sábado, 17 de agosto de 2024

TRÊS REZADEIRAS – II

 

No capítulo anterior focalizamos a veneranda senhora ANA ALVES DE JESUS LOPES, que trouxe a lume alguns aspectos interessantes de sua vida relatando um pouco da história e costumes de São Francisco de tempos idos. A sua narrativa leva a uma viagem no tempo, quando São Francisco pulsava mais no campo que na cidade, com as mulheres participando das atividades da família no lar e no campo; quando, na cidade, o relacionamento das famílias era mais estreito no convívio diário, especialmente nos ofícios religiosos: as rezas nas casas em diversas ocasiões – novenas, dias de santos e nos folguedos, como a dança do São Gonçalo, levantamento de mastros e tantas outras festas. Foi neste clima que viveu

 

LEODINA DOS SANTOS SILVA – DONA LIÓ

 

 


 

Numa manhã agradável, na companhia de José dos Passos (Secretaria de Cultura) e Adalgisa Botelho de Mendonça, (presidente do Preservar),  chegamos à casa de dona Lió, que nos recebeu numa arejada varanda, comodamente assentada. Um ambiente muito agradável e, aí, ouvimos um pouco de sua história tão bonita.

Nascida no Mangaí, então município de Januária, 86 anos, casada com Brasilino Antônio da Silva (falecido), 4 filhos vivos. Depois ela veio para São Francisco indo morar na comunidade de Tapera, onde labutava no campo cultivando milho, mandioca, feijão – “puxava enxada no eito, nos mutirões, e comia nas gamelas com os companheiros, comida farta com muito toucinho”, contou sorrindo, com orgulho. Trabalhava na oficina de farinha – ralando mandioca e fabricando a farinha.  O entrosamento na comunidade acontecia através dos folguedos e ofícios religiosos. Dona Lió, como tantas outras rezadeiras, participava ativamente dos ofícios da Semana Santa rezando de casa em casa e, na Sexta-Feira Santa, o ofício era rezado  na casa da avó Ana Maria; rezava também o Ofício de Nossa Senhora e as incelências nos velórios.  Durante a Semana Santa sua mãe servia iguarias para o rezadores: pamonha, bolo e milho verde. Os folguedos eram animados, diz ela. Com 13 anos de idade já dançava o São Gonçalo no terno de Albino e João Pomba Triste cumprindo promessas; que a mãe dela dançava  suça e o carneiro levantando poeira no terreiro (nos dias de hoje não se vê mais rodas e terreiradas como estas danças tão voluptuosas). Bons tempos, dona Lió, com a vantagem, hoje, de ter o que contar.

sábado, 10 de agosto de 2024

TRÊS REZADEIRAS

     Não que o fervor tenham se arrefecido em São Francisco, onde a participação dos fiéis ainda é muito intensa nos templos católicos e evangélicos. Contudo, algumas manifestações de devoção já não são as mesmas, os fiéis estão mais acomodados com a facilidade de orações transmitidas pela televisão com intensa penetração com a emissora católica Canção Nova. Não muito longe, porém perdendo-se na brumas do tempo, eram comuns as rezas nas casas do terço, ofício de Nossa Senhora, Ladainha (em latim) e a “incelências” nos velórios. E ainda o comprimento de promessas com apresentações do auto São Gonçalo e ternos de folias de Reis. Tempo ido.
    Nesta semana, sugerido e acompanhado por José dos Passos e Adalgisa, do Conselho Municipal de Cultura e do Preservar, visitei três senhoras que, emocionada, relataram parte de sua vida nas participações de ofícios religiosos. Maria, Maria e Maria, nos receberam com muita simpatia, solicitude e alegria, proporcionando-nos momento de “uma volta ao passado” carrega de emoção.
 

