O quadro dos barqueiros do Volga da Rússia czarista em tempos outros e longe, leva à dureza e à resignação dos remeiros do rio São Francisco no século XIX. O quadro evoca a imagem de pessoas simples, que enfrentavam o sofrimento, a exaustão e o peso de sua sina com determinação e resistência. Os barqueiros do Volga eram escravizados, os remeiros do São Francisco não o eram, contudo sua sorte não era melhor, pois muito intenso era o seu sofrimento como descreve Zanoni Neves no livro Os remeiros do rio São Francisco. O curso da navegação das barcas de Pirapora a Juazeiro era da 1.371 km e uma viagem, ida volta, podia durar 3 ou mais meses. No século XIX navegam de 200 a 300 barcas no rio como transporte de mercadorias atendendo até mesmo regiões mais afastadas do rio (caso de Contendas e Formigas). A vara que os remeiros utilizavam para empurrar as embarcações rio acima eram instrumentos de trabalho contundentes, isto é, que produziam ferimentos. Com uma extremidade da vara apoiada no peito e a outra fincada no leito do rio, os remeiros faziam um grande esforço para mover a barca contra a correnteza. O contato do instrumento com a pele provocava o surgimento de pequenas bolhas no peito. A terapia para curar o ferimento era a utilização de toucinho quente, fervendo (ou sebo quente) aplicado ao ferimento –muito útil para formação do calo. Às vezes era necessário segurar o recruta pelos pés e pelas mãos, pois a terapia não era propriamente indolor. Enquanto sarava do ferimento de um lado do peito, o remeiro era trocado de coxia trabalhando com o outro lado do peito. Apesar de toda essa dificuldade, eles continuavam firmes em seu trabalho. A vida deles era puxada, mas eles não desistiam, continuavam firmes. Por mais que a vida fosse pesada e sofrida, eles fizeram história.
BARQUEIROS
“Não há como não amá-los, pobres inocentes”
O quê de dor de Dostoievski
contemplando
O arrastar da sina dos barqueiros do Volga
Firme, puxa! Não largue não!. Firme puxa!
Importa pouco a dor, a exaustão, o suor
A grossa corda penetrando dura no ombro
Arrancando mais que sangue a desesperança
Firme, puxa! Não largue não!. Firme puxa!
E o Volga deslizando seu destino rumo ao mar
Tão sereno, belo, grandioso e indiferente...
Barcaças pesadas singram o São Francisco
Empurradas por rijos e pesados varejões
Cravados nos peitos sangrando de remeiros
No sangue que brota vasando no peito
Emplastam-se postas de
toucinho quente
A barcas sobem e descem moto perpétuo
Remeiros escravos se arrastam pelas coxias
Empurrando as zingas na água de sol a sol
Da proa à popa expondo o seu medalhão
Firme empurram! A sina de pobres inocentes.
Onde o paraíso que seja deles, o seu fim?
Tudo do TODO tem o tempo da semeadura...
Do Primeiro Motor tem o tempo da colheita
Qual seja o estágio, nada escapa à Lei
Quem está em cima está em baixo
Quem está embaixo está em cima
Existem muitos planos de casualidade,
Ensina O Caibalion: Tudo tem o seu tempo.
Barqueiros do Volga, remeiros do São Francisco
Estão no Criador o seu tempo e seu refrigério



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