quarta-feira, 5 de agosto de 2026

ERAS DO ANO – Um passeio no universo urucuiano

 A QUATRAGEM ERAS DO ANO


Quatro com grupo folclórico da Escola Caio Martins de São Francisco


Eu nunca clamei minha vida

Hoje em dia estou clamando

Meus trabalhos vão seguindo

Na regra dos meses do ano

Moça, por seu respeito,

Vivo no mundo penando

Chorei saudade

Recebi o seu desengano


Menina, por seu respeito

Eu sofro o ano inteiro

Sofro paixão por você

De janeiro a janeiro

Menina, o seu olhar

Que me faz ficar banzeiro

Fico triste apaixonado

Seu amante o ano inteiro

Chorei saudade

Do seu olhar banzeiro


Fevereiro, março e abril

Três meses que passei mal

Coração firme e amoroso

Como o meu não tem igual

Seu coração é falso

O meu firme e leal

Seu coração é falso

Me faz sofrer noite e dia

Chorei saudade

Por viver sem alegria


Maio, junho e julho

Meu rabalho foi dobrado

Lembro de você, morena

E fico triste apaixonado

Um coitado como eu

Que só vivo incomodado

Sujeito a sofrimento

Porque não estou ao seu lado

Não posso esquecer

Chorei saudade

Daquele tempo passado



Quando entra o mês de agosto

Logo vai entristecendo

Que o ar fica parado

E o sol fica tremendo

Logo vai chegando a tarde

A fumaça vai descendo

Coração fica amoroso

Logo vai entristecendo

Não posso me esquecer

Chorei saudade

Porque não estou te vendo”


Setembro, outubro e novembro

Eu me queixo com razão

Não posso me acostumar

Com aquele primeiro trovão

Passo o dia e passo noite

Naquela imaginação

Não posso me esquecer

Chorei saudade

A nossa separação


Dezembro é o fim do ano

Completa o meu sofrimento

Não como, não bebo nada

Minha paixão é meu sustento

Tem dia que mal resisto

A todo este sofrimento

Sem vida, sem alegria

Não posso me esquecer

Chorei, saudade

De sumir pelo mundo adentro.

ERAS DO ANO – Um passeio no universo urucuiano

 

Quatro com grupo de foliões


A vez primeira que eu a ouvi foi no misterioso sertão urucuiano, na fazenda Conceição, à luz de um lampião, na quatragem do grupo Serrano: a Eras do Ano. Voltando ao Urucuia, outra vez a ouvi em uma escola da então vila Porto de Manga, na voz de Maria Helena, ex-aluna da Escola Caio Martins de São Francisco. Apaixonei-me pela melodia e pela letra da dança quatragem que, no Urucuia era denominada Guaiano (não encontrei explicação para este nome a ela relacionado) que inclui no repertório do coral da Escola Caio Martins de São Francisco. Despertou a minha atenção a indolência da música e a malemolência dos dançarinos levando a uma onírica viagem pelos gerais e vãos urucuianos, bebendo nas cristalinas águas das veredas ou pousando nas mansas águas do Conceição. A letra narra uma história apaixonada de um caboclo, um clamor do fundo da alma associando, cada verso, ao seu cotidiano: o trabalho, a natureza, levando a um sentimento profundo de paixão no correr de cada mês do ano. É precisa a expressão do sentimento, numa simplicidade que exalta um amor profundo e a ansiedade pela possibilidade de uma perda: “Eu nunca clamei a minha vida, hoje estou clamando”. E chega com uma frustação: “Menina, por seu respeito eu sofro o ano inteiro, que sofro de paixão por ti de dezembro a janeiro”. E de quadra em quadra vai cantando a sua paixão com extravasado sentimento e tristeza. E vai de mês a mês: “Menina, por seu respeito/Eu sofro o ano inteiro/ Sofro paixão por você/ De janeiro a janeiro”. Um primor é o verso revelando o sentimento no mês de agosto: “Quando entra o mês de agosto/ Logo vai entristecendo/ Que o ar fica parado/ E o sol fica tremendo/ Logo vai chegando a tarde/ A fumaça vai descendo/ Coração fica amoroso/ Logo vai entristecendo/ Não posso me esquecer/ Chorei saudade/ Porque não estou te vendo”. E fecha dezembro com um verso nostálgico: Dezembro é o fim do ano/ Completa o meu sofrimento/ Não como, não bebo nada/ Minha paixão é meu sustento/ Tem dia que mal resisto/ A todo este sofrimento/ Sem vida, sem alegria/ Não posso me esquecer/ Chorei, saudade/De sumir pelo mundo adentro. Bonito quatro. Muito bonito, mas de tristeza profunda, paixão lá de dentro do coração de suscitar Schopenhauer (A vida oscila incessantemente entre a dor e o tédio).

