sábado, 22 de outubro de 2022

 


DE VOLTA AO SERTÃO URUCUIANO

João Naves de Melo

 

            Domingos Diniz, meu  grande amigo, tal qual um irmão, prefaciando o livro Do Cerrado às barrancas do Rio São Francisco, de minha autoria, numa descrição fidedigna e generosa, descortinou toda minha intenção e o modo de fazer o livro. Leio-a, de quando em quando, e me emociono sentindo o quanto valorizado ficou o livro, revivendo minhas caminhadas. Isso foi por volta de 2001. Vinte e um anos decorridos e neste caminhar perdi, aqui na terra/sertão, o meu grande amigo Domingos Diniz. Disse do seu encantamento aqui na terra, temporada material, pois noutro plano, em espírito, navego com ele em nossas jornadas sertanejas, bebericando a fresca água das veredas impregnados pelo perfume das caraibinhas. Então, relendo – mais uma vez – o poético prefácio do dito livro, vontade senti – e por necessidade – de voltar ao meu querido sertão urucuiano e, em letras, materializar minhas lembranças, tantas ainda guardadas e que não foram parte do livro publicado ou em parte.

            Volto ao Urucuia em aprazível passeio.  Pelo que lá vivi, a descrição será dividida em dois cenários: os Gerais e o Vão. São dois espaços distintos, embora na mesma região. Distintos considerando os elementos físicos, biológicos e humanos, e suas relações com o meio. Tenho como ponto de registro rever a relação do homem com aquele universo tão próprio, e as  condições climáticas e as características do espaço geográfico.

 

 

I - OS GERAIS

            O que me guarda a lembrança dos gerais pelos anos que passei embrenhado neles, quase sempre no pelo de um burro? As veredas; a flora tão característica; a fauna muito especial; a habitação, o clima e o homem. Viajo ao céu aberto, profundo, de poder mergulhar os olhos no etéreo, nos rastros de luzes, pinceladas mágicas do Criador, sentindo a sua magnificência: eu e o Universo.

 

 II - REENCONTRO A VEREDA

            Deixando a estrada que serpenteia o cerrado com suas tortas árvores deparo-me com a vereda. A primeira visão é a do campo limpo com a grama rasteira bordada de flores tantas e capim com pontas tal qual agulha indo mais alto. Na entrada do campo, o canteiro de ciganinhas de vermelho brilhante visitadas por abelhas em processo de libação de néctar. Um quase imperceptível chuá anuncia o fluxo de água, que brota  de locas seculares guardada no caixão propiciado pela depressão no cerrado, fonte de tantos ribeirões. Um filete descobre-se à luz, quase nada de se perceber além do anúncio. Borbulha na ânsia de respirar. Escorrega e, antes de alcançar o limo anelando as raízes das palmeiras, de outras veias é incorporado com a bênção dos gerais. Forte que fica,  desliza com mais força e, assim, vai colocando a  bailar as verdes algas, bacilos azotados, fiapos só,  tecendo um tapete. Filhotes de palmeiras balançam tenros leques saudando a vida num bailado, de toa, querendo a altura de beijar o céu. A cristalina água deixa a fonte, suavemente escorrendo em leve decaída de quase não se perceber, sem pressa. Ganhando força, de mais forte parecer, banha os troncos dos buritis que se alongam em fila. É uma linha de corpo denso, verde carregado. Palmeiras – as majestades –, árvores companheiras seculares e arbustos. Um dossel viridente.  Um quadro exuberante, mas a valia maior do sertanejo é a do buriti. Ele tem o significado do existir água, da presença dos bichos do céu e da terra em festa diária,  tem ele, o buriti, desde o albor cor de rosa ao poente dourado. Maior significado para o homem que habita os gerais, para o qual é tudo.

