sábado, 24 de outubro de 2026

GERAÇÃO CORPO DE BOMBEIROS



  A família Cunha Lima tem profunda relação com São Francisco, Corpo de Bombeiros e Escolas Caio Martins, tudo começando com Juventino Cunha Lima, nascido no dia 10 de outubro de 1905, filho de Floriano Cunha Lima (nasceu no mesmo ano da criação da cidade de São Francisco) e Cristina Gonçalves Porto. Juventino era um homem de múltiplos ofícios: padeiro, apicultor, escultor e, principalmente músico – na década de 1930 ele foi maestro de uma das bandas de música de São Francisco. Quis melhorar a vida indo para São Paulo, mas acabou ficando em Belo Horizonte a convite de um amigo que o viu tocando bombardino. Impressionado com a performance dele, o levou ao Corpo de Bombeiro, onde ele fez um teste e, à primeira demonstração, tocando bombardino, foi chamado para fazer parte da Banda da Corporação, iniciando-se como sargento, isso em 1929. Fez imenso sucesso. Conhecido dele, dos tempos de São Francisco, o coronel Manoel Almeida, fundador das Escolas Caio Martins, o convidou para formar uma banda de música na Escola Caio Martins de Esmeraldas. Ele foi e levou a família onde também ocupou a chefia de um lar de crianças.  Em pouco tempo a banda já exibia-se em belas performances. Cumpriu a missão.

Passo seguinte foi acontecendo com seus filhos Nilson, Dilson, Wilson e Edson que, se incorporam-se no Corpo de Bombeiros como músicos. Com Dilson (casado com Dora, filha de Sizínio, ex-secretário da Prefeitura Municipal de São Francisco)  gravou-se a história da Quarta Geração da família Cunha Lima no Corpo de Bombeiros: Juventino, Dilson (filho), Vanderlei (neto) e Pedro Lima (bisneto).

Dilson, na década de 1970, repetiu a história de Juventino: foi reestruturar a banda de música da Escola Caio Martins de Esmeralda, com excelente trabalho.

SÃO FRANCISCO NAS LENTES DO GUILHERME


  O itinerário fotográfico de Guilherme é eclético, ora percorre trilhas nas margens do rio embrenhando-se na mata  e lagoas em busca das aves, ora permanecendo no rio com todo seu encanto e paisagens históricas da cidade. De quando em quando uma escapadela pelas ruas e avenidas da urbe e, aí, foca o cotidiano, a beleza da cidade em movimento. Nesta foto ele foca três transportes citadinos que têm causado preocupação no trânsito: carros, motos e bicicletas. Mas importante é a delicadeza do foco: a mulher conduzindo, protegida do sol, a sua criança.


Que importa  o corre-corre da cidade

O ir e vir avexado de tantos carros

E até mesmo o tão causticante sol 

Se tem a garupa e a sombrinha da mãe!


JNM

CONHECENDO VULTOS DE NOSSA HISTÓRIA

 MULHERES DE SÃO FRANCISCO – III


São tantas as mulheres que desempenharam importante papel na história de São Francisco tornando-se difícil elencar todas elas. Através das relacionadas nesta publicação, homenageamos todas elas que, sem dúvida, são pilares importantes na construção da sociedade são-franciscana.

Nesta edição focamos dois grupos que se destacam como protagonistas da cultura são-franciscana.


ARTESANATO DO BURITI DO MEIO


A comunidade quilombola Buriti do Meio é uma referência no município na área do artesanato de barro cuja fama estende-se além fronteiras. Mulheres da comunidade se fizeram  artistas do barro fabricando potes, gamelas, moringas, bilhas e vasos, que logo ganhou o comércio de São Francisco e de outras cidades. Elas se destacam, ainda, noutra área do folclore: um grupo famoso de dançadeiras da Coruja, do Carneiro, do Maculelê, do Lundu e as cantigas de roda. Das Neves se destaca como representante do grupo em encontros sociais e culturais.


