sábado, 11 de janeiro de 2025

UM PRESENTE DO CÉU



 Sábado, 11 de janeiro o nível do São Francisco chega aos 7,30m. Um alívio depois de meses vendo-o tão minguado, com suas águas encurraladas por bancos de areia, com a travessia da lancha em uma distância não vista antes. Com suas barrancas ornadas de frondosas e verdejantes árvores, ainda que em grande extensão ela fora derrubada (com receio do rio, que ironia).

O rio está cheio e ainda sobe porque continua a chuva no alto São Francisco e região do Noroeste alimentando o Urucuia e o Paracatu. No cais vê-se, às tardes, muita gente   – homens, mulheres e crianças; jovens fazem peripécias em velozes jet ski com arrojadas manobras arrancando a admiração do público; chalanas e pequenos barcos a motor navegam serenamente apinhados de passageiros; ouve-se os comentários, sempre recordando as enchentes maiores, quando era possível, no cais, ficar com os pés dentro d´água, pescando com alguns garantindo ter tirado dourados das águas vermelhas. Sem dúvida, é uma festa Abençoado seja nosso rio.

Agora, cabe uma reflexão ou pergunta: por que da cheia tão bela? É evidente a resposta de primeira: deve-se à chuva, um presente do criador. Sem ela, como se via até a pouco tempo, nosso São Francisco para ser navegando, até mesmo por pequenas embarcações, preciso era procurar canais. Isto foi comprovado nos passeios da chalana do Dirceu que exigia conhecimento dos raríssimos canais. Então, indo anos atrás, lá pelas décadas de 1950 e 1960, ainda, via-se aportar no cais de São Francisco uma variedade de belos vapores – Benjamim Guimarães, Wenceslau Braz, São Francisco e de grandes batelões. Era pelo rio feito o transporte de passageiros e de cargas; era a ligação com o Nordeste e com Pirapora. Uma vida palpitante. E não dependia tanto da chuva, pois fartos de água eram o Das Velhas, Paracatu, Urucuia e Acari e, ainda, a montante, dezenas de pequenos cursos Guariba, Pajeú, Mocambo e Prata, no município de São Francisco. Atualmente, padecem de águas na seca o Urucuia e o Paracatu que, anos poucos atrás, era atravessado a pé; e o Acari que mal despeja em gotas, no São Francisco. Os outros, nem se fala, só correm água quando da temporada das chuvas, e muita. 

Pelas mãos dos homens, sem dúvida e comprovado, o rio padece, é de temporada.  Ele depende, então, exclusivamente, da graça do Criador. Quando será que nós homens faremos a nossa parte? Por enquanto, as notícias que chegam, com poucas exceções (barragens subterrâneas) são as piores e assustadoras sinalizando o fim...

Salve São Francisco, São Francisco!.




FESTA DE FORMATURA

 Joaquim Meira, criador do Grupo de Poetas de São Francisco, sempre atento 

aos acontecimentos em São Francisco, enviou ao Portal Veredas o relato 

da Festa de formatura da Jovem enfermeira Juliane Barbosa.



No dia 27 de dezembro de 2024, às 21 h, no Espaço Veloso, foi realizada uma belíssima festa de formatura do curso de enfermagem da jovem Juliane Barbosa, que estava esfuziante com brilho nos olhos de tanta felicidade por ter alcançada uma grande vitória. Foram cinco anos de estudos e muita dedicação na faculdade Funorte e estágio no Hospital das Clínicas Dr. Mário Ribeiro, Montes Claros.

Retornando a São Francisco, cidade de sua origem, recebeu muitas homenagens e uma brilhante festa  oferecida por seus familiares com a presença de muitos convidados   – parentes e amigos. Juliane agradeceu e  destacou o apoio de sua mãe Maria de Fátima e, em memória, seu saudoso pai João Domingo Barbosa, que a fez acreditar na força espiritual, na fé através  de seus ensinamentos.

Juliane Barbosa traz muito orgulho para sua família e conterrâneos, colocando-se na linha de frente pela saúde declarando que a realização do seu sonho de enfermeira não foi fácil em vista de sua condição financeira. Na oportunidade, ela agradeceu a Deus, depois a sua família pelo amor e dedicação. Estendeu agradecimentos às cozinheiras da festa e os condutores dos veículos que fizeram o transporte dos convidados para que a festa acontecesse. Destacou a presença de suas irmãs que vieram de longe – de outras cidades, estados e até mesmo dos EEUU.

Meira conclui: os convidados foram recebidos com chuva num clima agradável e um vento brando soprando no telhado. Tudo com as graças do alto.