            Eis que meu pensamento voa de volta aos gerais ao encontro do cerrado e das veredas. Vislumbro o jardim, que sempre me encantou. Contudo, nas minhas andanças tantas no sacolejo dos burros, era apenas o viajar, o passante alegre e encantado com o que descobria a cada volteio da estrada, mas sem a curiosidade de ter o conhecimento das coisas da natureza mostrada. Pensei, então, ser preciso fazer deste encanto um cabedal de conhecimentos, empíricos que sejam. Por isso, esbarrei no rancho do amigo Tião Ema, plantado na cabeceira do córrego Conceição, no topo da Serra da Conceição. Queria saber do seu conhecimento, de gerações acumulado,  o nome e a utilidade das plantas dadivosas, que enfeitavam o cerrado e as veredas. Outro sertanejo já me instruíra sobre as árvores do cerrado: flores, raízes e cascas na utilidade da medicina caseira, o Zé Guedes, companheiro de muitas jornadas nos cerrados de Serra das Araras.

            Das informações de Tião e Zé, cataloguei as mais interessantes e de uso do sertanejo. Vai da beleza incomum da floração, à frutificação, às sementes e às raízes.

            Antecipando os registros das informações de Tião Ema e Zé Guedes, vou estender um pouco mais o comentário sobre a vereda. Existem tantos estudos técnicos sobre o bioma cerrado, uma plataforma para quem deseja aprofundar-se no seu conhecimento e sobre a sua importância. A minha apreciação não vai longe. Fica apenas ao alcance dos meus olhos pelas trilhas que percorri durante meses no município de São Romão e, mais tarde, nos cerrados  de Serra das Araras e do  Urucuia, quando município de São Francisco. Então, o que vi e registrei, por natureza do trabalho nas Escolas Caio Martins, na preservação do cerrado, e como escritor diletante, foi apenas fruto de observação e conversas com amigos sertanejos.

A vereda é uma bacia de capitação de água,  que deita do céu nos campos atapetados de folhas secas, que por declive escorre para uma caixa d´água onde, graças à umidade do solo, cresceram as palmeiras e suas as companheiras.  O lençol freático reposto, cheio, libera o fluxo de água, que supita formando as fontes e delas os córregos e ribeirões, que  escoam para o rio Conceição (denominei-o rio contrariando a nomenclatura fluvial oficial, que o tem como ribeirão, posto ser ele muito mais formoso e farto de água que tantos outros batizados como rios), dele ao Urucuia,  ao São Francisco e, por fim, à morada maior: o mar, levando  as lembranças do cerrado. Deslumbrante cenário se revela na aridez e sisudez do cerrado. Tudo tão quieto, o que me levou ao poeta Púckkin com o verso “só o silêncio murmura”. Sim, é na hora do silêncio, antes do pouso ou arribação das aves, que suave canção, quase imperceptível, é notada – o suspirar da fonte que brota das locas das raízes do buriti. Deveras. De repente, tão de vez, no silêncio mergulhei nos mistérios e encantos das veredas: os buritis que me contaram histórias de um paraíso.

            Ainda viajando, passeando pelos gerais, meus olhos vão se deleitar com paisagem multicolorida, bordada com flores singelas de tanto encanto e multifacetadas: amarelinha, arnica-do-mato, assa-peixe, barba-de-bode, batata-de-purga, beladona, carapiá, ciganinha, coroa-de-frade, manacá, marcela, para-tudo, poaia, teiu,  vassourinha, miroró. Estendeu o meu conhecimento as informações preciosas de Tião Ema e Zé Guedes meus companheiros de jornadas naquele mundo encantado. Não foi só pela beleza ornamentando o cerrado. Todos elas têm muita importância, na vida do sertanejo – da diversidade, o que mais explica Tião Ema, por sua experiência de vida. Impressionante como se estende à medicina caseira, o conhecimento empírico, os usos e abusões conforme as circunstâncias em benefício do homem.  Na passagem pelo campo sujo, ou cerrado sensu strict, vê-se que a flora é fantástica e de grandiosa utilidade no campo da medicina, da alimentação, da fabricação de móveis e construção em geral de artefatos ou casas. O elenco vegetal é imenso, de rara beleza e de grande utilidade para o bem do homem.