CAMINHOS PARA A OPACIDADE


Guilherme Barbosa Pereira, professor, diretor da EE Everaldo Gonçalves, empunhando a sua máquina fotográfica transforma-se no artista das lentes, o Guilherme Barranqueiro, que tem mergulhado no universo da fauna barranqueira registrando a sua riqueza com mais de 200 espécies de aves. O Portal apresentará, a partir desta edição, um painel dos seus registros de paisagens são-franciscanas: um primor visual com muita sensibilidade.

Neste outeiro, banhado pelo rio São Francisco foi implantado o povoado Pedra dos Angicos e nele, os primeiros marcos da civilização foram o cruzeirinho e a capela de São José. Tempos passados Pedras dos Angicos transformou-se em cidade de São Francisco e a pequena capela na bela Matriz consagrada a São José. O outeiro é o mesmo e o São Francisco ainda o beija em jornada eterna, pois como disse Guimarães Rosa, “com mais amor!” E o barco leva o homem, o pescador, o vazanteiro, marcos do liame homem-rio-terra.

sábado, 25 de julho de 2026

UMA JUSTA HOMENAGEM


      Uma justa homenagem foi prestada pela Câmara Municipal de São Francisco a Raulino Lopes Neves dando o seu nome a uma rua da cidade – na antiga rua Euclides de Mendonça onde ele residia com a família. Raulino nasceu em Sítio do Mato – Ba. Desembarcado em São Francisco do vapor Benjamim Guimarães trazido por Maximino Magalhães (Massu), agente da Capitania dos Portos  da cidade, com quem trabalhou, no comércio, por alguns anos, mas logo se estabeleceu por conta próprio com comércio na rua que hoje tem seu nome. Em pouco tempo Raulino se integrou à sociedade são-franciscana. Era filiado à UDN, da qual foi tesoureiro e vereador. Na vida social frequentava, como todos os rapazes e casais da época, a Associação dos Amigos de São Francisco da qual era sócio; foi, também, sócio-proprietário do cinema construído na década de 60 – o Cine Canoas.

No início dos anos 50 Raulino conheceu Lídia Mendes, numa festa no Campo de Sementes, hoje Caio Martins – que eram famosas. Em 20 de setembro de 1952, Lídia se tornou-se senhora Lídia Mendes Neves e desta abençoada união nasceram os filhos Ana Maria, Maria de Fátima, Arcênio, Maria da Conceição (Tuca), Raulino Jr., Maria do Socorro, Ney, Neison e Arlete – uma família com notável destaque em diversos campos da vida de São Francisco: cultura, comércio, educação, saúde e arte. 

Raulino transferiu o comércio para o tradicional ponto da Avenida Presidente Juscelino, na esquina com a avenida Dom Pedro de Alcântara, onde fazia contato permanente com os ruralistas da região Sul e os do outro lado do rio, por ser um ponto estrategicamente localizado, na saída da cidade – atualmente o Eskinão.

A cepa baiana mesclada com o tronco mineiro deu a São Francisco uma grande família e Raulino Neves um respeitado cidadão. 

MUITO AMOR NO LAR DOS IDOSOS

 



No dia 22 passado o Lar  dos Idosos São Francisco de Assis viveu momento de muita alegria e amor com programa junino organizado pela Associação de Homens e Mulheres da Terceira Idade tendo à frente Lindaura, Cezar Coyte e equipe que assiste os idosos no lar. Teve quadrilha, animado forró e quitanda com fartura.
Muitos dos idosos, por causa da idade e condições físicas, apenas assistiam o desenvolvimento do programa, mas demonstrando satisfação. Outros, mais dispostos, arriscaram alguns passos no forró.
Importante, acima de tudo, é a atenção, o carinho e desprendimento dos sócios da Associação de sempre estarem levando alegria e conforto aos idosos assistidos naquele Lar. Destacando-se, ainda, o carinho, o zelo e a relação familiar que têm os servidores do Lar com os idosos.
Certamente São Francisco abençoa a todos por esta ação de amor, o que ele pregou.



