sábado, 2 de maio de 2026

LOCHA NOS DEIXOU

 



No dia 22 deste mês uma fatalidade levou o folião Locha ao encontro de sua esposa Tonica (Antônia da Silva Souza) que o precedeu no encantamento deixando-lhe imenso vazio, reclamado dia a dia. No dia 22  ele sentado no tradicional banquinho, como ficava todos os dias, na frente de sua casa, mais uma vez manifestou: “Tonica, venha me buscar”.  Ao regressar ao interior de seu lar, um escorregão e na queda sofreu uma concussão cerebral que o levou à morte. Foi realizado o seu pedido.

Filomeno Alves de Souza, era seu nome de batismo; Locha o nome comum entre seus companheiros dos ternos de folia e nos campos da Escola Caio Martins fabricando tijolos. Era uma criatura alegre, que se mostrava sempre tão feliz com vida, o que ele sempre  irradiava. Na Escola Caio Martins ele era parte de uma grande família, não apenas como oleiro, mas como grande companheiro e propagador do nosso folclore. Exímio folião, que se exibia tanto na caixa quanto na viola; criador de versos para as danças do Quatro e do Lundu sempre se inspirando na fauna, inventando palavras que ganhavam sentido conforme a história narrada no canto:  “Vô m´imbora, vô m´imbora não/ Pois eu vi duas roxa chorando debaixo do laranjá”, “Papai mamãe não qué que eu case com José/ José é um malandro, não dá conta da muié”. E o belo e sensível verso que embalava a dança do quatro: “Canarim preso na gaiola, que tristeza num será/ Canarim panhô solto, ôiá/ Que alegria num será/ Canarim, passarim bunitim/ Foi pra rua passeá”.

Na década de 1980, quando eu dirigia o Centro Integrado das Escolas Caio Martins de Esmeraldas, onde estudavam diversos jovens de São Francisco e região, formei um grupo para apresentações do nosso folclore – coral, dança e jogral. Sem problema para o coral e o jogral, mas no caso da dança, para ter autenticidade, reproduzindo o nosso folclore, era indispensável o toque inebriante da viola e o sonoro e apaixonado repique da caixa no lundu, no quatro e na catira. Encontrei um meio para resolver o problema, chamei o meu amigo Locha e ele, prontamente, passou meses no CI ensinando os repiques da caixa e os acordes da viola. Com nosso coral era convidado para apresentações em Betim, Belo Horizonte e, uma, de maneira especial em Divinópolis a convite do prefeito. O coral se apresentou em uma acústica em praça pública recebendo cumprimentos do prefeito e, especial, da grande poeta Adélia Prado – Locha foi parte do grande feito.

Em São Francisco Locha era um folião respeitado e amado, sempre alegre, feliz, criativo, excelente cantor e “dançador” do Quatro e do Lundu. Sem dúvida, um nome para a nossa galeria de mestres da arte popular ao lado de Minervino, Nego de Venança, Adão Barbeiro, Vicente Quiabo, Henrique Quente, como parte de uma galeria de tantos foliões que se transformaram em agentes que cultuavam, preservavam e divulgavam a nossa cultura.

Locha se encantou aos 85 anos. Com Tonica ele teve oito filhos (sete mulheres).

Locha, sentimos saudades. Você, agora estará tocando  viola com Minervino e Adão Barbeiro para agradar São Pedro.

REFLEXÃO

 


O poeta J.G. Jorge de Araújo inaugurou o soneto Naturismo com esta estrofe: “Foi aprendendo a ler que aprendi a pensar/ e hoje pelo pensar sou um degenerado, / – já foi puro o meu Ser, tal como a Luz e o ar,/ Como o ar e a luz de um céu sereno e descampado...”.

Um sentimento de pessimismo que leva a Shopenhauer, que defende que a existência é fundamentalmente sofrimento, movida por uma "vontade" (desejo) insaciável que gera frustração contínua. 

Tanto um caso quanto o outro leva-se ao momento que tem tornado a vida de muitos cidadãos brasileiros em uma incógnita: o que é certo e o que é errado. Vive-se, hoje, até mesmo o cerceamento da palavra, exigindo-se constante vigilância a respeito de tudo que possa expressar o pensamento. Ainda que pudesse ser caricato – para alguns, mas arguidor do pensamento do povo – o fato leva-se a uma das “tiradas” de Kafunga, comentarista esportivo: “O certo é o errado; o errado é o certo”. E, aí, volta-se a Schopenhauer, que argumenta que “a vida oscila como um pêndulo entre a dor (desejo não realizado) e o tédio (desejo realizado), tornando a felicidade duradoura impossível e a existência o "pior dos mundos possíveis”.

No Brasil da atualidade, aquele que de anos tantos passados era anunciado como “O País do futuro”, no cenário pátrio e internacional mostra-se em tela diferente. A sucessão interminável de escândalos políticos, financeiros, tráfico de influência, geração de influenciadores e por aí afora, são tantas as “verdades” que impossível é distinguir as tantas “mentiras”. E, enquanto isso, abre-se uma vala enterrando o país. E pensar que quando jovem ouvi a análise de um professor diante da então crítica situação do país, que pior não poderia ficar, pois ele já se encontrava no fundo do poço. Infelizmente ledo engano, muito otimismo, pois hoje vejo que o poço não em fim!