            A imediata recordação que eu tenho das veredas, sem dúvida, fixa-se na sua beleza, na magia espiritual que ela nos proporciona com sensação de paz e proximidade com o Criador. Revejo, extasiado, ali estático de olhos fixos nas primeiras palmeiras em uma fileira ordenada, o balançar de suas palmas como grandes leques – flabelos que em tempos idos eram levados por membros da corte papal, sinal de distinção do romano Pontífice. Lá, eram usados por altos dignitários no Oriente. Ali, aos meus olhos, diante de tanta exuberância, sentia-me como alto dignitário bafejado por obra do Criador. Do infinito, da celestial abóboda, de azul profundo, tão profundo e puro como é no sertão,  desceram meus olhos, pelos formosos troncos do buriti a alcançar a fonte rumorejante, no seu delicado bailado esgarçando verdes algas com a cantiga das locas.

III -A FLORA DOS GERAIS

 Árvores companheiras do buriti na formação das veredas, no aproveitamento das umidades são tantas. A pimenta-de-macacos, a pindaíba de tronco atirado ao alto; a embaúba, árvore de médio porte – variações do nome desta árvore são sutis,  o mais diferente deles é “árvore-da-preguiça”, por ser esta espécie a preferida pela preguiça-de-coleira, que consome avidamente as suas folhas tenras. E tem mais serventia para a fauna: os pássaros a procuram por causa dos frutos. Aves mais atraídas por ela: sanhaços, sabiás, saíras, tuins, tucanos, araçaris, periquitos, jandaias, arapongas, trinca-ferros, pica-paus, papagaios, tico-ticos, entre outros. E  tem mais – ela é pioneira e rústica, ideal para inicio de reflorestamento em áreas degradadas.

As árvores (com mil utilidades): araticum, Gonçalo, sucupira-preta, murici, canjerana, pequi, buriti, lixeira (sambaíba), caviúna-do-cerado,  barbatimão, baru, cagaitera, mangaba, jatobá-do-cerrado, pau-santo, jacarandá-do-cerrado, bacupari, sucupira-branca, pau-terra, ipê-do-cerrado

IV - A MEDICINA CASEIRA

Além dos curandeiros com as garrafadas, sua experiência empírica, pessoas comuns que dominam o uso da flora nos cuidados da saúde e a variação é muito grande  no uso de raízes, sementes, folhas e cascas na cura de doenças ou males: problemas de garganta, inflação dos olhos, inflamações uterinas, picada de escorpião, enxaqueca, dores de dente,  cicatrizante, dores do estômago e rins, gripe, febre e resfriados, prisão de ventre, antirreumático, diurético, vermífugo, calmante, expectorante,  má digestão, picada de cobra, rouquidão, problema do fígado, estimulante do apetite, dor na coluna, inchaço, banho para recém-nascido que apresenta atraso no desenvolvimento, asma, bronquite,  regulador menstrual, úlcera e gastrite, afrodisíaco masculino e feminino e inseticida.

Muitos alimentos são encontrados nos gerais:   abacaxi-do-cerrado, araticum, baru, buriti, pequi, cabeça-de-nego, cagaita, jatobá, mangaba, murici,  mama-cadela, caju-do-mato, murta, grão-de-galo, saputá, umbu d´anta, pimenta-de-macaco (tempero), coco-indaiá.

 

V - O HOMEM

            Não são tantos os moradores nos gerais, considerando a   vastidão de terras num ambiente totalmente isolado. Nas minhas andanças, conheci poucos deles. O mais considerado foi o Sebastião Ema, que se tornou meu amigo. O seu rancho era plantado na cabeceira da Vereda do riacho Conceiçãozinho, na  divisa do campo sujo com o campo limpo. Era um rancho modesto, mas bem levantado. As paredes eram de enchimento, rebocadas com barro branco refletindo muita luz. Era coberto pelas palhas do buriti, um processo tão bem engendrado que não dava passagem à água por mais forte fosse  a chuva. As portas e os móveis do rancho eram todos fabricados com matéria do buriti e embaúba. Nas paredes, penduradas, as redes, cordas, peneiras – todas de cerda do buriti. O fogão era uma peça interessante, considerando a inexistência de tijolos nos gerais:  era um jirau montado sobre quatro forquilhas de jatobá-do-cerrado, estrado de achas de pau-preto forrado  com grossa cobertura de argila da vereda. Não era de precisão ser grande, pois nem tantas eram as iguarias levadas ao fogo. No pote de barro sobre singela cantareira, feita com o colmo do  buriti, a água fresca da vereda. Ali o palpitar da vida se dava ao sol nascer e dormia logo ao seu cair no horizonte. Paz! Somente a paz! Em um mundo envolto de grande pureza. Tião tinha um belo burro ruão, que arriava todas as manhãs para percorrer as redondezas onde pastavam poucas cabeças de seu rebanho, de especial as vacas, que lhe forneciam o leite para o consumo e fabricação de queijo que, estocado, vendia no Núcleo da Escola Caio Martins onde estudavam seus filhos ou no comércio do Seu Miro. Cultura só mesmo a mandioca e moitas de cana, pois o solo do campo sujo é fraco – mandioca para o consumo e a cana para fabricar a garapa adoçante do café. No quintal do rancho, em jiraus, verdejavam os temperos e plantas medicinais: pimenta, coentro, salsa, cebolinha, arruda, manjericão, malvão, erva cidreira.  De admirar ainda se via moitas de algodão caboclo que dona Maria, esposa do Tião, cardeava e levava a um rude tear para tecer tecidos que ela empregava na confecção de calças, camisas e cobertas.

