Quatro com grupo de foliões
A vez primeira que eu a ouvi foi no misterioso sertão urucuiano, na fazenda Conceição, à luz de um lampião, na quatragem do grupo Serrano: a Eras do Ano. Voltando ao Urucuia, outra vez a ouvi em uma escola da então vila Porto de Manga, na voz de Maria Helena, ex-aluna da Escola Caio Martins de São Francisco. Apaixonei-me pela melodia e pela letra da dança quatragem que, no Urucuia era denominada Guaiano (não encontrei explicação para este nome a ela relacionado) que inclui no repertório do coral da Escola Caio Martins de São Francisco. Despertou a minha atenção a indolência da música e a malemolência dos dançarinos levando a uma onírica viagem pelos gerais e vãos urucuianos, bebendo nas cristalinas águas das veredas ou pousando nas mansas águas do Conceição. A letra narra uma história apaixonada de um caboclo, um clamor do fundo da alma associando, cada verso, ao seu cotidiano: o trabalho, a natureza, levando a um sentimento profundo de paixão no correr de cada mês do ano. É precisa a expressão do sentimento, numa simplicidade que exalta um amor profundo e a ansiedade pela possibilidade de uma perda: “Eu nunca clamei a minha vida, hoje estou clamando”. E chega com uma frustação: “Menina, por seu respeito eu sofro o ano inteiro, que sofro de paixão por ti de dezembro a janeiro”. E de quadra em quadra vai cantando a sua paixão com extravasado sentimento e tristeza. E vai de mês a mês: “Menina, por seu respeito/Eu sofro o ano inteiro/ Sofro paixão por você/ De janeiro a janeiro”. Um primor é o verso revelando o sentimento no mês de agosto: “Quando entra o mês de agosto/ Logo vai entristecendo/ Que o ar fica parado/ E o sol fica tremendo/ Logo vai chegando a tarde/ A fumaça vai descendo/ Coração fica amoroso/ Logo vai entristecendo/ Não posso me esquecer/ Chorei saudade/ Porque não estou te vendo”. E fecha dezembro com um verso nostálgico: Dezembro é o fim do ano/ Completa o meu sofrimento/ Não como, não bebo nada/ Minha paixão é meu sustento/ Tem dia que mal resisto/ A todo este sofrimento/ Sem vida, sem alegria/ Não posso me esquecer/ Chorei, saudade/De sumir pelo mundo adentro. Bonito quatro. Muito bonito, mas de tristeza profunda, paixão lá de dentro do coração de suscitar Schopenhauer (A vida oscila incessantemente entre a dor e o tédio).

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