sábado, 15 de agosto de 2026

NAS BRUMAS DO TEMPO - I

 


Corria a década de trinta anunciando a década de quarenta. São Francisco, como o Norte de Minas, parecia adormecido, quieta no tempo. A cidade era um pouquinho de nada com a maior força da população no meio rural. Ligação com o mundo era através do rio São Francisco – Sul e Norte. A ligação mais expressiva era com o Norte, através de vapores ou Estrada Baianeira, de onde veio grande contingente de sua população. As notícias demoravam chegar, que precário era o correio postal ou pelo telégrafo, com constantes avarias da rede de transmissão – trabalho para Zeca Correio, o guarda-fios. Uma caldeira alimentava pequena usina de geração de energia (prédio onde instala-se a Ong Preservar atualmente) apenas para luz em algumas ruas e casas, somente até 22 horas. No mais eram os lampiões ou fifós, e ninguém se importava, pois o costume era dormir com as galinhas e acordar com o canto dos galos. Ainda assim uma conquista, pois poucos anos antes a iluminação das ruas era com lampião a querosene. Cidade e roça eram a mesma coisa, não havia distinção. Moradores da roça, em especial os fazendeiros, vinham às atividades religiosas na cidade trajando ternos, e muitos eram do Apostolado do Sagrado Coração de Jesus; as mulheres, devotas Filhas de Maria. O transporte ainda era feito com carros-de-boi, que chegavam à cidade cantando, vindo por estradas poeirentas e cheias de valas – estradas-carreiras da região da Vaqueta, São Domingos pelo Norte;  Jiboia e Mocambo pelo Sul. E era grande o tráfego deles transportando cal, pedras, tijolos, lenhas e produtos agrícolas; levando mercadoria para embarcar em vapores e do porto para cidade as mercadorias desembarcadas. O movimento era grande. Para embarcar transportavam mamona e algodão, que muito expressiva era a produção do município. Do vapor para o mercado havia de tudo um pouco: pedras de filtro de água e torrefação de farinha, redes, colchas bordadas e outros itens. 

Outra movimentação do comércio se via através de mascates que passavam pela cidade de quando em quando oferecendo uma variada gama de produtos: espelhinhos, canivetes, facas, perfumes, pó-de-arroz, rouge, grampos, pentes e tantas coisas mais. 

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