sábado, 11 de fevereiro de 2023

RESGATE DE UMA HISTÓRIA



JOVANE VOLTA AO URUCUIA

    Anos transcorridos, foram tantos! Jovane estava de volta ao Urucuia, pois de saudades tantas não mais resistia ficar à distância do mundo que um dia construiu. Era, afinal, um amor amalgamado no sentimento de um nobre ideal. Precisava estar mais uma vez onde plantou  sonhos e teve fase tão rica e prodigiosa de sua vida, conquanto em tão poucos anos. Ora, anos não contam, não existem o ontem, o hoje e o amanhã quando se navega na corrente contínua do vir-a-ser: “a consciência profunda que não é limitada pelo nascimento e morte, nem pelas formas individuais de aparências”, ensina o misticismo tibetano. Ali ele estava no espaço onde viveu circundado por exuberante natureza, pois dela não se desligou. Então, ali alojados estavam seus fluidos espirituais agora, neste retorno, por que trouxe e como chegou o seu corpo? O que intuiu a sua viagem? Foi sentimento de buscar a verdade de alguns fatos para dissipar as dúvidas que lhe ocorreram, por informações, a respeito de uma narrativa que o levou a publicar um livro contando uma história que ali teve como cenário. Pretendia  fazer o resgate de uma história, ou de uma lenda, que muitos anos passados narrou-lhe um velho urucuiano – a lenda de dona Joaquina, a matriarca que fundou a fazenda Conceição, agora próspera vila, sede do Núcleo Colonial Vale do Urucuia plantado pelas Escolas Caio Martins.

COMO FOI O POUSO DE JOVANE NO REGRESSO

    Jovane chegou pelos gerais de tanto sentir vontade de correr pelas veredas para ouvir o canto dos buritis com o sopro do vento; ouvir o chuá suave da água nascendo de locas enfurnadas nas raízes de gigantes palmeiras; percorrer trilhas das seriemas no emaranhado de  árvores retorcidas, pequenas de ser e de quase nada de sombra dão a cair no capim de ano; de se colorir nas ciganinhas para recordar do amigo Saul Alves Martins, que viaja no etéreo e de lá vigia o sertão; de arrancar raízes do carapiá e se inebriar em seu perfume recordando o amigo sertanejo Zé Guedes, companheiro de jornadas embrenhando no cerrado; passar por um rancho de palha de buriti, perdido em campos não visitados, e recordar do amigo Domingos Diniz, que tanto cantou, com tanta sensibilidade,  aquele cenário; contemplar filhotes de emas escondendo-se, serelepes, em moitas de capim de ano buscando na memória  Audálio Lisboa, que até escreveu um belo poema com o título de Ema Xandu, ave que vivia no Núcleo do Carinhanha, como amiga dos meninos ali acolhidos;   trotar por uma estrada amaciada por um tapete de areia branca, caminho para as fazendas Cabo Verde e Brejo Verde recordando dos bandeirantes Geraldo Moreira e Geraldo Saldanha, no Brejo Verde e Lourinho e Raimundo Melo, no Cabo Verde, extensões do Núcleo;  no topo da serra da Conceição  deteve-se no socalco até onde chegou a tentativa de abertura de uma estrada para as fazendas Brejo Verde e Cabo Verde, projeto frustrado pela impossibilidade de ultrapassar uma barreira de pedras, lembrando, então, de Zé Maria no comando do trator de esteiras Nordest Vander. Ao descer a rampa, deparou-se com a primeira casa, que fora levantada sobre as ruínas da casa sede de dona Joaquina para abrigar Zezinho Cearense e sua família, contratado para construir um aqueduto (famoso Rego) para captar água do pé da cachoeira do Conceiçãozinho para consumo do Núcleo; perto dali a casa dos Bandeirantes,  transformada em lar para os pequenos internos no Núcleo, e lembrou, então, de Pedro Buchene, Flávio e Jonas, que ali se abrigaram no amplo quarto da frente. Depois,  estendeu o olhar na direção do rio Conceição e do bosque de angicos vindo a lembrança do rancho construído com  palhas de arroz e buriti, depois melhorado com alvenaria e telhas portuguesas, e lá viu o quarto onde morava com o companheiro Chico Bandeirante, o doutor.

    Tudo estava no mesmo com poucas mudanças: uma nova igreja onde foi entronizada a imagem de Nossa Senhora da Conceição, que acompanhava os bandeirantes, não muito longe da ruína da capelinha construída por dona Joaquina para a mesma santa. O espaço da natureza: para o Leste o capão de angicos à margem do rio Conceição; a Oeste a serra da Conceição, imponente; para Norte o córrego Conceiçãozinho que escorre da cachoeira Conceiçãozinho desaguando no rio Conceição – ali tudo é Conceição, muito importante, sinal de fé; para o outro lado a estrada de saída para a fazenda Boa Vista dos Palma, São Romão e Pirapora.  – neste passeio Jovane encontrou outra estrada de saída, em direção contrária. Que cenário!

    Assentado em seu velho ninho, pulcro e feliz, desceu até a praça palco de seus encontros com Chico e Audálio nas noites em torno de uma fogueira – cenário onde, ficticiamente,  ele ouviu as narrativa do velho Zacarias. No crepitar das brasas Chico cantava, com acompanhamento de cavaquinho, belas guarânias, imortalizadas na memória de Jovane. De quando em quando o encontro à beira da fogueira se dava  iluminado pela lua cheia, um belo espetáculo de beleza naquele encantado sertão.

   O que procurava Jovane? O que inquietava seu espírito motivando o retorno às plagas urucuianas? O motivo tinha origem na lenda contada e narrada pelo velho Zacarias? Contudo, de tal como era contado e falado pelos moradores da fazenda e região, estava tudo tão bem dito. Então, o que suscitou ao Jovane revirar a história?

   Ele conta. Partindo da Conceição, por ordem superior, ainda que não quisesse cumpri-la para não deixar o Urucuia, vivendo noutras plagas, decidiu voltar aos estudos escolhendo o Direito, posto que não tinha condições de cursar o que mais condizia com sua vocação, a Agronomia. Sua senda foi outra, a partir daí, trilhando outras veredas, mas sempre fincado raízes no campo da educação. Escreveu muito em jornais, que dirigia – reportagens, crônicas e poesias, estas em grane quantidade. O amigo poeta Fernando Rubinger insistiu para que ele publicasse um livro com seus poemas. Depois de muito relutar, ele publicou seu primeiro livro: O Homem e suas tempestades. Contudo não tirava o Urucuia do pensamento, carregando-o com profundo sentimento de saudade, e isto o levou a escrever um livro de memórias:  “A saga de um urucuiano”, que teve enorme repercussão, especialmente na apreciação do mestre Saul Martins, que o prefaciou, e dr. Oscar Caetano Jr., que fez brilhante comentário sobre ele. Os dois livros motivaram o amigo e incentivador Domingos Diniz a cobrar a criação de um romance. Relutou o quanto pode, mas acabou cedendo. E o tema? Não tinha nada às mãos. Foi então que voltou ao Urucuia e se viu, de novo, à beira da fogueira com Chico e Audálio assando úbere de vaca,  ouvindo as narrativas do velho Zacarias a respeito de dona Joaquina. Seria o tema do romance... e assim foi. Saiu o livro: “Joaquina – uma lenda urucuiana – Narrativa do velho Zacarias a um jovem bandeirante”. O romance, com a ajuda do amigo Dirceu Lelis na recapitulação geográfica e valiosas sugestões de seu filho Ricardo, ficou excelente, muito bem recebido.