Não visitei outros ranchos nos Gerais. Na minha passagem pela Conceição, viajando pelos gerais, vi muitos e muitos deles plantados nas cabeceiras de veredas. Vendo-os, de longe, sem contato com os moradores, imaginava que as famílias que ali viviam eram sofredoras, abandonadas, carentes, tristes. Então, escrevi o poema O Homem das choupanas lamentando o seu abandono. Depois que conheci Tião Ema, que vivi mais de perto aquele universo, mudei de opinião e conclui que  muitos homens que vivem na cidade, usufruindo da “civilização”, têm uma vida muito mais sofrida e dependente,  que o homem dos gerais. Neste  universo, ele vive a sua dignidade, não depende da caridade pública, da compaixão alheia; nele ele encontra na flora diversificada o alimento, uma fonte enorme de vitaminas e na fauna outra fonte de alimento rica em proteína, a caça.  Não era rica a diversidade e a população de animais no cerrado. Contudo, por outro lado, a população humana era mais rara ainda. Desta forma, um veado ou uma capivara, animais de grande porte, abatido, servia como alimento para vários diais. A miúde tinham, ainda, as aves, tatus, teus e peixes O homem tinha, então, uma dieta muito equilibrada de vitaminas e proteínas e até carbo-hidratos e energéticos com a farinha de mandioca e a rapadura.

Infelizmente os tempos são outros, já não se vê tanta riqueza nos gerais, que se tornou hostil à morada do homem. O que escrevi, antes, foi vivência de tempos passados. Atualmente a situação não é a mesma. O cerrado vem sofrendo contínuo processo de degradação, um desastre. Para alimentar as carvoeiras centenas de milhares de hectares de toda espécie de árvores foram cortadas, em alguns casos sem condições de regeneração naturalmente. Onde imperavam os pequizeiros, jatobás do cerrado, araticum e outras fruteiras, foi plantado o eucalipto que, sem diversidade, sequer atrai a fauna, pelo contrário, a exclui do sistema mono. Em consequência, em primeiro plano, ficou o solo exposto ao sol inclemente, sem cobertura para reter as águas pluviais e, em consequência, abrindo caminho à erosão, comprometendo as veredas e cursos d´água – atualmente, muitos deles são intermitentes ou secos de vez.

Por outro lado, a caça foi proibida severamente. O conjunto de fenômenos causados pela ação do homem de fora dos gerais na destruição do cerrado e a proibição da caça inviabilizaram a  vida do homem ali levando-o ao êxodo.

O que se vê, então, atualmente, são ranchos transformados em taperas e rareada a presença humana, como ser vivente, nos gerais.

 

VI - O VÃO

 

Na linguagem do urucuiano o vão  é o terreno que se estende do sopé da serra às baixadas dos rios.  É a depressão do terreno, o plano abaixo do altiplano.

Nesta minha volta ao Urucuia concentro-me no vale do rio Conceição, onde plantamos um núcleo das Escolas Caio Martins em 1957.

