quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

PONTE: MAIS UM PASSO

 


O reinício da construção da ponte sobre o São Francisco, na cidade, dependia de uma homologação de licença ambiental concedida pelo CODANORTE pelo CODEMA de São Francisco. Uma licença fora dada, anteriormente, porém ela caducou-se em vista do descredenciamento da empresa licenciada e de possíveis alterações no canteiro de obras. O empecilho foi resolvido em reunião realizada pela assembleia do CODEMA na segunda-feira passada. Não há mais nenhum impedimento para que sejam retomadas as obras da construção.

O presidente do Codema, Diovani Renê Costa afirmou ter recebido do vice-governador de Minas, através do vice-prefeito Raul Pereira, uma solicitação para homologar a decisão do CODANORTE, consequentemente, a emissão da licença ambiental. Diante disto, convocou uma reunião extraordinária do conselho do Codema para apreciar aquela decisão, que foi acolhida e aprovada.

Assim, mais um passo foi dado no sentido de concretizar o sonho dos são-franciscanos e populações de municípios da região que serão beneficiados pela grande obra.


CODEMA E O CARNAVAL



Diretores do Codema, acompanhados pelos secretários Conceir Damião (Meio Ambiente), Júnior Marruaz (Infraestrutura) e João Herbert (Cultura), servidor da Secretaria de Infraestrutura, Ricardo 7R e Breno Pertinati, do bar Macarius patrocinador do evento, reuniram-se com o comandante da 13ª Cia da PMMG de São Francisco Ten-Cel, Wilson, Capitão Cliver e Tenente Dener com o objetivo de estudar uma estratégia operacional para a realização do Carnaval na Orla do São Francisco promovido pelo Bar Macarius. Cuidadosamente foram examinados todas as questões voltadas para a segurança e orientação dos carnavalescas e pessoas que transitarem pela orla durante o festejo.

A preocupação do corpo da PM e do pessoal do governo municipal foi garantir a realização do evento com toda segurança respeitando-se os dispositivos legais e, em especial, o Código Ambiental do Município. 

  O evento será realizado do dia 1º a 4 de março, das 16 às 19h (intervalo) e de 20h às 2h. A interdição da área e do circuito será feita no início do dia.

A IMPORTÂNCIA E NECESSIDADE DA CASA DA CULTURA

 


O prefeito Miguel Paulo acolheu uma proposta da Ong Preservar no sentido de criar a Casa da Cultura/Museu em São Francisco, projeto casado com implantação de uma área fixa para exposição do artesanato são-franciscano.

Falando-se, hoje, sobre o artesanato. Muito se tem dito a respeito dele no município. Sabe-se que é de uma expressiva riqueza e, também, sabe-se que os artesãos estão dispersos, não têm um espaço para expor seu produto – um espaço acessível ao público, principalmente os visitantes à cidade. Com isso, quase nada vendem ou sequer são conhecidos, e são tantos.

Um exemplo, entre tantos, do que se perde na exposição do trabalho dos nossos artesãos.  Em sua passagem por São Francisco, a sobrinha-neta de Pascoal Carlos Magno,  inspirador da Barca da Cultura, Luciana Frazão, lamentou não estar levando nenhuma lembrança de São Francisco, o que encontrou em Pirapora (as famosas carrancas) e São Romão (rendas). Depois, chegando-se a Januária, ela postou estar encantada com a riqueza do artesanato daquela cidade, encontrando-o exposto, em profusão.

É o bastante para dizer, afirmar e reafirmar, o quanto São Francisco perde não promovendo a sua cultura, o seu rico artesanato. Tomara que o projeto da Ong Preservar, abraçado pelo prefeito Miguel Paulo, se concretize.

ASPECTOS CULTURAIS DO MUNICÍPIO DE SÃO FRANCISCO

 João Naves de Melo - Membro da Comissão Mineira de Folclore


Quarta parte


OUTRAS MANIFESTAÇÕES CULTURAIS



CRENDICES (abusão): As manifestações são diversas e, ainda nos dias atuais, muito marcantes na vida do povo: 


LENDÁRIO: Caboclo d'água, romãozinho e famaliá, são as mais famosas. A primeira é relacionada ao pescador – entidade que atrapalha ou ajuda a pesca, conforme os agrados que receber – cachaça e fumo. A segunda diz respeito a um menino amaldiçoado pela mãe que não pode morrer e vive atormentando as pessoas, principalmente no meio rural, misturando estrume na comida, jogando pedra no telhado das casas, misturando bezerros apartados com as vacas. A terceira diz de um capetinha, nascido de um ovo de galo que, preso numa garrafa, faz a fortuna do seu dono que, em troca, vende-lhe a alma.