   Eis que, com o livro pronto, chegou às suas mãos uma carta enviada por um descendente de dona Joaquina contando a história com outro enredo. Jovane lembrou, então, que baseara o seu romance apenas na narrativa do velho Zacarias, ouvira apenas um lado, corroborado, ainda, pelo livro “A ermida do planalto” do januarense Manoel Ambrósio, na mesma linha, isto é, apenas uma versão do contado na fazenda Conceição. Lembrou Jovane de um dos ensinamentos do curso de Direito, a do contraditório, isto é, não é legal o julgamento baseado apenas numa versão dos fatos. A constatação o preocupou. Dor de cabeça. Injustiça. Sem dúvida perturbador atendo-se à carta do parente distante de dona Joaquina,  que dizia:

    “Prezado Irmão e amigo JOÃO NAVES DE MELO, li o seu livro “A saga de um urucuiano” quando da minha ida ao projeto Bauxita de Paragominas no estado do Pará, motivo pelo qual demorei em dar resposta. Estou trabalhando neste projeto (fico uns tempos lá e outros aqui. A leitura me agradou bastante pelos seguintes motivos:

    Inicialmente pelo idealismo e coragem em tomar a frente tamanho  empreendimento e o qual deve ser orgulho pelos frutos obtidos.

    Trata-se de um relato muito bem escrito e ordenado, de como estava as coisas em um passado não tanto remoto assim. Como eram difíceis aqueles dias e como era atrasado o nosso Brasil!

    Lembro dos comentários da ida de meu avô materno, Cassimiro Joviano de Abreu juntamente como o meu tio Sigefredo de Matos Abreu para matricular uma criança abandonada em casa de uma das minhas tristes e batizadas pelo nome de César da Ressureição (data em que foi abandonado), isto nos idos de 1950. Foi para conhecer e conferir se realmente poderia ser de escola para o César esta recém-fundada Escola Caio Martins, Pelas ligações que tinha com a região este meu avô tinha ouvido falar muito bem da mesma. Ele achou, na ocasião da viagem, que as instalações ainda eram precárias, motivo pelo qual não o matriculou. Hoje, ao ler o livro creio que ele errou ao tentar proteger o César impedindo este de passar por esta instituição educacional e optando por criar com todos os carinhos de um “avô”, fazendo todas as vontades, etc. Moral da história: esta pessoa apesar de ótima índole vive hoje como empregado de uma fazenda de um parente sem ter dado coisa melhor. A vida, meu irmão, é feita de momentos!

    Para conhecer algum relato sobre a fazenda da Conceição, que pertenceu a meus antepassados, a D. Joaquina e o Major Raphael.

  Passemos agora aos comentários, centrado principalmente sobre este desditoso casal. Você irá conhecer a versão dos vencidos e não dos vencedores conforme descrito no livro “A ermida do planalto” de Manoel Ambrósio o qual já conheci. Este livro baseia-se em informações orais, que circulava no ambiente urucuiano e afins. Segundo minha avó, D. Florinda Matos, esta calúnia ela afirmava que muita coisa  que constava no livro é mentira) foi mandada escrever, ou suja versão foi mandada circular, pelo Dr. Francisco adjunto pai da vítima Inácio Adjunto, genro de D. Joaquina. O ressentimento entre as famílias persistiu, como você percebe...

    Segundo versão contada pelos meus familiares antigos (todos falecidos), o que aconteceu foi o seguinte:

    O Inácio era casado com a Florinda (filha de D. Joaquina e do Major Raphael) e irmã de Rosa, casada com Manoel Luiz da Silveira. Tinham duas filhas Idalina é Gertrudes. Pouco após o nascimento de Gertrudes o Inácio arranjou uma amante em S. Romão (uma artista de circo)com quem pretendia casar. Tramou, então, o assassinato de sua esposa simulando um acidente. Por conhecer o gênio da sogra e temendo represálias, fugiu logo após a morte da esposa para terras de seu pai, situadas em Paracatu e onde este era fazendeiro abastado possuindo muita influência na região. Enquanto viveu sobre a proteção do pai nada lhe aconteceu. Passados sete anos resolveu rever as suas terras no Urucuia sem saber, no entanto, que a velha havia colocado espiões para seguir os seus passos avisado da intenção de voltar às suas propriedades para ver coo as coisas estavam sendo geridas por alguns de sua confiança (já que não pretendia viver no local por temer D. Joaquina) esta armou uma tocaia que o surpreendeu em suas terras. Ele foi assassinado dentro de sua propriedade. A este assassinato seguiram-se três julgamentos sendo que no último, o casal, formado por Major Raphael e D. Joaquina, foi condenado a oito anos de prisão, pena cumprida na cadeia de São Romão, construída pelo Coronel Pedro Gonçalves de Abreu (também um dos meus antepassados) conforme consta do livro “S. Francisco nos caminhos da história” de autoria de Brasiliano Braz.

    Diante da situação, bastante complicada da família na região e, temendo represálias, Manoel Luiz da Silveira vendeu todos os bem da família mudando para o distrito de Tomás Gonzaga, município de Curvelo, adquirindo fazendas na região.  Após cumprirem a pena imposta pelo assassinato do genro, este casal também mudou para Tomás Gonzaga onde terminaram seus dias, amparados pelo genro e sua esposa Rosa, uma vez que já não possuíam bens de valor.

    Quanto ao gênio de D. Joaquina as informações que possuo, também passadas pelos meus antepassados e por observação de meus familiares maternos, era o seguinte:

    Era uma pessoa intransigente, do tipo matrona, que achava que as sua forma de pensar era a correta e que todos deveriam viver de acordo com esta regra. O seu mundo particular deveria girar em torno de sua pessoa e de acordo com seus pensamento, não aceitando discórdia. Era muito religiosa e não constava nada a cerca de sua moral. Quanto esta versão de que matava as pessoas com quem fazia negócios para recuperar o dinheiro, não consta de nenhum registro familiar. Era uma pessoa dura, com certeza, irascível, etc, mas não uma assassina contumaz. Era uma mulher muito rica e consta que em sua fazenda existiam cachos de uva em ouro puro usados na decoração da casa. Ela não possuía influência política pelo fato do marido não ter presença marcante, o que foi fatal quando da ocorrência do processo criminal.

