sábado, 14 de julho de 2018

CANTINHO DA POESIA

PASSARINHOS/MENINOS


                                                              João Naves de Melo















Os passarinhos estão morrendo
E ainda não aprenderam
Voar
Cantar
... estão morrendo.

Os passarinhos estão morrendo...
Coitados!
Eles ou  nós?

Tenro corpo vestido de penugem
Largado dentro de uma caixa fria
Em antro beco
Lixo
Não voou
Não cantou

Um pio, ensaio de gorjeio
Em um galho verde, florido...
Ensaiava a vida
Um sonho
Uma lufada de vento o levou

Os passarinhos estão morrendo...
Coitados!
Eles ou nós?

O passarinho deixou o ninho
Os olhinhos brilhavam
Descobriam a luz do mundo
Sentiam chegar a vida
A tempestade veio e tudo levou.
Seu galho
Seu voo
Seu ninho.

Os passarinhos estão morrendo...
Coitados!
Eles ou nós?

Na moita seca do mato frio
O menino quase pisa
No que foi um passarinho.
Penas secas
Perninhas rígidas
Vida sem vida

Os passarinhos estão morrendo
Matados
Matados
Cruelmente

Coitados!
Eles ou nós?

VOZES DOS CIDADÃOS

João Naves de Melo

MARLENE PINTO CUNHA

 Professora Marlene é parte importante da história de São Francisco, pelo ramo familiar e pela grande contribuição dada no campo da educação, como professora, inspetora de ensino e diretora.
Ela nasceu em São Francisco no dia 13 de setembro de 1934, filha de João Pinto Novais, nordestino de Crobogó – PE, e Hilda Guimarães Pinto, nascida em Montes Claros – ela foi do primeiro quadro de professores do grupo escolar Coelho Neto, tendo atuado, antes, em escola particular, de dona Eralina, situada no rua Padre Paraíso, próxima à casa de Tuzinho.
Marlene cursou o primário no grupo escolar Coelho Neto (hoje escola estadual). Foi, depois,  para Januária, onde permaneceu estudando durante 7 anos, no internato do Ginásio São João que, àquela época, recebia alunos do sul da Bahia e de outras regiões de Minas. Marlene faz boas referências do colégio que era dirigido pelo padre João Florisval Montalvão, um grande mestre.
De Januária, Marlene foi para Montes Claros onde no Colégio Imaculada fez o curso de normalista – muito comum, naquela época, para as moças da sociedade são-franciscana. Formou-se no ano de 1953 e, no ano seguinte, começou trabalhar como professora no grupo escolar Coelho Neto, onde permaneceu durante 7 anos. Deixou a sala de aula para criar, em São Francisco, a inspetoria municipal de ensino, que foi regulamentada pelo Estado ficando no cargo durante 3 anos.
Fato marcante viria acontecer depois: por puro idealismo Marlene criou a EE Raul Reginaldo. Ela tomou conhecimento que tinha o decreto de  criação, mas não tinha a  escola. O governo criou a escola, mas não tinha onde ela funcionar. Então ela tomou a empreitada de instalar a escola, mas sequer tinha os móveis (carteiras). Foi à luta realizando quermesses e pedindo ajuda no comércio. No segundo ano conseguiu o mobiliário para a escola com a ajuda de Manoel Almeida, educador que via nela muito idealismo. Depois, com o então prefeito Aristomil chegou o mobiliário novo. A escola começou a funcionar na antiga casa dos Mesquita (casarão que existia na praça da Igreja Matriz há muitos anos demolida) Isso foi em 1966. Marlene então deixou  a EE Coelho Neto, onde atuava como professora designada, e foi ocupar o cargo de diretora da  Escola Raul Reinaldo. Veio o concurso público do Estado para função de professora e Marlene a ele se submeteu , sendo classificada em 1º lugar e, assim, voltou à EE Coelho Neto como professora efetiva. Em l988 para 1989 ela aposentou-se. Aos cinquenta anos de idade deixou São Francisco por contingência da vida, ou seja, o encaminhamento dos filhos nos estudos, indo primeiro para Brasília-DF e, depois para Montes Claros  onde vive atualmente.