Para encerrar o encontro, um animado baile.

A equipe do Portal Veredas cumprimenta Juliane e formula-lhe votos de muito sucesso na sua sagrada missão.

REFLEXÃO

 Os homens todos não são mais que a terra e cinzas.  – Eclesiástico


Colhendo, daqui e dali, impressões de amigos ou pelo que se vê na internet (veículo imediato de inundável de informações), o que se tem deixa-nos perplexos diante da velocidade dos acontecimentos, renovados a cada hora. Uma célere  evolução revolucionando costumes e ideias surpreendentemente. 

O mundo todo regurgita-se com constantes e surpreendentes transformações – umas aceitáveis e entendidas dada a evolução, outras de arrepiar os cabelos pela ousadia e despropósito.  No Brasil, o que vivemos mais de perto, as transformações são assustadoras levando de roldão princípios morais, sagrados, éticos e civismo numa onda devastadora, capitaneadas por áreas sociais e veículos de comunicação. E tudo, num piscar de olhos torna-se natural. Digladiam-se grupos na defesa de seus comportamentos e ideias, mas o viés é sempre para o pior graças ao poder dos veículos de comunicação, que se pauteiam no lucro financeiro em primeiro lugar. Com o campo minado, surgem falsos messias que encontram respaldo de poder pelo servilismo repetindo-se tristes capítulos da história da humanidade, quando tão poucos, no uso da força, dominavam sociedades inteiras – é o mal maior, pois tem o poder da força impositiva. Calam os Giordanos da atualidade em defesa de uma verdade própria, ainda que falsa. É de se lembrar, no entanto, o que Giordano falou à hora de sua execução na fogueira: “Aguardo a vossa sentença com menos receio que tendes ao pronunciá-la. Dia virá que todos hão de ver o que eu vejo”. Emenda-se com uma lição de Goethe apropriada para a ocasião: “Contra os excessivos predicados de uma criatura só há um meio: o amor; assim, contra as bactérias só há uma defesa: as bactérias”. É de se pensar a respeito como vislumbre de esperança quanto o desmoronamento da torre ou Bastilha que se impõe. 

São tantas as lições que se extrai da história da humanidade, estigmatizada por ações deletérias em prejuízo do povo, que levam à reflexão, que podem servir como um alerta à disposição de levantar bandeiras como tantas vezes o povo, na sua maioria das classes mais baixas, o fez... e venceu. São lições que tomadas podem servir como barreira à vitória do solipsismo tomado por alguns na atualidade. 

Para aqueles que locupletam da situação atual fica uma lição de Kardec: “É preciso ver o fim, pois pagarão bem caro essa felicidade passageira que não merecem, porque quanto mais tenham recebido, mais terão que retribuir”. Este dia chegará, é uma ação irreversível. 


sábado, 4 de janeiro de 2025

POR QUÊ PERDER TANTA ÁGUA?



 O regime das precipitações pluviométricas no município de São Francisco aponta para uma grande deficiência. Tempos idos a média era regular, ainda que muito baixa, por volta de 900mm/ano, atualmente não passa de 700mm. O que se observa nos últimos anos tem sido  que as precipitações estão sendo cada vez mais baixas e, o que é pior, de forma irregular, ou seja, chove-se muito em curto espaço de tempo e depois vem a estiagem, que se prolonga. Os efeitos são observados em todo o município: dezenas de veredas, córregos e riachos encontram-se  em fase de extinção. Houve, anos atrás, um trabalho bem ordenado pela Prefeitura Municipal através da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, com o apoio do Codema e do Projeto João Botelho Neto focado nas questões hídricas do município. Foi uma fase interessante na recuperação de nascentes, construção de barraginhas e tanques, e proteção de veredas. Uma pena que este esforço tenha sido interrompido com enormes prejuízos para o município. Agora, algumas iniciativas sinalizam uma mudança deste cenário, com a volta da preocupação com o sistema hídrico. Uma prova são as construções de barraginhas subterrâneas através de recursos repassados pela Plataforma Semente do Ministério Público e por iniciativas da Caritas e do pároco Nery Segala na construção de pequenas e pontuais barraginhas no distrito de Santa Izabel de Minas. Anuncia-se que o prefeito Miguel Paulo fará  desdobramento das secretarias municipais, com a criação da secretaria de Recursos e Hídricos e Ações Comunitárias. É um bom sinal, pois através dela será possível retornar ao primitivo projeto Plantando Água. Com tal iniciativa é possível reter as águas pluviais para o uso imediato e para a reposição do lençol freático. Um caso, apenas como exemplo, é registrado nas fotografias desta edição: com  poucas horas de chuva na cidade formam-se torrentes de água escoando pelas ruas como um riacho, que se perde por não ter sido retido. E as inundações tão comuns na região da rua Silva Jardim, que transformam áreas do centro da cidade em verdadeiros lagos causando grandes prejuízos. São águas factíveis de serem represadas. É um pouco, mas some-se isto com os anos repetidos.   