Desci a serra da Conceição na trilha cavaleira que vem do rancho de Tião Ema, passando pelo corredor de pedra (Corredor da Tocaia na história de dona Joaquina) alcancei o socalco, etapa final  da estrada que a direção do Núcleo intentou abrir como acesso à fazenda Brejo Verde. Logo abaixo cheguei ao vão. Dali meus olhos  alcançaram o capão de angicos às margens do rio Conceição com seus belos meandros, numa área de aluvião própria para o plantio de arroz, nas águas e feijão, na seca. O vão que visito vem do ponto de travessia do rio Conceição com destino à fazenda Boa Vista, dos Palma,  partindo da propriedade de Manoel Tempo Duro, às margens do córrego das Lajes. Naquele ponto, a serra é embeiçada no rio com o barranco lambido pelas águas. Vencido esta ponta de serra chega-se ao vão do Conceição, que passa pela sede do Núcleo, alcança – riacho Conceiçãozinho em direção da fazenda Santa Rita. Antes, encontro a bela área reservada para a cooperativa dos Bandeirantes, conforme planejado quando da preparação da Bandeira. Como diretor dela, o meu único ato foi arar uma área para o plantio de arroz, que não saiu da vontade. Não plantei arroz no terreno da cooperativa, mas fiz uma pequena roça de milho e arroz em parceria com Vicente Barbosa, na área da embocadura do riacho Conceiçãozinho com o rio Conceição. Quando fui transferido do Núcleo, vendi minha parte da lavoura, o que me deu bom lucro (dois cortes de linho para confecção de dois ternos e um par de sapatos, o que não tinha no Urucuia.

No meu passeios pelo vão da Conceição, fui à baixada que parte do sopé da serra, das cachoeiras do  Conceiçãozinho e do Imbé às margens do rio Conceição. Ali visitei o rancho de Zacarias, que foi personagem destacada no livro Joaquina, uma lenda urucuiana, de minha autoria, narrando histórias de dona Joaquina, a matriarca que imperou naquela fazenda no século XIX. Encontrei-o debruçado sobre uma fileira de tabaco colhendo folhas para fabricar o fumo de  corda. Lembrei-me, então, que à falta do Continental, cigarro tão raro no Núcleo, ele sempre levava toras de fumo, dos mais fracos, para nossos cigarros de palha. Noutros ranchos, próximos, moravam Chichico, os baianos João e Avelino e os pais de Maria, lavadeira  do Núcleo – todos agregados que prestam serviços diários ou por empreitada ao Núcleo. Gente simples, muito amável e, ao seu modo, muito feliz.

VII - RIO CONCEIÇÃO

Um recorte em meu passeio, assim que deixei a baixada das cachoeiras, para falar um pouco sobre o rio que nos conquistou por inteiro, o Conceição. E ali cheguei,  às suas margens. Então, voltei longe no tempo e recordei que na sua contemplação constante, instintivamente, voltava às aulas de História e Geografia do professor Afrânio Teixeira Bastos, do Curso Normal Regional de Esmeraldas – vinha-me à memória o delta do rio Nilo, a dádiva do Egito, cobrindo extensas áreas com o rico limo propiciando o desenvolvimento de variadas culturas, e o rio Jordão com seus meandros. De fato, na baixada dos angicos, uma meia lua formada pelo contorno do rio Conceição, a todo ano, com sua cheia, o Conceição deixava, também, o rico limo – fartas eram as culturas de arroz e feijão. Lembrando os meandros do Jordão, era o serpentear do Conceição, contornando o capão dos angicos, de quase se ver, estando no eixo da área, as margens do rio que chega com a outra margem do rio que passa.

Ainda no passeio pelo rio Conceição deleitei-me com a visão da areia branca, tão branca como neve, formando formosas praias, sombreadas pelas copas de frondosos juazeiros erguidos nos barrancos com a vantagem dos frutos para os peixes. Na curva fechada do rio, o poço famoso, muito escuro, onde nos esconsos, segundo moradores da região, dormia um enorme surubim roncador.

            Tão formoso Conceição!