   Dona ANA ALVES DE JESUS LOPES


 

    Numa tarde de clima ameno ela nos recebeu confortavelmente instalada na sala de visita da sua casa, um ambiente muito acolhedor, localizada no bairro Santo Antônio. Muito simpática e expansiva narrou-nos detalhes de sua existência somada 85 anos, viúva e Geraldo Pereira Lopes, oriundo de Luislândia (certamente das famílias que chegaram a São Francisco pelo caminho do sertão). Ela nasceu  na Prateada, onde viveu bons tempos até se transferir para Novo Horizonte. Tanto numa quanto noutra comunidade, dedicou-se intensamente à atividades agrícola plantando milho, feijão arroz. E exercia outras atividades como auxiliar na serração de toras de madeira para vender as tábuas (o antigo processo de serrar madeira com serrotão em estrado). Ajudava encangar os bois no carro e, depois, seguia na guia em viagens empreendidas. Nos festejos, lembra que seu pai Zacarias Pereira era folião e rezador. Fabricava peneira de tabocas e gamelas de madeira para o uso de casa e para vender. No entretenimento, dançava s suça (lundu) e o Carneiro. Na quaresma rezava novenas nas casas de famílias. Outra devoção era a reza e procissão pedindo chuva – corria um percurso levando garrafas, pedras e litros de água na cabeça que depositavam nos pés de cruzeiros e repetiu, com voz limpa, um verso:  “Atendei Maria, Atendei agora/ atendei, Maria/ Atendei, agora/ Valei-me Senhor/ Chuva do céu/ Vós manda agora”.



AS CASAS – IV

  



   Em São Francisco algumas cidades atravessam o tempo com serventia, outras tantas estão abandonadas, em ruínas e outras demolidas para dar lugar a prédios novos. Entre a que têm serventia encontramos a casa que fica na esquina da avenida Montes Claros com Praça Januária com vista direta para a rua Direita. Não há registro  data de sua construção, informando-se que ela foi construída por dona Francelina Alexandrina Azevedo que a vendeu ao padre Nicolau Cimpoli que a reformou e ampliou segundo Brasiliano Braz (São Francisco no caminho da história). Depois ela foi vendida ao espanhol Perfecto Rajo Fortes, que nela instalou uma pensão. Em 1945 ela foi adquirida por Geraldo Ribas para a instalação da Prefeitura Municipal. Sucessivamente nela funcionaram? O Fórum, Emater, Inspetoria de Ensino, Junta de Serviço Militar e, atualmente abriga departamentos da Secretaria Municipal de Agricultura e Meio Ambiente e o CBHSF.
    No prosseguimento da avenida Montes Claros, logo depois da primeira casa, encontra-se o Sobradinho. Não há registro da data de sua construção. Sabe-se que ele pertenceu ao Coronel Andrade, herói da Guerra do Paraguai, depois a Antônio Firmino Morais Pinto e Oscar Caetano Gomes. Nele funcionou a Prefeitura Municipal no governo de Oscar Caetano Júnior, residência do dr. Mário Célio Caetano e, por fim, tem sido ocupado por departamentos da Prefeitura Municipal.

 O EPISÓDIO TENENTE ALCIDES X ANDALÉCIO

  