SABEDORIA POPULAR: a medicina caseira tendo como fonte principal raízes, flores, folhas, cascas e frutos de essências do cerrado e das matas. Vale-se também, de animais. Há remédios para todos os males e são famosos os curadores, raizeiros e benzedores: Catarino (Luislândia), Olímpio (São Francisco), entre eles.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

OBJETIVO DA BARCA DA CULTURA

 


A Barca da Cultura foi um projeto de cunho cultural, social e político. Cultural, pois interligava culturas diferentes e promovia o valor das culturas ribeirinhas que eram até então invisíveis para as metrópoles; social, pela sua importância como fator educativo; e político, pela possível denúncia da situação precária que a maioria dessas cidades vivia, fornecendo a hipótese de que seu pioneirismo serviu de exemplo para outros projetos culturais já realizados e a certeza de que essa intrépida empreitada merece figurar dentre os acontecimentos relevantes na memória histórica, artística e cultural de nosso país.

Certamente, com a criação da Casa da Cultura em São Francisco, a Barca da Cultura fará parte, muito rica, do seu acervo.  Sem dúvida, recorrendo-se à pesquisa de Luciana que tem como objetivo central resgatar um trajeto da memória deste empreendimento de Paschoal Carlos Magno inserido no âmbito da história sócio-política e cultural do país, como relevante e pioneiro projeto de vanguarda artístico, com rico material de estudo envolvendo artes plásticas, teatro, dança, música, canto, poesia e seus desdobramentos para as artes no Brasil. 

A CARTA AO EMBAIXADOR

 


“Meu caro Embaixador, reporto-me à sua passagem, com a inesquecível “Barca da Cultura” por São Francisco e nossos entendimentos, então. Estamos firmes no propósito da construção da Casa da Cultura, um centro   sociocultural para a mocidade despertada e para o espírito e a inteligência de todos, velhos e moços.(Descreve-se o projeto). O ilustre amigo, com sua cultura e vivência, poderá reexaminá-lo, reformulá-lo, podá-lo ou ampliá-lo dentro do contexto que se segue: a cidade tem 8.000 habitantes, (apenas a metade participa economicamente), 2.800 escolas, está em expansão (7.000 em 1970), o meio é pobre,  o município tem 8.141 km2, 62.000 habitantes. A mão de obra disponível é barata, porém inferior, o material grosso é barato, mas o de acabamento é difícil e importado.

Desnecessário dizer sobre o êxito da “BARCA DA CULTURA”. Você viu? Foram momentos de encantamento e o meu povo estava à altura. Lembra-se? Será um fenômeno fisiológico (?): o povo não entendia aquela música divina de Villa Lobos e nem o balet maravilhoso que lhe ofereceu Décio Otero, mas naquela arte por ser intrinsicamente bela e autenticamente boa penetrava na alma e no corpo de cada assistente e ele podia sentir e deleitar-se.

Neste desconhecido, pobre e distante município, nada, até então, merecera unanimidade. O povo é, por natureza e contingência histórica, desconfiado, polêmico e conflitante. A BARCA DA CULTURA venceu todas as barreiras: econômicas, políticas, históricas, sociais, étnicas e conquistou todo mundo e desmoralizou o axioma muito respeitado por aqui: o que é de graça, não presta. Foi de graça (e engraçado também, em certos momentos) e foi JOIA, como amanheceram dizendo as crianças no dia após”.


DETALHE HISTÓRICO: Lendo a carta do prefeito OCJ, em determinados aspectos, é possível estabelecer uma comparação do município de São Francisco de 1974 com o atual. Os índices são outros: população, crescimento e melhoramento urbano, saúde, etc. etc., mas na cultura ainda engatinha-se, conquanto tenha um imenso potencial, uma mina a ser explorada. 

O SONHO NÃO MORREU

 


Em fevereiro de 1974, uma barca com mais de 100 passageiros entre estudantes, técnicos, produtores, assistentes, jornalistas e artistas de várias partes do Brasil, em viagem de Pirapora até Petrolina, aportou-se em São Francisco. Uma excursão cultural inspirada por Carlos Pascoal Magno (diplomata, ator, poeta, teatrólogo) que deixou marcas profundas na população são-franciscana. Foram dias memoráveis de muita arte – arte de primeiro mundo apresentada, pela primeira vez, aos são-franciscanos: orquestra sinfônica dirigida pelo mastro Carlos Eduardo Prates, balé, oficinas de arte para estudantes; recitais na Barca e na Igreja Matriz encantando o público. 

Pela passagem da Barca o então prefeito, Oscar Caetano Júnior endereçou correspondência ao embaixador Carlos Pascoal Magno, agradecendo em nome do povo são-franciscano e anunciando o propósito de criar a Casa da Cultura em São Francisco. Esta carta, histórica, está inserida neste artigo, na página seguinte.