VIII - FAZENDA SANTA RITA

 

Na fazenda Santa Rita percebi a grande mudança, a transformação do modo de vida dos moradores dos gerais e do vão. Antes de chegar à fazenda Santa Rita, ainda no Núcleo, avancei em um trecho do vão, partindo das margens do rio às cachoeiras do Conceiçãozinho e do Imbé, uma ao lado da outra. Uma grande área de mata de transição. Vindo do sopé da serra, em seus vários boqueirões, encontrei um mata fechada com espécies várias: aroeira (esteios para construção de casas e postes para cercas) jatobá (para fabricação de carro de bois), pau preto (construção),  peroba (construção e móveis), cedro (móveis) angico (postes e estacas), pau d´óleo/copaíba (remédio), e outras tantas de menor destaque de utilização, mas formosas no conjunto esverdeado. Deixando o sopé na direção da baixada do rio, árvores de menor porte, a vaqueta e, por fim, área de aluvião enriquecida nas cheias do Conceição.

A fazenda Santa Rita sinaliza o modo de vida do povo da região que não tem nada parecido com os habitantes dos gerais.  Domingos Sales de Abreu,  no livro Às margens da incerteza, descreveu, com propriedade, como era aquela região “os posseiros de áreas maiores aproveitaram a oportunidade de negócios dividindo-as em glebas reduzidas, ou mesmo pequenas chácaras, aumentando sobremaneira a densidade demográfica.” Na região encontrei diversas propriedades bem formadas – casas, currais e outras melhorias. Na fazenda Santa Rita destaca-se o comerciante pernambucano Seu Miro. É o principal comércio da região, onde os moradores encontram variados produtos para comprar: arame farpado e grampos, pregos, sal, medicamentos básicos (melhoral, cibazol, leite de magnésia, sal-de-frutas, iodo, mercúrio, creolina); arroz, feijão, farinha, café em grão, rapadura. Interessante era o sistema de comercialização:  raro o pagamento com dinheiro. O morador faz a compra do necessário e Seu Miro tudo anota em um caderno. No período da colheita de arroz, milho e feijão, ele sai pelo sertão com uma tropa de burros recebendo cereais em pagamento, e até mesmo mantas de toucinho. De quando em quando, mercadores de Patos de Minas compravam os estoques do seu Miro

Depois da fazenda Santa Rita chego ao aglomerado onde, todos os anos no dia Primeiro de Maio celebra-se a Festa de Santa Cruz. O evento acontece em uma  clareira aberta na mata  de transição nas proximidades do Riacho Doce onde, no centro, tem erguida uma enorme cruz, local das devoções. O ponto de apoio é a casa de José Pereira, posseiro de uma boa gleba tendo como sede uma casa muito boa, levantada com tijolos e coberta com telhas de barro. Ali, anualmente reúnem-se centenas de moradores da região para a festa religiosa.

Mais na frente, seguindo o caminho beirando as fraldas da serra, às vezes sob um túnel formado pelas copas de portentosas aroeiras ou margeando vazantes forradas de capim rasteiro, encontro uma bifurcação. A estrada à direita leva à fazenda Poleiro de Pato, administrada por Juca Alkmim, um homem muito distinto, alegre e sintonizado com o que passa no país através de um rádio RCA Victor alimentado por bateria. A fazenda fica às margens do rio Conceição onde se faz a travessia para o fazenda Rodeio, nas margens do Rio Urucuia. Em princípio, nos preparativos da Bandeira do Urucuia, a fazenda Rodeio fora prometida à Cooperativa dos Bandeirantes,  que não saiu da promessa. Contudo, o nome rodeio não saia de nossas inspirações ou aspirações de nos tornarmos proprietários de uma bela fazenda às margens do rio Urucuia. Apenas eu, Raimundo e Francisco conhecemos a fazenda no giro pela região de Capão da Cinza e Vereda do Chico Velho de distinto encantamento.

A estrada à esquerda leva à fazenda Cabo Verde onde foi plantado um segmento do Núcleo Colonial da Escola Caio Martins, com um professor lecionando para as crianças da região e assistindo os moradores locais. A sede foi plantada nas margens do Riacho Morto, também conhecido como Corrente. Na frente da sede estende-se uma formidável vereda de formosos buritis, razão por  que a fazenda também é conhecida como Buritizeiro. Pousando o pensamento no Cabo Verde volto no tempo encontrando Emílio Milton (Lourinho), companheiro de curso normal e bandeirante, com sua esposa Terezinha e o primogênito Gilson.  Um grave incidente desencadeou na partida dele e família do Urucuia. Substituiu-o o bandeirante Raimundo Melo, que revolucionou o meio com a construção de uma capela com uma torre futurista – Raimundo era um gênio sonhador.