Como foi narrado no capítulo anterior, para vingar a afronta contra ele cometida pelo tenente Alcides do Amaral, Andalécio Ferreira invadiu a cidade com um bando de jagunços que arrigimentara em Januária com o apoio de um fazendeiro amigo. A invasão foi frustrada pela inusitada ação do soldado Timóteo. O tenente Alcides que diante da invasão do Andalécio se pôs em fuga deixando a cadeia a descoberto, voltou com ar de herói depois que os jagunços deixaram a cidade em consequência da ação heroica do soldado Timóteo. O que fez o tenente? É o que narra, em seu diário, Sancho Ribas que viveu o episódio. “Um simples soldado do destacamento de São Francisco, salvou a cidade do saque e das depredações que com certeza viriam a fazer se fossem vitoriosos os malfeitores.  (...) O tenente Alcides, no dia seguinte,  foi avisado da debandada dos jagunços, saiu do esconderijo furioso e mau. Estava debruçado numa janela de frente, muito despreocupado, um rapazinho, o tenente o almejou e matou. Foi em seguida para o quartel e reuniu os soldados do destacamento  que estavam dispersos e deu para prender na cidade em suas casas as pessoas com as quais antipatizava. Foram presos e trazidos à sua presença sete cidadãos que nada tinham com os acontecimentos o tenente, sem nenhum interrogatório os fuzilou sem piedade. Findo este vandalismo, o Alcides telegrafou ao Chefe de Polícia em Belo Horizonte, contando a história ao seu modo. Que foi atacada a cidade, mas que ele tinha dominado todos os assaltantes e matado 12 jagunços. Na ocasião ninguém o desmentiu e ele ficou como herói recebendo promoções sucessivas até o posto de major, quando morreu em um hospital em uma mesa de operação. O soldado que foi a salvação da cidade, o Timóteo, em vez de remunerá-lo bem, mandou-o recolher-se ao batalhão sem pagamento. O soldado veio procurar-me e contou toda a história  conforme disse acima. Cente, dei-lhe 200 mil reis para a viagem e ele ficou satisfeito porque naquele tempo era um bom dinheiro. Aliás, dei pouco, e depois, pensando melhor me arrependi de não ter dado maior quantia ao verdadeiro salvador da cidade.” Como foi narrado no capítulo anterior, para vingar a afronta contra ele cometida pelo tenente Alcides do Amaral, Andalécio Ferreira invadiu a cidade com um bando de jagunços que arrigimentara em Januária com o apoio de um fazendeiro amigo. A invasão foi frustrada pela inusitada ação do soldado Timóteo. O tenente Alcides que diante da invasão do Andalécio se pôs em fuga deixando a cadeia a descoberto, voltou com ar de herói depois que os jagunços deixaram a cidade em consequência da ação heroica do soldado Timóteo. O que fez o tenente? É o que narra, em seu diário, Sancho Ribas que viveu o episódio. “Um simples soldado do destacamento de São Francisco, salvou a cidade do saque e das depredações que com certeza viriam a fazer se fossem vitoriosos os malfeitores.  (...) O tenente Alcides, no dia seguinte,  foi avisado da debandada dos jagunços, saiu do esconderijo furioso e mau. Estava debruçado numa janela de frente, muito despreocupado, um rapazinho, o tenente o almejou e matou. Foi em seguida para o quartel e reuniu os soldados do destacamento  que estavam dispersos e deu para prender na cidade em suas casas as pessoas com as quais antipatizava. Foram presos e trazidos à sua presença sete cidadãos que nada tinham com os acontecimentos o tenente, sem nenhum interrogatório os fuzilou sem piedade. Findo este vandalismo, o Alcides telegrafou ao Chefe de Polícia em Belo Horizonte, contando a história ao seu modo. Que foi atacada a cidade, mas que ele tinha dominado todos os assaltantes e matado 12 jagunços. Na ocasião ninguém o desmentiu e ele ficou como herói recebendo promoções sucessivas até o posto de major, quando morreu em um hospital em uma mesa de operação. O soldado que foi a salvação da cidade, o Timóteo, em vez de remunerá-lo bem, mandou-o recolher-se ao batalhão sem pagamento. O soldado veio procurar-me e contou toda a história  conforme disse acima. Cente, dei-lhe 200 mil reis para a viagem e ele ficou satisfeito porque naquele tempo era um bom dinheiro. Aliás, dei pouco, e depois, pensando melhor me arrependi de não ter dado maior quantia ao verdadeiro salvador da cidade.”

AS CASAS – III

     

     Uma casa da cidade foi palco de episódios ocorridos nas décadas de 1913 e 1920, com  uma  história marcada pela violência – é o  prédio da Cadeia Pública (hoje abrigando o Colégio Técnico Cel. José Ortiga  redimindo o passado). Ela foi palco de dois notáveis episódios – ambos por abuso de autoridade de delegados. O dia 1913 resultou na rebeldia de Antônio Dó, levando-o à clandestinidade à frente de um bando de jagunços provocando  pânico na cidade e região. O outro já narrado no capítulo anterior envolveu o tenente Alcides do Amaral e Andalécio Gonçalves Pereira. Brasiliano Braz narra em seu livro São Francisco no caminho da História, a origem do conflito: “O tenente mandou prender Andalécio, homem de maus antecedentes (...). Na prisão ele foi submetido, dias seguidos, às mais cruéis torturas. Rasparam-lhe a cabeça; arrancaram-lhe o bigode, fio por fio, com o mais revoltante sadismo.” A segunda parte do episódio foi contada por Sancho Ribas: “E o Indalécio (grafia do nome diferente do anotado pelo Braz) saindo da prisão foi para o município de Januária dar queixa das violências do tenente Alcides a um fazendeiro que ele sabia ter gente e armamentos suficientes para ajudá-lo na desforra. Arranjado e arrumado o pessoal e armas, rumou para São Francisco, prometendo aos jagunços que depois do serviço seriam bem pagos com o saque na cidade. Animados com essa promessa os jagunços em número de 35, com Indalécio à frente, entraram em São Francisco, às 5 horas da tarde e tomaram  de assalto os quartéis, dispersaram os soldados do destacamento e apoderam de suas armas (...) Sobreveio violento tiroteio, enquanto o tenente  ganhou fuga esbaforido. Por volta das 2 ou 3 horas o tiroteio cessou-se reinando silêncio;  dois rapazes que estavam em minha casa saíram para ver o que acontecia voltando logo depois para dizer que não viram nenhum jagunço, nem polícia; que foram até o quartel onde viram 2 mortos e outros dois no meio da praça e mais nada. Os jagunços, suponho,  viram os companheiros mortos sem saber de onde partiram as balas que os vitimaram, perderam a confiança no ataque e debandaram com medo de serem atingidos. Um simples soldado do destacamento de São Francisco, salvou a cidade  do saque e das depredações que com certeza viriam a fazer se fossem vitoriosos os malfeitores, O soldado de nome Timóteo fez um trabalho astuto e inteligente, colocando-se  de espreita e bem municiado na casa do tenente Alcides, esperou pacientemente a passagem pela praça de um ou dois jagunços, a sós, para atirar.  Não atirava quando passavam em grupos, afim de que não descobrissem  o local em que se achava e fossem atacá-lo. Os jagunços que viram a saída do Alcides supunham que a casa estivesse vazia”.
    O desdobramento deste episódio é dramático revelando como era perigoso viver em São Francisco naquela época. No próximo capítulo, o desfecho.