Nesta semana, Luciana Frazão (historiadora da arte e mestranda em Culturas e Identidades Brasileiras no IEB – USP) sobrinha-neta do embaixador Pascoal Carlos Magno esteve em São Francisco, conversando com pessoas e visitando pontos de referência – cais e igreja Matriz, rememorando a passagem da Barca da Cultura. Estava acompanhada do esposo Damian Kraus, argentina, doutor em psicologia, tradutor e revisor da Revista e Agência FAPESP. A viagem de Lucina teve início em Pirapora, passando por São Romão, terminando em Maria da Cruz com objetivo de entrevistar testemunhas da passagem da Barca da Cultura de Paschoal Carlos Magno, tema de sua dissertação de mestrado.

Parte da entrevista dela foi focada na carta do prefeito Oscar Caetano Júnior ao embaixador manifestando o sonho de construir a casa da Cultura em São Francisco. Não conseguiu realizá-lo durante o seu mandato, mas certamente plantou uma semente deixada pela Barca. Alguma coisa, depois, foi feita no trato da ideia. Entre elas a criação da Ong Preservar reunindo um grupo de professores e escritores, que tem participação valiosa na preservação e divulgação da cultura são-franciscana. Ainda assim a semente não germinava, aguardava em solo tépido. Recentemente, um vislumbre de sua germinação se vê na comunidade como tem demonstrado o Portal Veredas apresentando o trabalho de muitos artistas locais, tanto na área artesanal quanto na música e edição de documentários históricos. Há um movimento, a terra está sendo adubado e molhada. Dois sinais que podem representar a realização sonho do prefeito Oscar Caetano Júnior é o surgimento da Empresa Cine Canoas constituída por um grupo de jovens. Ela empreendeu a reforma do prédio do Cine Canoas e noticia que, nele, serão retomados os programas culturais, de entretenimento e sociais. Oura providência que leva à realização do sonho é a criação da Casa da Cultura abraçada pelo prefeito Miguel Paulo

  Cinquenta e um anos decorridos e podemos vislumbrar que o sonho não morreu.

ASPECTOS CULTURAIS DO MUNICÍPIO DE SÃO FRANCISCO

 João Naves de Melo - Membro da Comissão Mineira de Folclore




Terceira parte


Têm destaque na cultura são-franciscana os autos, folguedos e atos devocionais que marcaram época e são revividos em tempos atuais.


REI-DOS-TEIMEROSOS OU REIS DOS CACETES – um grupo de homens, geralmente em número de 12, podendo ser mais, vestidos de marinheiros, dançam no salão ou terreiro, portando cacetes (bastões de madeira com um metro de cumprimento) que são batidos no chão ou uns contra os outros, no ritmo da música, enquanto cantam. O folguedo remete-se à luta de cristão contra mouros nas praias nordestina. Os cacetes sugerem o uso das espadas. Foi introduzido em São Francisco pelo folião Adão Barbeiro. O seu grupo, após sua morte, ainda se mantém atuante. O desenvolvimento do folguedo se dá em quatro partes: o canto de entrada; segundo canto uma glosa divertida; o terceiro canto de roda e o quarto canto de saída. Um verso do canto de entrada:  “Nós, pastores/ Boas novas viemos dar/ Que Jesus recém-nascido; Que Jesus recém-nascido/ Veio ao mundo nos salvar”.


SÃO GONÇALO – terno que pode ser apresentado em qualquer época, geralmente pagando promessas. Dança-se em terreiros em frente a um pequeno altar onde é colocada a imagem de São Gonçalo. São duas alas formadas só de mulheres, vestidas de branco, tendo à frente três homens: dois guias e o mestre. As mulheres, todas de branca empunham arcos enfeitados, de duas a duas com os quais fazem belíssimas coreografias. Famoso foi o grupo de João Pomba Triste e Badé. A festa de São Gonçalo veio para o Brasil, vindo de Portugal através dos fiéis do santo de Amarante.


CARNEIRO – é uma vibrante dança de terreiro, originada do batuque. O ritmo da dança é marcado por caixas. No terreiro dançam homens e mulheres, que, rodopiando, tocam costas contra costas imitando a pancada do carneiro quando briga. Tempos atrás a dança era conhecida como umbigada, que foi proibida por padres considerando-a sensual: os pares, no ritmo das caixas, encontravam-se na roda dando umbigadas, isto é, batendo barriga contra barriga. Então, os dançadores, no lugar da umbigada, passaram dar o toque, homem na mulher, com as costas.


FOLIA DE REIS  –  um folguedo de cunho devocional da maior importância. De dia 1º a 6 de janeiro, um grupo de homens (foliões) empunhando violas, violões, rabecas, caixas, reco-reco, balainho e outros instrumentos, saem, durante à noite, visitando casa por casa saudando o Deus-Menino no presépio. Depois da saudação, para agradecer as dádivas (esmola ou comida) dançam o quatro e lundu.

Os ternos ainda homenageiam São Sebastião, São João, Bom Jesus da Lapa, Senhora da Aparecida. Em São Francisco existem mais de cem ternos de foliões. Destaca-se a memória de Adão Barbeiro, que foi reconhecido além, fronteiras constando de diversas pesquisas folclóricas – televisão, jornais e livros.