    Dona Joaquina não tinha parentesco algum com a D. Joaquina do Pompeu (que nasceu em 1750 em Pitangui), a qual era antepassada do Inácio Garcia Adjunto, o genro assassinado. A dona Joaquina do Pompeu também tinha fama de ser perversa, mas hoje sabe-se que tal fato não procede (ver o livro de Agripina Vasconcelos sobre esta mulher) bem como o livro de  Jacinto Guimarães sobre a descendência dela.

    A ermida que ela mandou construir possuía oratório com a imagem de Nosso senhor do Bonfim, cujas lágrimas de Cristo são de rubi, e que se encontra na casa de uma prima minha, em Belo Horizonte. Quanto ao Major Raphael este homem era de boa índole, conciliador, afável e dominado pela mulher, sem nenhuma voz ativa.

    Agora relatarei algumas informações sobre a fazenda Conceição conforme busca que realizei no Arquivo Público Mineiro nos idos de 1980, quando elaborei a árvore genealógica de minha família.

     Presumo que este seja o registro da fazenda pois, o fatos ocorreram por volta desta época, quando então, a fazenda era ocupada pela D. Joaquina e pelo major Raphael. Acredito que foi por volta dos anos sessenta que a Florinda foi assassinada (ela nasceu em 1835). Isto porque sua filha Idalina nasceu em 1857 e a outra filha Gertrudes nasceu um ou dois anos depois. Neste arquivo consta o seguinte:

  “O abaixo-assinado faz ver que possui uma fazenda neste município da Vila de São Romão consignada Fazenda da Conceição que extrema com outra que possui no município de Paracatu, que parte pelo riacho das Lages acima as suas cabeceiras e cortando rumo  direto ao Norte águas vertentes e cabeceira da Ponte pequena e por ela abaixo ao ribeirão da Conceição cujas houve por compra ao finado Antonio José da Cunha vila de São Romão 18 de junho de 1855 – Raphael Joaquim de Macêdo. Foi me a presente declaração  apresentada aos 19 de junho de 1855 – vigário Raymundo Carlos de Oliveira e Sá.  Recebi do declarante mil e setenta e seis reis – Oliveira e Sá. Era o que continha em a dita declaração e notas que aqui registrei fielmente sem cousa de dúvida faça a insistência do declarante visto não satisfazer a declaração ao disposto no artigo cem da lei seiscentos e um de 18 de setembro de 1852 em obediência ao artigo 102 da referida lei. Eu Raymundo Carlos de Oliveira Sá vigário o escrevi”.

     Vou agora apresentar a você alguns personagens desta história, ou seja, seus descendentes. Informo que descendo, por parte de minha mãe, tanto de uma das filhas do casal Rosa e Manoel Luiz da Silveira (pais de Leopoldina Joaquim da Silveira que era esposa de  Cassimiro Pereira de Abreu) e de Idalina Garcia Adjunto (filha de Inácio Garcia Adjunto e da infeliz Florinda) pois, os meus avós eram primos (Cassemiro Joviano de Abreu e Florinda de Matos).

    As fotos cuja cópia enviarei por correio por ocuparem muito espaço para serem enviadas via arquivo eletrônico mostram:    

    Cassimiro Pereira de Abreu (fazendeiro da região do Urucuia) e sua esposa Leopoldina Joaquina da Silveira sendo ele filho do coronel Pedro Gonçalves de Abreu e ela filha de Luiz da Silveira e Rosa (filha do Major Raphael e de D. Joaquina). São os pais de meu avô Cassimiro Jovino de Abreu.    

     Manoel Luiz Silveira, Rosa e sua filha Querubina (que morreu em idade avançada e solteira). Idalina Garcia Adjunto, filha do casal Inácio Garcia Adjunto e Florinda (irmã de Rosa e filha de D. Joaquina e Majo e Raphael). Florinda de Matos, minha avó quando nova e esposa de Cassimiro de Abreu.

    Após nosso contato telefônico em 25.12.04 aguardo ansiosamente uma cópia do processo criminal (tire um xerox e envie por correio ou através de Jandira/Dr. Francisco e mande a conta para mim) bem como uma assinatura do jornal “O Barranqueiro”. Qualquer esclarecimento adicional, fotos, etc. basta você marcar um encontro em BH ou em São Francisco (é necessário agendar diante das minhas viagens ao Pará) que terei o maior prazer em colaborar. Quanto ao livro que estão escrevendo gostaria de receber uma cópia do mesmo e, caso queiram, fornecer alguma informação que julgarem necessária.

    Desejando ao Irmão um feliz ano novo extensivo a toda sua família, dou meu, TFA”.

    Finalizando a leitura da carta, Jovane foi remetido àquele tempo, final do século XIX  buscando entender como era a vida naquele sertão inóspito naquela época: as famílias, a cultura, os costumes, as relações sociais, a autoridade e a vida ao arrepio da lei. Sem elementos básicos, valeu-se de dados da  antropologia no sentido lato sensu. Tomou com base a  década de 1950 quando foi instalado um Núcleo da Escola Caio Martins nas ruínas da fazenda Conceição. Tendo como parâmetro a vida social dos moradores da fazenda Conceição e região conheceu como eles viviam em uma sociedade isolada, sem nenhuma assistência governamental, sem estradas, escolas, apoio à saúde e quaisquer dos benefícios disponíveis no meio urbano. Tudo era novidade para eles que, na sua grande maioria jamais fora a uma cidade. Viviam mergulhados no império das crendices, das lendas, dos mitos, do curandeirismo, naufragados na ignorância e de raro contato com pessoas de fora. Assim, o mundo que povoava a sua mente era de ampla escuridão, tudo aceitando no sobrenatural, como natural por não ter contraponto.

 

QUESTIONAMENTOS DE JOVANE

 Na sua aflição, Jovane mergulhou em fatos históricos, na antiguidade para melhor compreender a humanidade, como se comportavam os homens dominados pelo misticismo: deuses do Olimpo, bruxas, duendes,  gigantes, sereias encantadas, fadas e por aí afora. Se era propalada  a história da mula sem cabeça, o poder do famaliá, os assombrações, crenças enraizadas, porque não acreditar no poste encantado que corria pelos campos badalando um sino; no homem que virava cupim (facínora Perneta que infernizou aquelas bandas)....

Jovane lembrou-se que dona Joaquina era conhecida no Urucuia como Joaquina de Pompéu, uma confusão desfeita por informação do mestre Saul Martins. Só esta confusão já é motivo para justificar o temor dos moradores locais no enfrentamento com dona Joaquina. Então, quem foi Joaquina de Pompéu?