AS CASAS – II

     



    Na história de São Francisco três casas ficaram marcadas por eventos conturbados e às margens da lei: à época, as casas de Astolfo Caetano (Maria Eunícia), Oscar Caetano Gomes (Brasiliano Braz) e Sancho Ribas (Joviniano Figueiredo).
    Corria o ano de 1924, conhecido em São Francisco como o  ano do “Barulho”. Neste caso, trazemos um episódio marcante tendo como alvo as casas de Astolfo Caetano e Oscar Caetano, fato narrado por dona Maria Eunícia ao jornal O Barranqueiro: “Carolino do Amor Divino, Odorico Mesquita e José Cordeiro dominavam a política local, Antônio Ferreira Leite (Maroto) era o presidente da Câmara, Sancho Ribas, Leopoldino Nepomuceno e João Pompílio se uniram e fundaram um partido novo, indicando Oscar Caetano Gomes como candidato a prefeito. Mesquita, político de muita influência representava a outra parte. Veio a eleição e para surpresa geral ganha Oscar Caetano Gomes, o que provocou pronta reação  por parte de seus opositores, que não aceitaram o veredicto popular impedindo as sua posse Houve um levante e a cidade virou um campo de batalha. A casa onde hoje resido foi sitiada e homens armados eram postos em vigilância para defender a família de Oscar Caetano Gomes, que se homiziara na casa dele, onde hoje é a propriedade do Braz”. Neste episódio foi assassinado Raul Caetano, irmão de Oscar Caetano Gomes.
    O episódio envolvendo a casa de Sancho Ribas  foi por ele mesmo narrado: o entrevero ocorrido no ano de 1920 entre Andalécio, dito valentão da cidade, e o tenente Alcides Amaral, que resultou em atos de terror e vandalismos na cidade. Depois de sofrer terrível injúria e torturas por parte do tenente, Andalécio recorreu a um fazendeiro amigo de Januária, que o proveu  com trinta e cinco jagunços com os quais atacou a cidade, começando pela a cadeia colocando o tenente Amaral e policiais em fuga. Andalécio prometera aos jagunços o butim da invasão, especialmente a casa de Sancho Ribas, um destacando comércio, com muitas mercadorias e dinheiro. Avisado do ataque, Sancho arregimentou o pessoal que trabalhava com ele, fez uma barricada com fardos de algodão, armou todos com carabinas e farta munição. O ataque não aconteceu graças a um caso fortuito e extraordinário, que será narrado no próximo capítulo. Outra vez a casa dele esteve sob ameaça, desta vez por ocasião do Barulho, 1924, por Carolino do Amor Divino. Anotou ele: “Com esta notícia, tomei providências reunindo amigos meus em nossa casa e preparei as armas e munições para a defesa – eu tinha em casa 12 carabinas e 200 balas W.44. O ataque não ocorreu graças à chegada de um vapor ao porto trazendo a bordo o deputado federal Francisco Rocha que apaziguou  a situação”