AO PÔR DO SOL

 




É de rara e de indizível beleza o pôr do sol em São Francisco,  emoldurado por um cenário como uma tela de um grande pintor: o rio São Francisco despontando no pontal a montante descendo até se dobrar suavemente no penedo de pedras calcárias esverdeadas, vigiado por dois velhos pajeús e descendo, em reta, até desaparecer no pontal a jusante, na ilha do Lajedo. Cenário que inspirou Guimarães Rosa a confessar: “Formosa cidade de São Francisco – que a que o Rio olha com melhor amor”; bem ali no rochedo, o Cruzeirinho e no fundo a bela igreja Matriz, símbolos de fé de um povo. 

O Sol vai tombando no Oriente aspergindo raios multicoloridos em fundo azul da abóboda celeste. Ávidos e emocionados aproximam-se do cais os espectadores de tão esfuziante espetáculo, presente de Deus. Olhos fixos no ocaso para não perder um momento sequer da descida do Sol que, aos poucos vai ganhando novo colorido, de dourado flamejante a suave alaranjado até se esconder além nos gerais banhando veredas. 

Agraciados pelo presente do Criador as pessoas vão se dispersando. Algumas voltam às suas casas; outras prosseguem na caminhada pela orla do rio, que saem  de um cenário de paz, de rara contentamento, para enfrentar um perigo iminente: carros e motos, muitos em alta velocidade, disputam com eles o espaço na pista. Adeus paz. Adeus tranquilidade. Interessante anotar que a Prefeitura fixou placas determinando o horário para o tráfego de veículos na orla: de 17 às 20h. Ficou na placa, sem fiscalização severa. Então ficou o dito pelo não dito. Desagradável foi ouvir o brado de uma jovem que, no meio de um grupo, caminhava pela orla quando por eles passou um veículo obrigando-os a se afastarem para as bordas – também perigoso, pois não existe corrimão no local. Dirigindo aos colegas, creio que visitantes, bradou: “Em São Francisco ninguém obedece a lei”. Por causa de uns generalizou-se. Isto será o repetido, lá fora, foi aquela impressão de momento.

A qual órgão municipal está afeto o problema? Urge enfrentá-lo a bem da população e de visitantes.

CAMINHOS PARA A OPACIDADE

 


Caminhava pela orla do rio com meu filho Ricardo quando fui abordou por uma jovem mulher chamando-me pelo nome trazendo nas mãos um livro. Apresentou-se como ex-aluna de minha filha Beatriz e da nora Janete. Seu nome: Gisleide Gonçalves de Almeida. O livro que carinhosamente me ofertou: “Caminhos para a Opacidade” que trazia, no prefácio a recomendação de Marcos Fontoura de Oliveira: “É preciso ler este livro”. Depois, cada um tomou seu rumo. Curiosidade literária acima de tudo levou-me a superficial olhada no livro pois não tinha ideia para onde iria me levar os “Caminhos para a Opacidade”, um tema tão novo e instigante para mim. Apresentou-me, de princípio, o filosofo martiniano Éduoard Glissant na abordagem de um tema que leva à proposição “eu posso me transformar ao me relacionar com o outro, sem com  isso perder ou diluir minha identidade”.  Na apresentação do livro Gisleide discorre sobre o direito à opacidade perguntando: “o que devemos fazer para que esse direito entre no nosso rol de direitos instituídos; o que fazer para que a indiferença e o egoísmo não se apoderem de nós”. Ela conclama “abrir veredas e construir caminhos para a opacidade qualquer que seja a sua crença ou sua religião, seja você ateu ou agnóstico, precisam todos conhecer em profundidade o que é direito à opacidade”

Gisleide é são-franciscana, filha de Joaquim Alves de Almeida e Dalícia Gonçalves Silva, do tronco Almeida (Gregório, fundador do povoado Mocambo), casada com Eduardo César Leonel da Mata.  É uma destacada psicanalista em atividade no Brasil, cm participação notável nos espaços acadêmico e cultural de Belo Horizonte. Tornou-se Mestre em Filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia onde investigou o conceito de  opacidade em Édourd Glissant, autor com quem tem dialogado ao longo de vários anos.

Tive o prazer de recebê-la em meu lar acompanhada do esposo, pai e uma irmã quando foi-me possível conhecer um pouco do seu notável trabalho.


GISLEIDE POETA


Édouard Glissant além de filósofo, era poeta. Gisleide que o estudou, também tem a veia poética. É o que se vê no belo e inspirado poema Transbordamento em que encontramos a alquimia de um encontro com muita sensibilidade.