Uma mulher extraordinária, nascida em Pitangui em 1750, construindo um verdadeiro império. Ela tornou-se uma figura lendária de Minas Gerais. Foi foi uma das mulheres mais influentes e poderosas do século XVIII e XIX, estando entre as poucas personalidades femininas a participarem do processo de Independência do Brasil. Foi uma mulher à frente do seu tempo e nas localidades onde exerceu a sua soberania, ficou conhecida como Baronesa do gadoMatriarca do Oeste MineiroSinhá BrabaDama do Sertão dentre outros títulos populares, presentes na cultura oral e na literatura. Fatos reais de sua vida misturam-se a contos populares e suscitando uma imagem controversa. Tinha ela a simpatia de Vossa Alteza Dom João de Bragança, que socorreu em diversas ocasiões com gado e dinheiro. Assimn, qualquer pedido que fizesse ao príncipe regente era atendido imediatamente. De acordo com Agripa Vasconcelos, tamanha era a sua influência, que obteve do rei Carta Branca. Isto dava a ela total liberdade de ação, sendo imune à censura, processo e prisões.

Seu poder pode, ainda, ser medido pelo patrimônio que deixou com a sua morte: 11 fazendas, 40 mil cabeças de gado, centenas de escravos, baixelas de prata, bandejas, barras de ouro e outros tesouros. Além de uma imensa área territorial de 48 400 km2 que hoje abrange os municípios de Abaeté, Dores do Indaiá, Bom Despacho, Pitangui, Pompéu, Pequi, Papagaios, Maravilhas, Martinhos Campos, Riachinho e Urucuia. Segundo Vasconcelos as áreas somadas eram maiores do que a Bélgica, Suíça, Holanda, Dinamarca e El Salvador. Sua fortuna hoje seria de aproximadamente 2 bilhões de reais.

O império de dona Joaquina do Urucuia, conquanto muito menor que o de dona Joaquina do Pompéu, era de uma considerável e respeitável extensão. Segundo se vê no Livro de registro das declarações e terras possuídas dentro dos limites de Freguesia da Vila Risonha de São Romão – São Romão (Santo Antônio da Manga, 1855/1855,  consta as declarações do Major Raphael Joaquim de Macêdo, esposo de dona Joaquina: “o abaixo assinado faz ver que possui uma fazenda neste município de Vila de São Romão consignada Fazenda Conceição que extrema com outra que possui no município da cidade de Paracatu...(g.n.)

Considere, atualmente, qual era a extensão territorial  da fazenda Conceição (NCVU- Caio Martins) tendo em vista a direção de sua sede ao município de Paracatu que passa pelos municípios de Riachinho, Bonfinópolis e Dom Bosco. Nas declarações não está consignada a área ocupada em cada município, mas tem-se uma ideia que seja uma faixa, no mínimo, e isto demonstra a extensão da fazenda Conceição. Na instalação do NCVU foi dito que as terras de dona Joaquina englobavam as Fazendas São João, Boqueirão e Rodeio, que ocupavam uma área do atual município de  Riachinho indo às margens do rio Urucuia, divisa com o município de Urucuia.

Distinção dos nomes: a de Pompéu –  Dona Joaquina Bernarda da Silva de Abreu Castelo Branco Souto Mayor de Oliveira Campos. Ela nasceu em 1752 e morreu em 1824. A do Urucuia: dona Joaquina Pereira da Mota. Ela  nasceu por  volta de 1840 (data incerta).

Não estão muito distantes  os períodos de vida e reino das  duas Joaquinas na região Paracatu/Urucuia. Há alguma semelhança entre as duas, apesar da distância de épocas, mas não tão longe assim numa época que o calendário era mais medido pela passagem da lua. Outro fato possível da confusão: as terras de dona Joaquina do Urucuia penetravam no território que, outrora fora de dona Joaquina de Pompéu. E mais: nas terras da fazenda Conceição existiam muitos moradores oriundos da região de Pompéu, os conhecidos pompeanos. Assim, por tradição, é possível que se consagrou a fama do nome JOAQUINA não individualizando qual. Não é impossível entender a situação se voltarmos no tempo, séculos e séculos. Veremos que os mitos gregos surgiram quando ainda não havia escrita, eram preservados pela tradição e transmitidos oralmente pelos aedos e rapsodos, cantores ambulantes. No nosso caso, passando de pai para filhos criou-se o mito JOAQUINA.  Segundo as filósofas Maria Lúcia e Aruda Aranha e Maria Helena Pires Martins no livro Filosofando, “Mito não é lenda, mas verdade, Tem a função de acomodar e tranquilizar o ser humano em seu mundo assustador. A experiência individual não se separa da experiência da comunidade, Consciência mítica – preponderância do coletivo. O Mito não resulta do delírio nem se reduz a simples mentira, mas faz parte do nosso cotidiano, como uma forma indispensável do existir humano”.

            Uma observação interessante fez Domingos Sales, urucuiano, ali da região do Núcleo, fazenda Santa Rita. No livro Fulanos e Sicranos, ele escreveu, abordando a fazenda Conceição: “No dizer de um filósofo de “talk show” de televisão, o mito é a consubstanciação do inexistente, criando-se a possibilidade da realização do irrealizável. De fato, a população admira muito as pessoas de maiores posses e poderes, alçando-as à categoria de mitos, justamente por serem capazes de incrementar certos projetos que aos menos afortunados, se apresentam como impossíveis, pela falta de recursos. Na fazenda da Conceição, ao pé da serra e às margens do ribeirão do mesmo nome, a fazendeira Dona Joaquina Pereira da Mota era uma pessoa que passou à história regional com essa fama. A disparidade de suas posses com a plebe da redondeza era tal que se lhe tem atribuído atos que nunca poderia ter realizado, embora fosse protagonista de alguns feitos fora do normal” (g.n.).

 O urucuiano (Conceição) de então tinha o senso comum, o conhecimento adquiridos por tradição, herdados dos antepassados e ao qual acrescentavam os resultados da experiência vivida na sua  comunidade. Não chegava ao bom senso, pois não atingia a elaboração coerente do saber e como explicitação das intervenções conscientes dos indivíduos livres.  Não teria como adquiri-lo na vida quase isolada do mundo em que vivia. Estulto ele não é, por isso aceita o fato comum como verdadeiro.

        Um dado que pode servir como liame entre as duas Joaquinas: o genro dela Inácio Garcia Adjunto era antepassado de Joaquina do Pompéu.

            Assim, no sentido amplo foi o que encontrou Jovane ao conhecer a lenda de dona Joaquina tendo como fio para a compreensão das narrativas, o escrito por Manoel Ambrósio. Contudo não chegou a um questionamento, aceitando-a como uma única verdade. O povo local e Manoel Ambrósio não ofereceram outra versão. Tendo-a como definitiva, ele escreveu o seu romance “Joaquina – uma lenda urucuiana”. Um tanto melhor que ele não escreveu um fato histórico, pois elementos para tal não encontraria,  além do romance do livro de Manoel Ambrósio, também mais focado na lenda. Existia, de escrito, apenas o processo criminal do julgamento de dona Joaquina em São Romão. Esse processo foi arquivado na Comarca de São Franciscol. Um historiador de São Francisco foi informado que o juiz da Comarca determinara a incinenaração de processos há muitos anos arquivados no Fórum. Ele, então, obteve autorização para separar e apoderar-e, para arquivo público municipal, processos que lhe interessassem entre os descartados. Ele, entre vários processos encontrou o do julgamento de dona Joaquina.  Um descendente (o da carta) de dona Joaquina, sabedor do fato, pediu ao Jovane que fizesse cópias do processo para ele. Solicitado, o historiador negou ceder o processo para aquele fim, alegando que o uso só poderia ser feito pelo arquivo público municipal, isto é, impôs uma exclusividade do deveria ser público. Uma pena, pois depois  de sua morte, apesar de exaustiva buscas, o Jovane, chegou à triste informação: o processo desaparecera. 