A VIDA FAMILIAR
Marlene casou-se em 1954 com José Carlos da Cunha – Cazuza – secretário executivo do hospital de São Francisco, então unidade da Fundação SESP. Com ele teve os filhos: Diana Maria, Carlos Roberto, Virgílio, Ernesto, Paulo Guilherme, José Carlos, Dione Maria, Denise Maria e Esnard.
Foi o casamento de duas importantes famílias: Pinto e Cunha. Cazuza era filho de Arnaldo Cunha, membro de uma importante família são-franciscana que, entre tantos e ilustres membros, encontram-se o coronel José Ortiga, Heráclito Ortiga, João Ortiga, Lado, Izo, Ló que tiveram destacado papel na história de São Francisco.
MARLENE E A MÚSICA
Violinista de formação (curso no Conservatório Musical  Lorenzo Fernandes de Montes Claros) ela se inclinou, muito cedo para a música. No Colégio São João, Januária, ela participou da orquestra que era dirigida por dona Zizi, muita famosa na região. Em São Francisco ela teve como mestra a musicista Virgínia Canabrava – “um fenômeno”, diz Marlene, “ela chamou atenção de professores de música do conservatório Lorenzo Fernandes, que indagavam com curiosidade: “como pode uma pessoa que só toca violão ensinar tão bem violino e bandolim?”
Com o violino Marlene participou, desde a fundação, do grupo de Seresta de São Francisco. Lembra ela que saiu, da E.E. Coelho Neto, uma lista de 60 músicos e cantores, que foram levados ao então prefeito municipal de São Francisco, Severino, que manifestara a intenção de criar um coral na cidade. Dona Virgínia e Clarice Sarmento foram as primeiras coordenadoras dos ensaios do grupo que contava, além de Marlene, com Zilma Magalhães, Conceição Figueiredo, Ivanilde Lacerda, Natália  Canabrava, Conceição Figueiredo, Lourinha da Mata, como instrumentistas.
Formando, o grupo de seresta fez uma brilhante apresentação em Diamantina e outras cidades do estado, sempre com muito sucesso.
NOS CAMINHOS DE SÃO FRANCISCO
Curiosidade histórica que marca a família da professora Marlene Pinto em São Francisco. Sabe-se que as origens de São Francisco tem maior ligação com o Nordeste e o principal  tronco de sua etnia veio por dois caminhos: pelo rio São Francisco e pelo interior. Pelo rio São Francisco vieram os primeiros, de Domingos do Prado e Oliveira, descendente de Matias Cardoso, a viajantes que, com o correr dos anos, singraram as água do rio em vapores. Pelo interior, outro remanescentes do povoado Morrinhos, hoje Matias Cardoso, Antônio Figueira, que fundou a fazenda Formiga que, mais tarde veio a ser Montes Claros. Por esse caminho, no desbravar o sertão, famílias chegaram a Contendas (Brasília de Minas) dela a Jacu (Luislândia) e, depois a São Francisco.
Por um desses caminhos vieram para São Francisco João Pinto Novais (Pernambuco) e Hilda Guimarães Pinto,  Montes Claros.