DANÇA DE RODA


Um relevante destaque cultural de São Francisco é o grupo Saia Rodada da comunidade de Mocambo que sempre brilha em apresentações em eventos na cidade, lideradas por Maria Inês. Dançam, além da roda, o Lundu, Carneiro e o Tamanduá. O que chama atenção do grupo é a participação de mulheres idosas dançando e cantando como gozasse do vigor da juventude: está na alma.

sábado, 17 de outubro de 2026

REMEIROS DO RIO SÃO FRANCISCO


O quadro dos barqueiros do Volga da Rússia czarista em tempos outros e longe, leva à dureza e à resignação dos remeiros do rio São Francisco no século XIX.  O quadro evoca a imagem de pessoas simples, que enfrentavam o sofrimento, a exaustão e o peso de sua sina com determinação e resistência. Os barqueiros do Volga eram escravizados, os remeiros do São Francisco não o eram, contudo sua sorte não era melhor, pois muito intenso era o seu sofrimento como descreve Zanoni Neves no livro Os remeiros do rio São Francisco. O curso da navegação das barcas de Pirapora a Juazeiro era da 1.371 km e uma viagem, ida  volta, podia durar 3 ou mais meses. No século XIX navegam de 200 a 300 barcas no rio como transporte de mercadorias atendendo até mesmo regiões mais afastadas do rio (caso de Contendas e Formigas). A vara que os remeiros utilizavam para empurrar as embarcações rio acima eram instrumentos de trabalho contundentes, isto é, que produziam ferimentos.  Com uma extremidade da vara apoiada no peito e a outra fincada no leito do rio, os remeiros faziam um grande esforço para mover a barca contra a correnteza. O contato do instrumento com a pele provocava o surgimento de pequenas bolhas no peito. A terapia para curar o ferimento era a utilização de toucinho quente, fervendo (ou sebo quente) aplicado ao ferimento –muito útil para formação do calo. Às vezes era necessário segurar o recruta pelos pés e pelas mãos, pois a terapia não era propriamente indolor. Enquanto sarava do ferimento de um lado do peito, o remeiro era trocado de coxia trabalhando com o outro lado do peito. Apesar de toda essa dificuldade, eles continuavam firmes em seu trabalho. A vida deles era puxada, mas eles não desistiam, continuavam firmes. Por mais que a vida fosse pesada e sofrida, eles fizeram história.


 

BARQUEIROS

 

“Não há como não amá-los, pobres inocentes”

O quê de dor de  Dostoievski contemplando

O arrastar da sina dos barqueiros do Volga

Firme, puxa! Não largue não!. Firme puxa!

Importa pouco a dor, a exaustão, o suor

A grossa corda penetrando dura no ombro

Arrancando mais que sangue a desesperança 

Firme, puxa! Não largue não!. Firme puxa!

E o Volga deslizando seu destino rumo ao mar

Tão sereno, belo, grandioso e indiferente...

 

Barcaças pesadas singram o São Francisco

Empurradas por rijos e pesados varejões

Cravados nos peitos sangrando de remeiros

No sangue que brota vasando no peito

Emplastam-se  postas de toucinho quente

A barcas sobem e descem moto perpétuo

Remeiros escravos se arrastam pelas coxias

Empurrando as zingas na água de sol a sol

Da proa à popa expondo o seu medalhão

Firme empurram! A sina de pobres inocentes.

 

Onde o paraíso que seja deles, o seu fim?

Tudo do TODO tem o tempo da semeadura...

Do Primeiro Motor tem o tempo da colheita

Qual seja o estágio, nada escapa à Lei

Quem está em cima está em baixo

Quem está embaixo está em cima

Existem muitos planos de casualidade,

Ensina O Caibalion: Tudo tem o seu tempo.

Barqueiros do Volga, remeiros do São Francisco

Estão no Criador o seu tempo e seu refrigério

 

BARQUEIROS DO VOLGA

 “Não há como não amá-los, pobres inocentes” -  Dostoievski 

JNM

Menino eu era, pequeno estudante no Instituto João Pinheiro em Belo Horizonte. No segundo ano de escola, com apenas 13 anos interessei-me pela música ingressando na Academia de Teoria Musical. Nas aulas havia o estudo do coral solfejando e cantando belas canções. Uma, de maneira especial guardei na memória: Barqueiros do Volga, que ficou internalizada em meu espírito – uma balada triste, profunda e angustiante de barqueiros puxando, pelo barranco, as barcas no rio, com grossas cordas enroladas no peito. No fundo o canto de incentivo: “Firme puxa! Firma puxa! Não largue não! Firme puxa!” E desenvolvia a canção em versos pungentes narrando a angustia, o desespero e a frágil esperança dos pobres barqueiros: o chão duro que era seu leito, do céu azul que era seu cobertor e, o anseio, num canto de dor “Liberdade!. Liberdade!”