POSSE COM MUITA EMOÇÃO

 


No dia primeiro do ano de 2025 o majestoso espaço da sede da OAB de São Francisco foi palco da cerimônia de posse do prefeito Miguel Paulo, vice-prefeito Raul Pereira e de 15 vereadores eleitos na recém eleição. Foi uma cerimônia marcante sob vários aspectos. Primeiro – há muito não se via uma concentração popular tão expressiva à uma solenidade posse e autoridades dos poderes executivo e legislativo. O enorme salão da sede da OAB estava literalmente lotado e, ainda, um expressivo público noutro espaço da mesma sede sob a cobertura de enorme tenda e com tela para reprodução do evento. Uma festa.

Inicialmente foram empossados os vereadores. A seguir, foram eleitos os membros da Mesa Diretora da Câmara, por aclamação, posto ter sido apresentada apenas uma chapa, que assim ficou constituída: Daniel Rocha, presidente reeleito; Ramiro, vice-presidente, Érica, secretária, em seu segundo mandato e José Adelson (Galã), segundo secretário (de volta à Casa).

Seguiu-se a posse de Miguel Paulo e Raul Pereira, muito aplaudidos.

O pastor Paulo Ely Chagas, presidente das Igrejas Assembleia de Deus  Missão Ministério de São Francisco e o dirigente de culto Elpídio da Fonseca Neto, invocaram a Providência Divina para conduzir os eleitos em sua missão em favor do povo de São Francisco.

Muitos foram os discursos. Primeiro o do presidente da Câmara, Daniel Rocha; depois o vice-prefeito Raul Pereira e por fim o prefeito Miguel Paulo, que foi vivamente aplaudido, inclusive por uma caravana da comunidade do Quebra, distrito do Morro. Miguel Paulo estava visivelmente emocionado expressando sua gratidão pela confiança nele depositado pelos eleitores, 79%  do colégio eleitoral. E não ficou apenas nisto. Miguel recebeu homenagens carinhosas de sua filha e Vitória Stéfane  e Silene, à frente de um grupo de moradores da comunidade do Quebra, que ofereceram-lhe buquês de flores. Um fala especial foi a do presidente da subseção da OAB, Révio Humberto Figueiredo Ribeiro que agradeceu, em nome de todos os advogados de São Francisco, aos vereadores e prefeito, pela doação do terreno onde foi construída a sede da entidade.

Por fim, em rápidas palavras, manifestaram todos os vereadores empossados sob aplausos do público. Os reeleitos: Chartier Fraga Nascimento, Daniel Fonseca Rocha, Géssica Braga de Almeida,  José Odilei Oliveira Ferreira, Ranulfo Ribeiro dos Santos Júnior, Rodrigo André Sá Teles da Silva e Walderiz Vieira Leitão. E estreantes na Casa: Antônio Fábio Vieira de Moura, Antônio Marcos Ferreira de Souza, Arlen Aparecido Durães de Aquino, Geraldo Silva Santos, Ivan Pereira dos Reis, José Adelson Ferreira Neves, José Adilson Ferreira da Silva e Ramiro Ferreira Lima. 

CULTURA EM EVIDÊNCIA

 