 COMO ERA CONCEIÇÃO NO TEMPO DE DONA JOAQUINA

 

    Restou ao Jovane, de maneira singular, ainda sem dados de confirmação,  fazer parte do resgate da história de dona Joaquina do Urucuia.  O seu livro foi publicado contando-se a lenda, tal como conhecida na fazenda Conceição e em São Romão, às vezes com pinturas diferentes, mas com a mesma raiz destacando o caráter de dona Joaquina.

    O Urucuia (Conceição) àquele tempo era um mundo esquecido, absconso nas trevas do isolamento. Assim, o que era dito e aceito pela coletividade se transformava em uma verdade, uma lenda, que é o que se conta. Deu, então, na lenda urucuiana a história de Joaquina. Jovane, com este resgate, não desmente a narrativa anterior, posto que baseada numa lenda, que é o que se conta, mas busca a estabelecer uma linha paralela para justificar, em parte o que se fala e conta de dona Joaquina, deixando evidente que mais se trata de um mito que, verdadeiramente uma história.

    Basta criar um fato inusitado para dar curso a uma história. E são tantos os casos de assombrações, as livusias que contava o Vicente nos saraus em seu rancho assistindo  o nascer da lua cheia no fundo do capão de angicos na beira do rio Conceição. Chamava atenção, também, em toda a região, o poder dos rezadores e dos curandeiros. Famosa era lenda do “Poste badalando sino no escuro da noite”. Assustava os moradores da fazenda e até gente esclarecida, conforme a ocasião. Foi o que aconteceu com Jovane, que  assustado por se encontrar sozinho à noite, na beira da fogueira, ali deixando dormindo pelos companheiros, ao ouvir o badalar  repercutido de um badalo sentiu um frio na espinha, lembrando  da história do misterioso poste que batia sino à noite nos pátios da fazenda, como contavam os moradores da fazenda dizendo ser o espírito de dona Joaquina vagando em suas plagas. Percebendo que estava só, cobriu a cabeça com uma capa. Ali ficou inerte até que, de repente e silenciosamente, alguém chegou e cutucou sua perna. De um pulo ele se colocou de pé, assustado, preparando para correr quando ouviu a voz humana indagando “que foi, seu moço, é eu, o Tonho da Olaria?”. Jovane quedou-se sentado e não disse nada, não quis render a conversa do poste, mas perguntou ao chegante: “que sino é este que está batendo por aí?” Seu interlocutor respondeu: “num é nada não, seu moço, é o burro do seu Carlim, que só anda com o sincero dispendurado no pescoço pra mode ele achá ele de manhã”.  É factível ter outro desfecho fosse um supersticioso morador local naquele episódio, haveria dizer que ouvira passar de perto o poste com o sino badalando., lembrando as lendas antigas da fazenda de dona Joaquina.

Muito mais Jovane teria que revirar para escrever este resgate, mas entendeu que não avançaria muito se restringisse aos depoimentos dos moradores locais – a história, sem dúvida, se repetiria. Quem sabe, um dia, se encontrar o processo criminal perdido sabe-se lá onde, pois o historiador encantou-se, possa ele acender uma luz com alguns esclarecimentos verídicos.

 

 PASSEIO NO CORREDOR DA TOCAIA

Jovane voltou ao cume da serra da Conceição. Poucos metros depois de passar pelo socalco que quebrava a inclinação da ladeira, ele deparou-se com o corredor de pedras conhecido na região como Corredor da Tocaia, suposto local onde os jagunços de dona Joaquina praticavam seus atos criminosos abatendo comerciantes de gado. Um local deveras sinistro, não só pela lembrança de tantos fatos narrados, mas o aspecto soturno do beco espremido entre duas imensas pedras, que não se sabe como foram dispostas separadas longitudiamente por mais de 10 metros. Um paredão de mais de três metros de altura, tendo as paredes lisas, como que talhadas. Impressionante. Ocorreu-lhe, então, o meio de explicar a fama daquele ponto sinistro e amendrotador. Lembrou-se de casos de ranchos assombrados, esquecidos às beiras de estradas, que ninguém ousava visitar. Taperas deixada por algum morador que resolvera partir na arribação.,  Tão poucos os habitantes na região acabavam eles abandonados. Com o tempo ganhavam o aspecto sinistro, amendrontador, porque comum era o homem sertanejo ver coisas onde coisas não existiam. No sertão, mais que em outros lugares, a superstição, o receio do desconhecido, as histórias de assombrações são factíveis de escrever histórias. Jovane recordou, então, do conto de Afonso Arinos no livro “Pelo Sertão”, “O Assombramento”. Que terrível foi a luta do arrieiro Manoel, chefe da tropa, com o desconhecido. E conta que: “À beira do caminho das tropas, num taboleiro grande, onde cresciam a canela de ema e o pau santo, havia uma tapera. A velha casa assombrada, com grande escadaria de pedra levando ao alpendre não parecia descampada...”. A aventura do tropeiro  Manuel Alves nela passando uma noite foi de arrepiar deixando-o, no raiar da manhã, em estado catatônico repetindo, quase a balbuciar: “eu mato.. eu mato”, referindo-se aos assombrações que enfrentou em renhida luta, contra o nada, durante a noite até se prostrar desmaiado e ensanguentado de tanto lutar e atacar o nada. E não faltou o pote de ouro, muito comum nas histórias de assombrações, disto lembrava Jovane das histórias contadas por sua mãe Júlia pondo-o a dormir.

 

O PERNETA

Outro acontecimento que remete Jovane ao campo do absurdo foi a passagem do celerado Perneta pela fazenda Conceição. Ele ainda estava no Núcleo quando lá chegou a notícia que  um bando de salteadores de propriedades estava atuando na região sob o comando de um bandido que respondia pelo nome de Perneta, certamente por ter um defeito físico em uma das pernas. Segundo era narrado na região, o defeito não diminuia em nada a ferocidade dele que roubava e matava quem obstasse as suas investidas. Mais do que a notícia foi a presença de um delegado Polícia no Núcleo, com um grupo de policiais requerendo alguns animais para compor a sua tropa já cansada de tantas incursões atrás do bandido e seu bando na região.  Recebeu apoio e partiu ao encalço deles lá pelas bandas da serra do Constantino indo para o rumo de Vargem da Galinha e Confins.