Tantos anos transcorrido quis reviver a canção e, então, deparei-me com o célebre quadro de Ilya Repin (1844–1930), um dos maiores expoentes do realismo russo, fielmente retratando os pobres barqueiros. Impressionante realismo, transparecendo tanta dor, tanto sofrimento na fisionomia de cada um daqueles pobres homens. E, depois,  aporto-me em São Francisco e, em pouco, fico conhecendo a história dos remeiros das barcas do São Francisco. A semelhança está na dor e na esperança de uma nova vida.  Não com tanta crueldade a interpretação dois casos leva à reflexão sobre a dureza e a resignação dos trabalhadores ribeirinhos, como os barqueiros do Volga. Ele evoca a imagem de pessoas simples, que enfrentam o sofrimento, a exaustão e o peso de sua sina com determinação e resistência, simbolizada pelo repetido comando "Firme, puxa!". A narrativa faz uma comparação entre a grandiosidade indiferente do rio e a dura realidade dos barqueiros, que, apesar do sacrifício, continuam em sua jornada. Há uma reflexão sobre o destino e o ciclo da vida, inspirada em conceitos como o de semeadura e colheita, sugerindo que tudo tem seu tempo determinado, conforme ensinado pelo o Caibalion. 

Na vida, tudo está junto e misturado, e o trabalho duro deles também tem um lugar especial no coração de Deus. No fim, apesar de toda a dificuldade, existe um carinho e um amor que cuidam da gente. Quer dizer que, por mais que a vida seja pesada e sofrida, Deus não esquece de ninguém, e um dia o descanso e a paz chegam para todo mundo.



SÃO FRANCISCO NAS LENTES DO GUILHERME

 

As lentes do Guilherme passeiam no universo barranqueiro – ora registram paisagens deslumbrantes do pôr-do-sol, da lua cheia e de cromos incríveis, ora mergulham no universo das aves que tanto enfeitam a orla do rio na cidade – uma beleza incrível que, pela pressa poucos enxergam.

Três fatos de rara beleza. A postura de calma e espera do jaburu; o banho das garças colhereiro e o voo de esquadria das parceiras de lagoa e voo. Jaburu-moleque (cabeça-seca) e o colhereiro.

CONHECENDO VULTOS DE NOSSA HISTÓRIA

 MULHERES DE SÃO FRANCISCO – II

Uma mestra que também se distinguiu na música foi professora Maria Eunícia Gomes – tempos dos saraus, das serenatas ao luar, serenatas nos ajoujos, no meio do rio São Francisco, em noites quentes. Ela compôs belas valsas e hinos. A professora Maria Eunícia fazia parte do grupo das primeiras professoras de São Francisco, que lecionavam em cinco Escolas Isoladas que funcionavam na Casa dos Cassi: Graziela Pereira, Eralina Pereira, Hercília, Marcionília e Rodolfina. Com a construção do grupo escolar Coelho Neto (1936), as cinco primeiras classes foram ocupadas pelas professoras Alice Mendonça (primeira diretora), Graziela Pereira Generoso, Noemi Morais Pinto, Lieta Gonçalves Mendonça, Ismaelita Gonçalves Mendonça e Maria Eunícia. As estagiárias Carmênia Castro de Oliveira e Ilda Pinto.

Nomes importantes desfilam na história de São Francisco entre tantas fantásticas mulheres: Eulina Ferraz Gangana, Jandira de Souza Pinto, Josefa Ferreira da Silva (uma vida dedicada aos idosos no antigo Asilo), Juracy Sá (uma vida dedicada à educação), Lená Caetano Ribas (que viveu no exílio político de Oscar Caetano, seu pai, no Urucuia), Maria Francisca dos Santos (a Maria Pereira que organiza grupos para as romarias a Santo Antônio de Serra das Araras, uma dedicação de muitos e muitos anos), Maria Mendes (dedicada extremamente aos movimentos sociais promovendo muitos jovens e assistindo muitas crianças), Maria Lindaura  Santos (criou e dá todo suporte à Associação de Homens e Mulheres da Terceira Idade), Luzia Lustosa Ferreira (suporte para o trabalho profissional e político do seu marido Manoel Ferreira),  Maria Augusta Braz (suporte no lar do trabalho político do seu esposo Brasiliano Braz), professora Terezinha Ribas (dedicada à arte), Natália Viana Canabrava (educadora e música), Cecy  Maynart (a admirada e amada tia Cecy do Jardim Bom Menino). Um destaque especial: as mulheres do Grupo de Seresta de São Francisco que tanto e tanto sucesso fez anos atrás levando o nome da arte são-franciscanas a outras plagas.