Do outro lado do Riacho Morto encontro a fazenda Corrente de Antônio Torres, meu guia nas andanças pelo sertão urucuiano cadastrando eleitores para a Comarca de São Romão.

No Cabo Verde, nas margens do riacho Morto ou Cabo Verde, dá-se o final do vão da Conceição. Do outro lado do riacho Morto começa o vão da Serra Constantino que se estende até às margens do rio Urucuia onde desemboca o rio Conceição.

Nas minhas andanças com Antônio Torres deixei a Serra da Conceição rumo à Serra Constantino, passando pela Fazenda Brejo Verde onde  foi instalado, também, uma escola sucursal do Núcleo. O primeiro a lecionar na fazenda foi o professor bandeirante Geraldo Moreira, substituiu-o o professor Geraldo Saldanha.  Lembrei com certo carinho as visitas que fiz aos dois, em duas ocasiões: uma levando suprimento alimentar transportado pelas trilhas do gerais em uma carreta puxada por  trator; a outra foi com a nossa trupe teatral levando a peça o Diamantão. Lembro-me, com saudade, o pavor que a peça causou nos assistentes, gente humilde da região. Numa cena, bem montada pelo Raimundo,  um garimpeiro é ferido gravemente por índios, mas ao tombar desfere um tiro de garrucha em seu agressor. O índio com sangue escorrendo da boca e do peito (anilina) estatela no chão. Ao troar do tiro, mal esvaída a fumaça, o público desapareceu da sala em disparada. Ainda bem que se tratava do ato final. Espanto foi no outro dia: quando os atores deixaram a casa, de manhã, deparando-se com muitos moradores escanchados na cerca de varões na frente da casa. Subiu o burburinho com muito  espanto ao verem o  homem baleado vivinho da silva. A fazenda é localizada em  um local extremamente inóspito e de terras áridas, cobertas de lobeiras. O que de especial tem a fazenda é  cachoeira do Riacho Brejo Verde, que é deslumbrante. Tem ela a profundidade de perto de cem metros de queda livre entre paredes de pedras negras forradas de farta vegetação de imbés e samambaias cujas folhas bailam com o respingo da água desprendida do alto (calculei a altura dela tendo como referência a cachoeira da Fazenda Extrema, que visitei com outro guia, João Palma – segundo informação local, ela tinha a altura de 110 metros, medida feita com cordas pelo padre Guerino, pároco de São Romão em suas desobrigas pelo sertão). Abre-se, cortando a serra, um formidável cânion. Foi com alegria que revi a cachoeira.

 Um pouco depois, uma nova e exuberante visão: o vale do riacho Mundo Novo. Fiquei, deveras, encantado com o deslumbrante panorama lembrando-me do livro que li quando aluno da Escola Normal de Esmeraldas, Vale Aprazível de Louis Bromfiield – um éden.

IX - A VIDA NO VÃO

E como é a vida naquele vão? Certamente, pelo que já descrevi, ela é diferente do modo de vida do homem dos gerais. Verifica-se pela qualidade das terras agricultáveis, propícias à cultura de cereais e criação de gado; oferta abundante de água,  clima agradável, meios de comunicação e vizinhanças.  Nas proximidades do Riacho Doce conheci um criador de cavalos, José Braga, homem de estatura baixa, atarracado, muito afável e sempre usando um chapéu de aba larga. Comprei na mão dele um cavalo que dei o nome de Sputinik, que, infelizmente não aprendeu esquipar, nem o viageiro, ganhando, com isso, a liberdade no campo, livre dos arreios. Preocupava José Braga os seus filhos, que se envolviam em muitas confusões, especialmente nas festas.

O vão da Conceição não tem a diversidade da flora dos gerais, mas a compensação está na riqueza das terras, em especial nos terrenos de aluvião muito férteis pelos sedimentos deixados nas cheias do Conceição. Outro fator importante é o convívio social: festas, comemorações religiosas, ternos de foliões  – conheci um terno muito famoso na região, os Serranos tendo deles, inclusive, a gravação de uma música cantada durante a dança (guaiana) do Quatro.