Dias depois o delegado retornou ao Núcleo devolvendo os animais dando como termo a caçada do bando. Indagado a respeito ele disse que abateu todo o bando, que resistiua prisão, menos o Perneta. Fizeram o cerco deles com o Perneta comandando, isto foi visto. No final do entrevero, cadê o Perneta? Sumiu misteriosamente. Aí, um matuto ouvindo a história deu seu veredicto: “ué! ele virou cupim”. Corria a lenda na região que o Perneta quando sitiado se transformava em cupim. Como ninguém dava importância ao contado, nenhum cupim era desmanchado. Lenda ou não, o Perneta virava cupim segundo os moradores da região.

 CORPO FECHADO

As lendas, que poderiam parecer, como de fato parecem, um absurdo, eram muito comum na região. Outra delas era a do “Coro fechado”, o homem que sabia de rezas que o protegia de qualquer tipo de ferimento,  tiro ou facada, ele tinha o corpo fechado.

Jovane lembrou de um julgamento ocorrido em São Francisco em que o advogado de defesa, na impossibilidade de livrar seu constituinte apenas com base nos fatos reais, apelou para a crendice do corpo fechado. Induziu o júri, com o testemunho de algumas pessoas, que o réu (dono de um boteco na zona rural) fora atacado pela vítima que portava uma faca. Queria porque queria atacá-lo alegando ter sido por ele vilipediado. O dono do boteco, réu, tirou uma garrucha da gaveta e apontou para ele. Não adiantou. Berrando alto que tinha o corpo fechado, avançou sobre o vendeiro e a ele  não restou outra alternativa do que atirar. Resultado, o corpo fechado, no caso, era falácia e o agressor morreu na hora atingido pelo tiro. O júri aceitou a tese. É que o júri  é formado por pessoas do povo, e aí...

 

 CRENÇAS ARRAIGADAS

 

Jovane lembrou, ainda, de outros casos na abordagem da crença popular tão comum aos moradores da fazenda,  que a pessoas  esclarecidas poderiam ser tomados como um absurdo, ignorância,  mas que para as pessoas mais simples, sem cultura, sem maior contato com os meios urbanos, sem escolaridade, e sobre tudo pela tradição, pelo empirismo, eram fatos incontestáveis. Lembrou então de tantos procedimentos que eram práxis na vida da população ainda em tempo mais recente, na Conceição.

REZADOR

Jovane teve prova inconteste da ação de um rezador. Conhecido na Conceição e, depois, em São Francisco, o Vicente Barbosa, que curava bicheiras de animais com  reza, e mais, curava até mesmo pelo rastro do animal infestado. Jovane não encontrou explicação para o fato, apenas a constatação da cura. Da mesma forma tinha o Vicente rezas para afastar cobras e até mesmo curar a pessoa ofendida por uma venenosa. Fato: onde morava Vicente era raro encontrar uma cobra.

Não menos interessantes são os casos das benzeções para quase todo tipo de doença:

ESPINHELA CAÍDA: também conhecida por lumbago, designação popular de uma doença caracterizada por forte dor no peito, nas costas e pernas, além de um cansaço anormal que acomete o indivíduo, ao submeter-se a esforço físico;

QUEBRANTO: suposta influência maléfica de feitiço, por encantamento a distância; dada que o olhar de algumas pessoas produzem em outras;

RESPONSO: reza para encontrar coisas perdidas. Por comum, a oração mais empregada invocava  Ó beato Santo Antônio, que ao monte Sinai subiste, o teu Santo Breviário perdeste, em busca dele volveste muito triste e uma voz do céu ouviste:  Antônio, torna atrás, o teu santo Breviário acharás em cima dele Jesus Cristo vivo, três coisas lhe pedirás: O perdido achado, o esquecido lembrado e o vivo guardado. Os resultados surpreendentes não espantavam os crentes, apenas confirmavam a sua fé".

DOR DE CABEÇA E OUTROS MALES. Jovane viu, por diversas vezes, a ação de uma benzedeira utilizando ramo de arruda: viu murchar, durante a benzeção o galho de arruda e  a pessoa benzida dizer-se curada. Não buscou explicação, pois não a teria. Não está explícito na bíblia, palavra de Jesus que  “a fé remove montanha – Mt 17:20?”

Pessoas tantos, conforme o seu meio, acredita piamente no que lhe contado ou passado por seus antepasados. Acreditam simplesmente por acreditar sem qualquer interesse ou necessidade de buscar qualquer explicação. Pelo contrário, rejeitam qualquer explicação em contrário.

 

DESPACHOS EM  ENCRUZILHADA

Encruzilhada ou encruza (o cruzamento de ruas de uma cidade ou em estradas), é um lugar onde são feitas oferendas a Exu e Pomba gira. Estas oferendas têm as mais variadas funções, como proteção, prosperidade, descarrego, entre outras. A encruzilhada aparece ainda, em uma ocorrência então muito comum no sertão: onde aquele que conseguisse um ovo de galo o colocaria debaixo do braço para obter, depois de quarenta dias, o famaliá (pequeno demônio que prendia em uma garrafa e que lhe atendia toda forma de pedidos, principalmente o amelhamento de riqueza mediante um pacto: entregar-lhe, depois de morto, a alma.

 

PROMESSA NÃO CUMPRIDA

“Eu devo um galo a Asclepius. Peço-lhe que pague por mim”. Foi o pedido de Sócrates aos seus amigos antes de beber a cicuta que o levaria à morte. Ele não queria ir para outra banda da vida sem pagar promessas feitas e esquecidas.

Jovane recebera de um descendente de dona Joaquina do Urucuia uma cópia do processo a que ela respondera na comarca de São Romão, que fora encontrado por um historiador de São Francisco no fórum da Comarca local. Conhecendo o fato e sendo amigo do historiador prometeu fazer a cópia. Debalde o peditório – o historiador negou o pedido. Jovane, por outro lado, não deu uma solução ao caso, sempre na esperança de poder encontrar o processo nos arquivos da entidade a que fora destinado (?). Nada. Infrutíferas foram as buscas. A situação tornou-se mais grave ainda com o falecimento do historiador. Perdera-se o fio de Ariadne. Pior foi a inércia de Jovane no deslanche do caso não levando uma resposta ao parente de dona Joaquina. Na verdade, não foi de tanto omisso ou indelicado, pois acreditava que ainda encontraria o bendito processo. O tempo passou e nada. Nada.

Mais complicada ficou a situação com a publicação do romance “Joaquina – uma lenda Urucuiana”, cuja composição já se encontrava pronta e encaminhada ao prelo pela mãos do amigo Dirceu Lelis. E assim foi.