sábado, 7 de julho de 2018

CANTINHO DA POESIA


SE O TEMPO NÃO PASSASSE
                    João Naves de Melo



Se o tempo não passasse.
Se pudéssemos parar
somente naquilo que fosse agradável
e desse prazer;
se o tempo não tivesse de correr
e se fosse possível detê-lo
apenas no que nos fosse aprazível,
seria tão bom. Impossível.
E a lição vem de tão longe,
vem marcada através de milênios,
de profetas a profetas;
sábios a sábios
e até mesmo no saber
do homem simples do campo.
Ensina o Eclesiaste
 - há tempo para tudo.
 Ora, então é conformar
e agradecer pelos bons momentos
ou, então, alimentar a esperança,
quando se enfrenta as tormentas,
olhando na linha do horizonte
para enxergar um raio de luz.
Eu, se pudesse,
estaria até hoje no Urucuia,
aprofundado nos gerais,
mergulhado nas verdes e frescas veredas,
sorvendo a água pura nas locas
que cantam acompanhada,
a sua canção do frufrau
das ramagens sopradas pela brisa.
Deitar na relva, com a barriga para cima,
para que os olhos se perdessem
no mais profundo céu,
um abismo azul sem fim, sem fim
e às vezes pintado de nuvens brancas
que ganham formas diversas
conforme o vento.
Se pudesse queria estar
cortando trilhas brancas
no pelo de um burro de bom andar,
com o vento soprando na cara
as notícias do campo,
vindo sabe-se lá de onde
- ali, tão escoteiro,
pensando, sonhado, cantarolando
e com saudades da amada
ou do que não tive.
Estar debaixo da abóbada celeste
em noites estreladas
- no sertão existem mais estrelas
do que qualquer parte do mundo;
ou então na espera
da chegada da lua cheia
 - que sensação prazerosa, divina:
chega, primeiro, uma brisa suave,
fresca, que vai acelerando...
é o sinal; depois um leve clarão
atrás da mata, é o berço dela;
a brisa cresce e as copas das árvores
são delineadas com mais ver,
com mais luz.
De repente, elevada por mãos carinhosas,
surge uma coroa, um tanto mais,
e o corpo resplandece de cheio.
É prata pura!
Segue o seu destino, o seu caminho,
subindo, desliza para a parábola 
deixando o berço e faz com que
toda o cerrado se cubra de prata.
A gente pode enxergar mais longe,
através de uma luz frouxa, diáfana
- é o ver e não ver sem maltratar os olhos.
Se pudesse queria estar mergulhado
no Ribeirão da Conceição,
perto da loca do surubim dorminhoco,
ouvindo seu ronco e, dali, depois,
descansar numa areia branca, macia,
à sombra de uma moita de surucaba,
tendo ao fundo o capão de angicos
e, lá na grimpa acompanhar
as estripulias dos barbados.
 Se pudesse queria estar
Na boleia do caminhão Ford Francês,
Meu companheiro de tantas jornadas,
zunindo nas estradas arenosas
para ter o vento batendo na cara,
com cheiro gostoso do mato
e, de quando em quando
- se fosse o tempo -
o perfume da caraibinha;
atolando em bancos de areia,
ou nas entradas dos rios;
cruzando pontes perigosas,
mas viajando, viajando, sem ontem,
hoje ou amanhã.
                                   Se pudesse... se pudesse.
Esse foi o meu tempo, meu universo.
Não posso voltar, mas posso levá-lo
e, repensando cada momento dizer:
como fui feliz.
Se pudesse...