O professor Roberto Ramos Mendes apresentou, na segunda-feira 30, no auditório da EE Brasiliano Braz o documentário “Muitas memórias, outras histórias: a cultura e a história local” que os livros didáticos não contam, um projeto beneficiado pela Lei Paulo Gustavo. Sem dúvida, uma maneira muito auspiciosa para encerrar o ano de 2024 trazendo à tona vários aspectos da cultura são-franciscana através de depoimentos de pessoas que viveram vários momentos de sua história. Os convidados para o evento, o que certamente será levado ao público brevemente, tiveram a oportunidade de rever, e se ver, em  várias passagens do cotidiano são-franciscano, a partir da década de 1950: a aportagem de vapores no cais da cidade, encantando a população e fazendo a festa para meninada e feirantes na oferta de produtos da terra aos passageiros dos vapores: frutas, doces (especialmente de buriti e umbu), beiju, rapadura, queijo e até artesanato de pano e madeira. Depoimentos saudosos revivendo a beleza da procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, com os mínimos detalhes e, falando-se em religião, foi evocada a beleza e riqueza interior da matriz de São José, então com três naves, com atenção maior para o belo altar que, acreditam ter sido vendido para um colecionador estrangeiro. Recordado como foi espantosa a enchente de 1979 com reminiscência a outras enchentes, porém menores. História contada, no documentário, por pessoas que viveram aqueles dias de intensa preocupação assistindo às águas do rio invadindo suas casas. Um cenário incomum, deslumbrante, mas, por outro lado aterrorizante. E teve, por vivência ativa, a lembrança das pastorinhas, com dona Gerinha cantando a música do terno por ocasião do Natal. Até as rodoviárias (ponto de embarque e desembarque das jardineiras que se arriscavam pelas estradas poeirentas e esburacadas para Montes Claros – a primeira na praça então Oscar Caetano Gomes (hoje Centenário) e a outra na avenida Presidente Juscelino no local onde tem o comércio Agroruas. Dona Lia (Maria Urânia) até mesmo descreveu como eram embarcadas as malas dos passageiros – no teto da jardineira cobertas com uma lona. Saudade brotada e tão lamentada, foi a história do coreto, local de retretas, escorregador da criançada e, principalmente, púlpito nas celebrações da procissão do Encontro (Jesus e Maria) – tantos depoimentos lamentando o absurdo que foi a destruição dele, que guardava tantas histórias. E dizer que São Francisco teve uma bela fonte luminosa na praça do Peixe-Vivo, hoje Heráclito Cunha Ortiga com história contadas das estripulias de crianças, com o Braz Parrela lembrando do dia que uma de suas filhas, ainda de tenra idade, caiu no pequeno lago.

Foram tantas histórias, tantas vidas, um rosário de fatos resgatando a São Francisco de antanho na construção de uma comunidade e o envolvimento das famílias na construção de um grande tesouro: a sua cultura. Foi muito valiosa a percepção e a iniciativa do professor Roberto no registro da uma história, de um tempo, que já escorria para as brumas do tempo. Ainda bem. Que venham outras iniciativas buscando valorizar o grande  tesouro que é a nossa cultura.


SANTOS REIS

 “Deus vos salve, Casa santa/ Onde Deus fez a morada”


Desde o dia 25 de dezembro ternos de foliões percorrem os caminhos da roça e ruas da cidade visitando lapinhas para saudar o Menino Jesus, lembrando a adoração dos três Reis Magos.  Affonso M. Furtado da Silva, no livro Reis Magos – História – Arte – Tradições, traz à memória: “Há cerca de dois milênios, o Evangelho de Mateus consagra, no relato do Capítulo 2, a jornada dos Magos do Oriente. Partiram de suas terras e, guiados pela luz de uma estrela resplandecente, chegaram à gruta, em Belém, na Judéia, para adorar o filho de Deus que havia nascido, ofertando-lhe régios  presentes: ouro, incenso e mirra Esse episódio, tempos depois, veio a se constituir na essência da celebração da Epifania a primeira manifestação de Cristo aos gentios.

Séculos e séculos passados repete-se a história, ainda brilha a estrela do Oriente. A cada ano, ternos de foliões visitam lapinhas saudando o menino Jesus. Saem à noite, pois é preciso para seguir o brilho da Estrela Guia e, nas casas visitadas encontram o presépio uma lembrança do cenário onde se deu o nascimento do Menino Deus, representados neles as figuras do Menino Jesus, Maria e José, seus pais, os pastores com suas ovelhas e os três Reis Magos, que chegam no dia 6. Os foliões levando os instrumentos, muitos fabricados por eles mesmos, que imbuídos de muita devoção, reverenciam o nascimento do Menino Jesus com hinos e danças.

Uma lembrança; o primeiro  presépio foi uma inspiração de São Francisco de Assis 1223, construído no meio de uma floresta. 

Neste período, à chegada da Epifania, quando nossos foliões avançam noites adentro saudando as lapinhas, vêm os nomes de alguns foliões de São Francisco: Adão Barbeiro,  Adão Serafim, Locha, Vicente Quiabo, Marciano, Abraãozinho, Dino do Retiro, Irmãos Corrêa, Olegário, João Raposo, Joaquim Figueiredo, Henrique Quente, Minervino, João Pomba Triste, Marciano, Nego de Venança entre tantos. Levam, com seus instrumentos musicais e vozes, nossas saudações ao Menino Jesus, lembrando, com fervor, a passagem dos Reis Magos cuja festa se comemora, em São Francisco, na igreja Santos Reis.