Em certo dia um temporal, como dos poucos precipitados em São Francisco,  provocou uma inundação no escritório de Jovane,  causado por avaria no telhado, não previsto. Os documentos arquivados em uma prateleira foram literalmente ensopados, de escorrer água. Na recuperação de documentos, Jovane deu com as vistas na carta do descendente de dona Joaquina e, ao relê-la viu o recado final: o pedido de cópias do processo do julgamento dela. Lembrou, ainda, que não dera uma solução ao pedido. Aborreceu-se com o fato  posto ter decorrido um lapso de tempo considerável e, com isso, julgou que seria tarde para voltar ao assunto com o amigo.

Penitenciou-se, então, da única maneira que julgou conveniente: rever os fatos que o levaram a escrever o romance “Joaquina – uma lenda urucuiana” e, diante da carta do amigo, buscar fazer um contraponto entre as duas versões. O por que apenas os fatos ligados à lenda passaram para a história? Por que não se cogitou buscar entender a situação social da época? Assim, decidiu escrever este texto. Sabe que não mudara o que foi escrito no romance, posto que divulgado ainda que como uma lenda. Contudo, procurou demonstrar que é possível encontrar explicações para a vida, o comportamento e a fama de perversa atribuída à dona Joaquina. Estabelecendo um paralelo entre as duas Joaquinas, o seu tempo, a sua influência e o mundo em que vivia, é factível de entender e até aceitar que houve exagero, e muito, na lenda de dona Joaquina do Urucuia.

Jovane virou a página encerrando seu questionamento, fechou a história, não mais uma lenda.

Restou, então, para os futuros pesquisadores – se a alguns aprouver – afinal, quem mesmo foi dona Joaquina Pereira Mota?







 

sábado, 22 de outubro de 2022

 


DE VOLTA AO SERTÃO URUCUIANO

João Naves de Melo

 

            Domingos Diniz, meu  grande amigo, tal qual um irmão, prefaciando o livro Do Cerrado às barrancas do Rio São Francisco, de minha autoria, numa descrição fidedigna e generosa, descortinou toda minha intenção e o modo de fazer o livro. Leio-a, de quando em quando, e me emociono sentindo o quanto valorizado ficou o livro, revivendo minhas caminhadas. Isso foi por volta de 2001. Vinte e um anos decorridos e neste caminhar perdi, aqui na terra/sertão, o meu grande amigo Domingos Diniz. Disse do seu encantamento aqui na terra, temporada material, pois noutro plano, em espírito, navego com ele em nossas jornadas sertanejas, bebericando a fresca água das veredas impregnados pelo perfume das caraibinhas. Então, relendo – mais uma vez – o poético prefácio do dito livro, vontade senti – e por necessidade – de voltar ao meu querido sertão urucuiano e, em letras, materializar minhas lembranças, tantas ainda guardadas e que não foram parte do livro publicado ou em parte.

            Volto ao Urucuia em aprazível passeio.  Pelo que lá vivi, a descrição será dividida em dois cenários: os Gerais e o Vão. São dois espaços distintos, embora na mesma região. Distintos considerando os elementos físicos, biológicos e humanos, e suas relações com o meio. Tenho como ponto de registro rever a relação do homem com aquele universo tão próprio, e as  condições climáticas e as características do espaço geográfico.

 

 

I - OS GERAIS

            O que me guarda a lembrança dos gerais pelos anos que passei embrenhado neles, quase sempre no pelo de um burro? As veredas; a flora tão característica; a fauna muito especial; a habitação, o clima e o homem. Viajo ao céu aberto, profundo, de poder mergulhar os olhos no etéreo, nos rastros de luzes, pinceladas mágicas do Criador, sentindo a sua magnificência: eu e o Universo.

 

 II - REENCONTRO A VEREDA

            Deixando a estrada que serpenteia o cerrado com suas tortas árvores deparo-me com a vereda. A primeira visão é a do campo limpo com a grama rasteira bordada de flores tantas e capim com pontas tal qual agulha indo mais alto. Na entrada do campo, o canteiro de ciganinhas de vermelho brilhante visitadas por abelhas em processo de libação de néctar. Um quase imperceptível chuá anuncia o fluxo de água, que brota  de locas seculares guardada no caixão propiciado pela depressão no cerrado, fonte de tantos ribeirões. Um filete descobre-se à luz, quase nada de se perceber além do anúncio. Borbulha na ânsia de respirar. Escorrega e, antes de alcançar o limo anelando as raízes das palmeiras, de outras veias é incorporado com a bênção dos gerais. Forte que fica,  desliza com mais força e, assim, vai colocando a  bailar as verdes algas, bacilos azotados, fiapos só,  tecendo um tapete. Filhotes de palmeiras balançam tenros leques saudando a vida num bailado, de toa, querendo a altura de beijar o céu. A cristalina água deixa a fonte, suavemente escorrendo em leve decaída de quase não se perceber, sem pressa. Ganhando força, de mais forte parecer, banha os troncos dos buritis que se alongam em fila. É uma linha de corpo denso, verde carregado. Palmeiras – as majestades –, árvores companheiras seculares e arbustos. Um dossel viridente.  Um quadro exuberante, mas a valia maior do sertanejo é a do buriti. Ele tem o significado do existir água, da presença dos bichos do céu e da terra em festa diária,  tem ele, o buriti, desde o albor cor de rosa ao poente dourado. Maior significado para o homem que habita os gerais, para o qual é tudo.

            Eis que meu pensamento voa de volta aos gerais ao encontro do cerrado e das veredas. Vislumbro o jardim, que sempre me encantou. Contudo, nas minhas andanças tantas no sacolejo dos burros, era apenas o viajar, o passante alegre e encantado com o que descobria a cada volteio da estrada, mas sem a curiosidade de ter o conhecimento das coisas da natureza mostrada. Pensei, então, ser preciso fazer deste encanto um cabedal de conhecimentos, empíricos que sejam. Por isso, esbarrei no rancho do amigo Tião Ema, plantado na cabeceira do córrego Conceição, no topo da Serra da Conceição. Queria saber do seu conhecimento, de gerações acumulado,  o nome e a utilidade das plantas dadivosas, que enfeitavam o cerrado e as veredas. Outro sertanejo já me instruíra sobre as árvores do cerrado: flores, raízes e cascas na utilidade da medicina caseira, o Zé Guedes, companheiro de muitas jornadas nos cerrados de Serra das Araras.

            Das informações de Tião e Zé, cataloguei as mais interessantes e de uso do sertanejo. Vai da beleza incomum da floração, à frutificação, às sementes e às raízes.

            Antecipando os registros das informações de Tião Ema e Zé Guedes, vou estender um pouco mais o comentário sobre a vereda. Existem tantos estudos técnicos sobre o bioma cerrado, uma plataforma para quem deseja aprofundar-se no seu conhecimento e sobre a sua importância. A minha apreciação não vai longe. Fica apenas ao alcance dos meus olhos pelas trilhas que percorri durante meses no município de São Romão e, mais tarde, nos cerrados  de Serra das Araras e do  Urucuia, quando município de São Francisco. Então, o que vi e registrei, por natureza do trabalho nas Escolas Caio Martins, na preservação do cerrado, e como escritor diletante, foi apenas fruto de observação e conversas com amigos sertanejos.