PEQUENA CRÔNICA

VEJA NO QUE DEU

A secretaria municipal de Obras deliberou dar curso ao projeto de melhoria da orla do rio São Francisco,  projeto iniciado ainda no governo do padre José Antônio quando, com verba do Ministério do Turismo, foi pavimentado o dique entre o bairro do Quebra e entroncamento com rua Hermano Diamantino (saída para São Romão, bairro da Luzia).  Além da pavimentação asfáltica foram feitas algumas importantes obras: praça dos Pescadores, com a construção de dois prédios/bares para incentivo ao turismo, corrimão e passeio da praça dos Pescadores até a ETA da Copasa. Considerando essas obras, que tiveram a licença do Ibama, outras intervenções ocorreram na orla, a começar pela construção do dique pelo governo federal. São elas: bar das Pedras, bares/barracas e bar restaurante Peixe-Vivo, no cais; bar Dois Irmãos: construção de uma casa (moradia) e área com culturas anual e perene; Clube Campestre Carquejo e bar Três Becos com área de mais de um hectare trabalhada.
Na visão geral tem-se que toda a orla do rio São Francisco, na área urbana, do bairro Quebra ao bairro da Luzia foi antropizada. O maior prejuízo à orla ocorreu com a construção do dique que o propósito de proteger a cidade de enchentes do rio São Francisco, motivado pela enchente e 1979. Por ironia, o rio, desde aquele ano até tempos atuais, nunca mais vazou. Pudesse ele falar certamente manifestaria o seu desagrado por ter sido isolado da cidade. Isso também sentem os são-franciscanos que viveram o tempo em que   sua visão alcançava as águas do rio, de longe, sem precisar chegar ao barranco. Era cidade e rio sem barreiras. O dique foi construído à revelia da população, e ninguém se importou.
Antropizada a orla, foram surgindo as construções – algumas em decorrência de projetos bancados pelo governo federal e outras por iniciativa particular. E tudo foi dado como bem.
Em Pirapora, Januária, Manga e São Romão, observa-se que a orla do rio São Francisco, em cada uma delas, é urbanizada. Pirapora, a partir do Hotel Canoeiros, até antigos prédios da Navegação, é totalmente urbanizada – bares, campos de futebol, parques, tudo em contato direto com o rio. Na cidade de Manga uma bela praça, como a nossa dos Pescadores, foi levantada a prumo no barranco do rio.
Pois bem, na orla do São Francisco, aqui na cidade, restou uma área medindo 600 metros de comprimento por 30 metros de largura coberta por variada vegetação – essências arbóreas nativas e exóticas – como as palmeiras e palmáceas; e muito capim formando moitas. Com o correr dos anos, muitas árvores, em decorrência da idade, foram morrendo formando-se, em decorrência um emaranhado de mato, uma cortina espessa que impede a visão do rio e a penetração da claridade da iluminação pública. Criou-se um ambiente que tem servido para despejo de lixo – de toda espécie: cachorro e gato mortos; entulhos de construção, móveis descartáveis, garrafas e plásticos, muito plástico. Serviu, também, para acobertar grupos que se escondem na área para o uso de drogas (fato denunciado por pescadores, quando do regresso das pescarias, à noite, temerosos) e encontros libidinosos, assustando as pessoas.
Foi, assim, o propósito da secretaria de cuidar da área: limpar (não desmatar como dizem), criar trilhas e um local de lazer. Um projeto sem corte de árvores nativas, apenas as exóticas e mato.
Iniciado, o serviço foi denunciado à Polícia Ambiental, que o embargou, desconsiderando os fatos acima elencados.
Obra embargada, população não atendida e, um castigo: uma mão criminosa ateou fogo na pequena mata. Ficou pior. Nem uma coisa, nem outra, restando o desastre, o ambiente feio. Quem lucrou?