Outro aspecto de destaque é o do vestuário. O guarda-roupa dos moradores do vão é mais sortido e, na maioria de roupas confeccionadas (calças de brim jeans), calçados de botinas e botas, boas roupas de “festas”, especialmente as mulheres, que também fazem uso de maquiagem – o ruge e pó de arroz; chapéus de feltro. O homem dos gerais tem pouca roupa, geralmente tecida em casa; calçado é a precata de couro e o chapéu da cerda do buriti. É muito modesto.

A alimentação do homem do vão é mais farta e variada: arroz, feijão, farinha, carne de porco ou galinha, ovos, mandioca, leite, queijo. Tem mais verdura cujo plantio é facultado pela qualidade do terreno.

 

X – POSSEIROS E AGREGADOS

Na minha primeira passagem pelo Urucuia tomei conhecimento que o Núcleo da Escola Caio Martins fora assentado na fazenda Conceição, que nos fins do século XIX, fora propriedade de dona Joaquina Pereira da Mota, famosa matriarca cuja história se transformou em uma lenda. Dona Joaquina teve um fim trágico – foi processada e condenada à prisão em São Romão e, no final de sua vida se encontrava em estado de miséria. Suas fazendas foram desapropriadas pelo Estado. Dizia-se, na ocasião, que eram quatro fazendas: Conceição, São João, Boqueirão e Rodeio, terras de  não acabar, mais de 20 mil hectares. O quanto exato nunca fiquei sabendo, mas pelas minhas viagens no lombo de burros aquilatei sua extensão. Partindo da sede do Núcleo até a fazenda Brejo Verde, pelos gerais, para vencer a extensão levava-se um dia de viagem a cavalo; igualmente era o tempo que se levava para chegar à fazenda Cabo verde. Para chegar ao extremo da Vereda Chico Velho, na fazenda Conceição, levava-se três dias de viagem a cavalo, com pousos no Poleiro de Pato, Capão da Cinza e na  entrada da Vereda do Chico Velho. As Escolas Caio Martins receberam as terras do Estado para instalar, nelas, um núcleo sócio-educacional de apoio ao homem do campo. Implica, isto, que lá já existiam muitos moradores, todos posseiros. Não tendo as Escolas recebido a escritura da fazenda, também ela ali se encontravam como posseira, mas, de certa forma, responsável por imensa área ainda não posseada. Diante da realidade, não interferiu na situação dos posseiros, pelo contrário até mesmo passou a trabalhar com eles. Alguns posseiros constituíram propriedades sólidas, com extensas áreas tendo, nelas, instalados muitos posseiros. Entre os posseiros existiam muitas famílias oriundas da região de Pompeu sendo eles tratados como “os pompeanos”. Essa ligação remete até mesmo à dona Joaquina que era conhecida, na região, como Joaquina do Pompéu. Na verdade a Joaquina de Pompéu era outra, uma rica e famosa fazendeira da região de Pompéu, amiga da corte portuguesa na Brasil.

Outras figuras que exerciam importante papel na fazenda Conceição (Caio Martins) e região era a dos agregados. A eles era permitido  construir, com um pequeno cercado onde podiam ter suas plantações. Nas terras da Escola e de proprietários da região pelo uso de áreas mais extensa, geralmente para o plantio de arroz, feijão e milho, era cobrada uma renda de até 20% do que produziam.

 

XI - FIM DE JORNADA

Volto à realidade, tão longe do meu Urucuia. Fora o sonho não tenho como comprazer-me das veredas, dos córregos, da flora e fauna dos gerais; das fornidas árvores dos boqueirões, das cachoeiras do Conceiçãozinho e do Imbé – modestas no volume de água, mas tão mimosas ornadas por imbés e samambaiais como cortinas viridentes que reluzem no respingo da água prateai dos gerias de campos virginais.

Fim de jornada, mas não de um sonho alimentado, a cada lembrança, pelo paraíso oferecido pela natureza, bondade de Grande Arquiteto do Universo.


FIM







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