirapora-Juazeiro; levou pratos típicos da cozinha são-franciscana para exposição em Montes Claros; servia aos grandes eventos na cidade: recepção a políticos, festas, formaturas, confraternização dos funcionários do Banco do Brasil. Eram famosos seus pratos: o tempero dos seus peixes, o assado (leitão e frangos). .

O lado triste. Volvendo o pensamento ao passado, ela dizia: “Meu filho, São Francisco hoje é um céu”. E por quê? Ela lembrou com certa amargura e tristeza: “era comum, a cada amanhecer do dia, encontrar gente morta pelas ruas da cidade ou abandonadas em canoas a ermo. Os homens eram perversos, viviam em revoltas, todo mundo vivia com medo”.