sábado, 30 de junho de 2018

MULHERES DE SÃO FRANCISCO – II

João Naves de Melo*
As irmãs Virgínia, Ditinha e Vita, as artistas da música: orquestra feminina de cordas Santa Cecília, escola de música, belas canções compostas. Elas se foram, a música secou – não mais orquestra, escola e juventude voltada para a bela arte.
Uma grande mestra, ainda viva, também se distinguiu na música, professora Maria Eunícia – tempos dos saraus, das serenatas ao luar, serenatas nos ajoujos, no meio do rio São Francisco, em noites quentes. Ela compôs belas valsas e hinos. Ela, nos seus 93 anos, é parte viva da história da cidade, desde os tempos conturbados, tendo sua família sofrido momentos de aflição, quando vivia no meio rural, com a passagem da famosa Coluna Prestes pela região: “quem disse que a Coluna invém, capano os home e as muié tomem?”.
Essas e outras grandes mulheres, já vividas: professora Graziela, mulher do primeiro doutor-farmacêutico de São Francisco, Tarcísio Generoso – uma grande mestra. Professora Alzira Coutinho, mestras Hercília e Marcionília, das primeiras da cidade, lecionando em escolinhas de fundo de quintal, Hilda Pinto. Quantas mulheres fantásticas que fizeram história.
No geral, sem distinguir nomes, tenho carinho especial por grupos que, com suas atividades, fizeram a história do município passando-nos lições de vida. As poteras de Buriti-do-Meio – comunidade formada somente de negros, oriundos, também, do Gorutuba e das minas de Grão Mogol, remanescentes de escravos. Fabricam potes, bilhas, bacias, travessas, vasos, tudo de barro, artesanalmente, sem nenhum instrumento senão o olho do enxadão ou a costa do facão para cortar e bater a argila. Peças lindas, mimosas, enfeitadas e coloridas que ganham plagas alhures. Preço-precinho, mas que ajuda na sobrevivência de anos a fio. Nas horas de folga ou quando chove, e no barro não dá para lidar, cosem o famoso “cordão de São Francisco” para cingir a cintura do passado na sua última viagem. Bom cristão não pode ser enterrado sem levar o cordão de São Francisco bem arrumado.
Lembrar é preciso das mulheres tantas que ajudaram no crescer do município, através da agricultura de subsistência: na cultura da mandioca. Aquelas que agrupavam a família e contavam com a ajuda dos vizinhos, desde o plantio à fabricação da farinha, quando, num grande mutirão, encontravam a oportunidade de rever sua vida: o dia-a-dia, a troca de informações quanto às receitas de remédios caseiros e crendices; quando contavam suas histórias e falavam dos seus pequenos sonhos. Tiravam a casca da mandioca, torravam a massa no forno; preparavam a tapioca tão importante na alimentação diária, no fabrico de biscoitos, bolos e becos – muitos tirados no quente da pedra do forno; e na preparação da valiosa puba (nos tempos idos ela tinha valor de dinheiro, quando ele pouco corria: “sinhozinho está cheio da puba!”). A história de uma gente que chegou aos hodiernos através das noites de mutirão. No plantio da mamona a história quase se repetia e o que se guarda, como agregação da família, além do plantio, colheita e bateção dos bagos, eram as viagens à cidade acompanhando o carro-de-boi que levava as sacas de mamona para vender ao atacadista. Tanta alegria nos olhos das meninas carregando capangas cheias de bagos de mamona que seriam trocadas por tostões com um só fim: comprar pão para comer, molhado na groselha. Desejo tão pequeno, mas que significava uma realização, o que o modernismo enterrou.
A presença dessas mulheres no trabalho é tão marcante que ainda hoje, quando as culturas são outras e os recursos maiores, podem ser medidos a sua força, coragem, disposição e o espírito de proteção da família.