AS CASAS – I

     

 




    São Francisco tem  razoável número de casas desabitadas e algumas  em ruínas perdidas nas brumas do tempo. A concentração maior delas fica em trechos da avenida Olegário Maciel, ruas Antero Simões, Silva Jardim e Sancho Ribas, setor mais antigo da cidade. São partes da história de São Francisco que remonta ao ano  de 1876 no registro  do cientista inglês Richardson Burton que por aqui passou em viagem de canoa: “São José de Pedras dos Angicos tem, atualmente, 95 casas e uma população de 500 almas...” – isto nas  barrancas do rio
    A casa é um símbolo da vida em sociedade, deu origem às fratrias, depois às tribos e, enfim às cidades,  elemento primordial da fixação do homem depois da vida nômade. Temos, como exemplo, a criação de Roma, segundo alguns historiadores, por Rômulo que reuniu homens construindo ao acaso algumas cabanas, aglomerado que chegou a vila e depois a cidade. Assim aconteceu com São Francisco no raiar do século XIX Em princípio um povoado criado por  Domingos do Prado e Oliveira, reunindo grupos de famílias para cumprir o desiderato de vigiar o rio São Francisco. A casa foi o marco da fixação. O povoado foi crescendo. Em 1879 transformou-se em cidade, instalando-se nela o governo transferido de São Romão, que só foi possível pelo fato de dispor  casas necessárias à implantação da Câmara Municipal e do Judiciário. A pequena cidade foi se expandindo. As primeiras ruas: Direita (a que partia à direita da Igreja), Sossego (Antero Simões, hoje), a atual Montes Claros e avenida Olegário Maciel. Um complexo habitacional formado nas proximidades da pequena igreja consagrada a São José. As casas eram  singelas, levantadas com adobe ou pau a pique; baixinhas e geminadas em determinados trechos. Por volta de 1930 e de 1940 foram sendo construídas casas mais sólidas, algumas imponentes como os solares: Oscar Caetano Gomes (hoje da família Brasiliano Braz) Sancho Ribas (hoje família Figueiredo), Joãozinho Figueiredo, Djalma Baeta (hoje família Caetano), Astolfo Caetano, Manoel Ferreira, Francisco Mendonça, Agabo Ribas, Raul Coutinho, sobradinho da avenida Montes Claros construído pelo Coronel Andrade, herói da Guerra do Paraguai, atualmente ocupado por repartição pública municipal. Quanta história guardam essas casas!     

sexta-feira, 7 de junho de 2024

O RIO SÃO FRANCISCO HOJE III E IV

 

O primeiro seminário do meio ambiente realizado em São Francisco em 1988 despertou a atenção da  comunidade para importância e necessidade de recuperação e preservação da bacia do Rio São Francisco. Daí, surgiu o Projeto João Botelho Neto que se redefiniu no  Codema empreendendo, em segmento imediato, ações práticas e efetivas no estudo da situação ambiental no município. Deflagrou-se um processo de cercamento de nascentes, construção de terraços e de barraginhas com visível sucesso do trabalho comum do poder público e sociedade. Foram realizados dezesseis seminários do meio ambiente debatendo os problemas que afetavam a bacia do rio e buscando alternativas para preservar  cursos d´água com a implantação do projeto “Plantando água”. Uma preocupação na realização dos seminários era a de atingir o meio estudantil  e produtores rurais. Por outro lado, equipes do Codema entregaram-se a pesquisar os efeitos da devastação do cerrado no município chegando-se a conclusões assustadoras: a voracidade na produção de carvão causou danos irreparáveis em diversos sítios com o plantio de quadras e mais quadras de eucaliptos alterando, radicalmente, o bioma com graves prejuízos para a flora e a fauna. Em alguns casos, com o apoio do Ministério Público, foram alcançadas compensações que possibilitaram a constituição de uma patrulha ambiental mecanizada posta a serviço dos proprietários rurais na abertura de tanques e barraginhas e construção de terraços.

Outro fato importante foi a implantação do Comitê de Bacia Hidrográfica SF9 – Afluentes Mineiros do Médio São Francisco congregando 24 município do Norte de Minas com sede em São Francisco. Foi um meio de expandir a política operacional de recuperação da bacia do Rio São Francisco.

