Uma crônica em memória de grandes foliões que se encantaram*
Na manhã do sábado 20, passando pela praça Manoel Clemente (Quebra), deparei-me com o Locha, cercado de amigos contando “causos”. Esbarrei e perguntei o que ele fazia por aquelas bandas. Como resposta ele apontou o movimento na casa do Marciano emendando que iriam sair com a Folia de São Sebastião. Não deu outra, fui para lá e esperei a primeira saudação à bandeira de São Sebastião, antes do terno sair para a jornada. Diferente das outras ocasiões, quando o terno sai apenas no dia do santo, ele estava fechando o sétimo dia, pois era essa a promessa de Tirburtina Fiúza de Brito – mãe do Marciano (Rodrigues de Jesus), que era a favor dele. Feita a saudação da bandeira, com toda reverência, seguiu-se a cerimônia de beijar o altar, com música especial. O primeiro a beijar a bandeira foi o imperador seguindo dos foliões. Guardo os versos solenes da música: “Vou beijar/ E torná a beijar/ Lá na ponta do altar/ Onde Deus está”.
Muito cinzano para afinar a voz e dar ânimo nos braços e lá foi o terno para sua missão. Dei uma esticada à minha casa para pegar a máquina fotográfica com fim de registrar a jornada no Barranqueiro. Reencontrei o terno aguardando o café depois de uma saudação. Os foliões papeavam pelos cantos, contando “causos”. Assim que entrei na sala esbarrei com Joel Peba agarrado no sono esparramado em um sofá – não é para menos, pois todos têm uma função de cantar e tocar e a dele era só a de virar copo e gritar a saudação: “E viva São Sebastião! E viva os foliões! E viva o Imperador e a Imperadeira!. E viva os donos da casa” E tome gole. E teve um agrado para os donos da casa – bem dançada suça, que levou para roda muitos dos presentes, que não fazem parte do terno, como Zé Babão. Admirável era a alegria e a vitalidade de Henrique Quente, o excelente rabequeiro, sapateando como criança apesar de seus 75 anos de idade.
O terno de Marciano é composto pelos foliões: Marciano, Locha e Elpídio – violões; Aniceto, José Veloso e Mauricyr – violas; Henrique Quente – rabeca; Tonho Duro – caixa; João; Maromba; Vicente Quiabo – balainhos; Valdivino e Catarino – pandeiros.
Foi bom rever e ouvir o Locha fazendo dupla com Vicente Quiabo cantando uma suça com os volteios do violão de Marciano e o dengo da rabeca de Henrique Quente, isso sem falar da graça e sutileza da percussão comandada pelo Tonho Duro. É uma beleza. São Sebastião deve estar feliz com as homenagens.
* Publicada no jornal o Barranqueiro em 2017