ADÃO BARBEIRO

28 de junho de 2003 com a viola em punho, ensaiando os primeiros acordes, deixou nosso mundo Adão Barbeiro. Preparava-se para sair com seu terno de foliões para homenagear o santo do qual era devoto: São Pedro.
Adão Fernandes de Souza, mais conhecido como Adão Barbeiro, é uma figura ímpar em nossa comunidade. Com o seu amigo de profissão, Gino (Higino Antônio), ele dividia o ofício de barbeiro com uma grande paixão: o rio São Francisco, onde sempre  foi considerado grande pescador.
Desde 1959, ele estabeleceu seu ponto à rua Silva Jardim, nº 534, um salão modesto, cercado de espelhos, tralha de pescador e instrumental folclórico: cacetes, violão, caixas, pandeiros e reco-recos. Ali, entre uma tesourada e outra, ele ia contando histórias – rolando a vida de São Francisco, passagens interessantes de pescarias e a sua última e grande paixão: o folclore.
De menino, Adão já gostava de folia-de-reis – foi lá pras bandas do Bom Jardim, seguindo o imperador – seu Elias. Aprendeu os repiques da viola – isto pelas eras de 58. Até hoje é folião-mor, mestre do lundu – a famosa dança da garrafa –  dançar o lundu, equilibrando uma garrafa de pinga na cabeça, lundu do facão – uma verdadeira arte de brandir o instrumento no ar e no chão, tirando chispa de fogo, passando-o entre as pernas, enquanto  sapateava. Por fim, para ir mais além, pois sempre quer ver o povo alegre e se divertindo, fundou um grupo para mostrar nossa cultura, tendo como expressão maior o Rei dos Cacetes.
E foi com o Rei dos Cacetes e suas danças que Adão se apresentou na 31ª Semana do Folclore, em Belo Horizonte, em 1995, onde ganhou uma medalha de honra ao mérito.
Adão levou seu grupo a rodas por várias cidades de Minas, sempre se apresentando com muito sucesso: Montes Claros, Pirapora, Buritis, Chapada Gaúcha e Belo Horizonte; em Goiás – Chapada dos Veadeiros e Brasília-DF. Foi alvo de vários artigos em revistas de circulação nacional, citado em livros e participando de vários especiais para a televisão. Tornou-se uma celebridade nacional, procurado por pesquisadores e escritores da cultura popular e por estudantes.
Ele recebeu, em solenidade realizada em Pirapora, a Estrela Guia e faixa de Folião, conferidas pela Comissão de Foliões Fluminense do Rio de Janeiro.
Adão Barbeiro, com sua arte, com seu trabalho e amor à nossa cultura, precisa ser sempre lembrado  como exemplo para todos no sentido de se preservar nossas tradições, pois assim seremos um povo mais unido e forte no avançar dos tempos.
João Naves de Melo

PATRIMÔNIO HISTÓRICO

São Francisco ainda não tem uma política pública direcionada à valorização do patrimônio histórico. Basta dizer que o município tem tombado apenas o Cruzeirinho da frente da Matriz São José. No mais, apenas a lei que criou o perímetro urbano histórico, a área compreendida entre as avenidas Presidente Dutra (orla do rio), Brasiliano Braz; Dom Pedro de Alcântara e Odorico Mesquita. Garante-se, em tese, a conservação de prédios históricos, mas não rende ICM cultural para o município porque não foram tombados pelo IEPHA.
É possível que não se adianta muito nas providências para o tombamento de bens materiais e imateriais e na exploração do turismo porque na população do município não se vislumbra  interesse para o aspecto cultural e histórico. É uma pena, pois para o município tal exploração poderia render muitos recursos através do ICM Cultural e do incentivo ao turismo. É o que se vê em tantos municípios de Minas. Agora mesmo alcançou grande repercussão a reforma da Basílica de Bom Jesus de Congonhas cuja construção foi iniciada no ano de  1757.
Foi um acontecimento e tanto a reabertura da igreja depois da restauração, tanto para os moradores da cidade quanto para turistas.
O início da construção dessa catedral aconteceu 20 anos da criação da cidade de São Francisco, cujo marco histórico que resta, da mesma data, é a igreja São Félix.
Em Espírito Santo do Pinhal, em recente visita, uma caravana de são-franciscanos, deparou-se com belíssimos casarões, verdadeiros palácios da época dos barões (destaque para o Palácio do Café). Um destaque especial, das antigas edificações, anota-se o prédio que hoje abriga o Grupo Escolar Dr. Almeida Vergueiro fundado em 1847 – 30 anos antes da criação da cidade de São Francisco. Na comemoração do centenário da escola, esteve presente o então presidente da República, Eurico Gaspar Dutra.
É admirável como o povo de Espírito Santo do Pinhal conserva e valoriza o seu patrimônio histórico cultural. Em primeiro momento podemos nos deter diante da beleza e imponência dos prédios, que resistem ao tempo; segundo por sentir que suas paredes guardam período da história de um povo – desde o germinar de uma civilização aos dias atuais.   O casario conta a história de um povo. Uma simples casa, onde foi criada uma família, tem sua história, seu fascínio e o apego sentimental das pessoas nela criada.