Avanços e retrocessos, foi a norma. Soprou um vendaval e o processo que vislumbrava reter a degradação do São Francisco  e  manter o mínimo de vazão de água em seus afluentes, estancou-se e, em alguns casos retrocedeu-se com a extinção da patrulha mecanizada do meio ambiente pela administração municipal.  Incrível, mas aconteceu.

O tempo escoou-se e o quadro foi se tornando cada vez mais tétrico. Na margem esquerda: rios Acari e Pardo estão degradados e com reduzida vazão.  Riachos e córregos (Bom Jardim, Lajes, Veredas Prata, Caldeirão, Cedro, Cubango e  D´Anta)  totalmente degradados e secando em certos períodos do ano. As grandes lagoas Pinhãozeiro, Renascença, Bonita e Prata, degradadas e secando, algumas, no período da seca. Na margem direita: todos cursos são intermitentes (pluviais). Lagoas Grande, Luzia, Vaqueta todas  degradadas e em processo de extinção.

São Francisco, no ano de 2024, encontra-se diante de um processo de regressão na questão ambiental. Todos os esforços dispendidos, até então, estão comprometidos.

No âmbito mineiro, quanto ao rio, a análise será feita outra ocasião. 

 

 

 RIO SÃO FRANCISCO HOJE – IV

 

            Enganam-se aqueles que têm a situação do rio São Francisco como fator presente e atribuído a questões climáticas. Ocorre, como fato, incontestável, embora negligenciado, que a atual situação do nosso grande rio já se prenunciava há muitos anos, não só pela visão cotidiana de barranqueiros, mas por depoimentos de estudiosos do rio.  Em 1983 a CODEVASF publicou o livro “O Rio São Francisco – fator precípuo da Existência do Brasil”, de autoria do engenheiro Geraldo Rocha. O autor destaca a importância do São Francisco como fator responsável pela unidade nacional, o que permitiu a formação da grande nação brasileira, ele faz severos alertas em referência aos problemas que afetam o grande rio: enchentes e secas empecilhos severos para o desenvolvimento regional. Vê-se, então, que a seca não é um fenômeno atual, assim como as baixas vazões do rio. Observou Rocha: “O São Francisco até agora entregue a seus caprichos, assola de quando em quando  a região ribeirinha, afogando rebanhos ou matando-os à sede, quando inunda ou seca  em demasia” E observa: “Regularizando o seu curso, transformando seus afluentes em reservatórios de compensação, ficará assegurada a sua navegabilidade perene, pondo em comunicação o vasto hinterland que vai da serra da Canastra  a Paulo Afonso. Estamos diante de um duro dilema: ou dominamos o São Francisco ou o Brasil desaparecerá como grande Nação. Imaginemos, por um momento, que em um interregno de meio século o São Francisco se transforme e em uma torrente intermitente, semelhante ao Jaguaribe e que um extenso deserto separe o coração do Brasil de Minas Gerais até o mar. Infelizmente este prognóstico não é produto de uma imaginação exaltada, compulsem os estudiosos trabalhos de Halfed e Liais, e verão a forma alarmante e rápida por que o grande rio perde suas condições de navegabilidade”

            Navegação há muito tempo já era. O que se anuncia, agora, é o da desertificação.   Estudiosos apontaram a necessidade da construção de barragens com finalidade de reter as águas torrenciais e, com isso, a regularização do nível do rio possibilitando a navegação, irrigação e a vida barranqueira. No caso, houve um ensaio com a construção da barragem de Três Marias que não serviu ao propósito do projeto, entrega que foi à Cemig para geração de energia elétrica tão somente. Esperava-se que fossem construídas barragens nos rios Paracatu e o Urucuia, grande mananciais, também degradados pela voracidade do avanço do poder econômico consumindo o cerrado para a produção de carvão. A questão que teve avanço  no final do século XVIII com a decadência da mineração, que levou à criação de fazendas estimulando a criação de gado e desenvolvimento da agricultura em áreas de nascentes, principalmente no Alto São Francisco. O avanço foi mais longe para alimentar as siderúrgicas  de ferro dizimando o cerrado, “pai das águas”, anotado com razão por Ivo das Chagas, é só ater-se ao processo de captação das águas da chuva reabastecendo lençóis freáticos, que dão origem às veredas e, consequentemente, córregos e rios. Tudo está comprometido e o rio sofre. E nada é feito para salvá-lo.