A vereda é uma bacia de capitação de água,  que deita do céu nos campos atapetados de folhas secas, que por declive escorre para uma caixa d´água onde, graças à umidade do solo, cresceram as palmeiras e suas as companheiras.  O lençol freático reposto, cheio, libera o fluxo de água, que supita formando as fontes e delas os córregos e ribeirões, que  escoam para o rio Conceição (denominei-o rio contrariando a nomenclatura fluvial oficial, que o tem como ribeirão, posto ser ele muito mais formoso e farto de água que tantos outros batizados como rios), dele ao Urucuia,  ao São Francisco e, por fim, à morada maior: o mar, levando  as lembranças do cerrado. Deslumbrante cenário se revela na aridez e sisudez do cerrado. Tudo tão quieto, o que me levou ao poeta Púckkin com o verso “só o silêncio murmura”. Sim, é na hora do silêncio, antes do pouso ou arribação das aves, que suave canção, quase imperceptível, é notada – o suspirar da fonte que brota das locas das raízes do buriti. Deveras. De repente, tão de vez, no silêncio mergulhei nos mistérios e encantos das veredas: os buritis que me contaram histórias de um paraíso.

            Ainda viajando, passeando pelos gerais, meus olhos vão se deleitar com paisagem multicolorida, bordada com flores singelas de tanto encanto e multifacetadas: amarelinha, arnica-do-mato, assa-peixe, barba-de-bode, batata-de-purga, beladona, carapiá, ciganinha, coroa-de-frade, manacá, marcela, para-tudo, poaia, teiu,  vassourinha, miroró. Estendeu o meu conhecimento as informações preciosas de Tião Ema e Zé Guedes meus companheiros de jornadas naquele mundo encantado. Não foi só pela beleza ornamentando o cerrado. Todos elas têm muita importância, na vida do sertanejo – da diversidade, o que mais explica Tião Ema, por sua experiência de vida. Impressionante como se estende à medicina caseira, o conhecimento empírico, os usos e abusões conforme as circunstâncias em benefício do homem.  Na passagem pelo campo sujo, ou cerrado sensu strict, vê-se que a flora é fantástica e de grandiosa utilidade no campo da medicina, da alimentação, da fabricação de móveis e construção em geral de artefatos ou casas. O elenco vegetal é imenso, de rara beleza e de grande utilidade para o bem do homem.

            A imediata recordação que eu tenho das veredas, sem dúvida, fixa-se na sua beleza, na magia espiritual que ela nos proporciona com sensação de paz e proximidade com o Criador. Revejo, extasiado, ali estático de olhos fixos nas primeiras palmeiras em uma fileira ordenada, o balançar de suas palmas como grandes leques – flabelos que em tempos idos eram levados por membros da corte papal, sinal de distinção do romano Pontífice. Lá, eram usados por altos dignitários no Oriente. Ali, aos meus olhos, diante de tanta exuberância, sentia-me como alto dignitário bafejado por obra do Criador. Do infinito, da celestial abóboda, de azul profundo, tão profundo e puro como é no sertão,  desceram meus olhos, pelos formosos troncos do buriti a alcançar a fonte rumorejante, no seu delicado bailado esgarçando verdes algas com a cantiga das locas.

III -A FLORA DOS GERAIS

 Árvores companheiras do buriti na formação das veredas, no aproveitamento das umidades são tantas. A pimenta-de-macacos, a pindaíba de tronco atirado ao alto; a embaúba, árvore de médio porte – variações do nome desta árvore são sutis,  o mais diferente deles é “árvore-da-preguiça”, por ser esta espécie a preferida pela preguiça-de-coleira, que consome avidamente as suas folhas tenras. E tem mais serventia para a fauna: os pássaros a procuram por causa dos frutos. Aves mais atraídas por ela: sanhaços, sabiás, saíras, tuins, tucanos, araçaris, periquitos, jandaias, arapongas, trinca-ferros, pica-paus, papagaios, tico-ticos, entre outros. E  tem mais – ela é pioneira e rústica, ideal para inicio de reflorestamento em áreas degradadas.

As árvores (com mil utilidades): araticum, Gonçalo, sucupira-preta, murici, canjerana, pequi, buriti, lixeira (sambaíba), caviúna-do-cerado,  barbatimão, baru, cagaitera, mangaba, jatobá-do-cerrado, pau-santo, jacarandá-do-cerrado, bacupari, sucupira-branca, pau-terra, ipê-do-cerrado

IV - A MEDICINA CASEIRA

Além dos curandeiros com as garrafadas, sua experiência empírica, pessoas comuns que dominam o uso da flora nos cuidados da saúde e a variação é muito grande  no uso de raízes, sementes, folhas e cascas na cura de doenças ou males: problemas de garganta, inflação dos olhos, inflamações uterinas, picada de escorpião, enxaqueca, dores de dente,  cicatrizante, dores do estômago e rins, gripe, febre e resfriados, prisão de ventre, antirreumático, diurético, vermífugo, calmante, expectorante,  má digestão, picada de cobra, rouquidão, problema do fígado, estimulante do apetite, dor na coluna, inchaço, banho para recém-nascido que apresenta atraso no desenvolvimento, asma, bronquite,  regulador menstrual, úlcera e gastrite, afrodisíaco masculino e feminino e inseticida.

Muitos alimentos são encontrados nos gerais:   abacaxi-do-cerrado, araticum, baru, buriti, pequi, cabeça-de-nego, cagaita, jatobá, mangaba, murici,  mama-cadela, caju-do-mato, murta, grão-de-galo, saputá, umbu d´anta, pimenta-de-macaco (tempero), coco-indaiá.

 

V - O HOMEM

            Não são tantos os moradores nos gerais, considerando a   vastidão de terras num ambiente totalmente isolado. Nas minhas andanças, conheci poucos deles. O mais considerado foi o Sebastião Ema, que se tornou meu amigo. O seu rancho era plantado na cabeceira da Vereda do riacho Conceiçãozinho, na  divisa do campo sujo com o campo limpo. Era um rancho modesto, mas bem levantado. As paredes eram de enchimento, rebocadas com barro branco refletindo muita luz. Era coberto pelas palhas do buriti, um processo tão bem engendrado que não dava passagem à água por mais forte fosse  a chuva. As portas e os móveis do rancho eram todos fabricados com matéria do buriti e embaúba. Nas paredes, penduradas, as redes, cordas, peneiras – todas de cerda do buriti. O fogão era uma peça interessante, considerando a inexistência de tijolos nos gerais:  era um jirau montado sobre quatro forquilhas de jatobá-do-cerrado, estrado de achas de pau-preto forrado  com grossa cobertura de argila da vereda. Não era de precisão ser grande, pois nem tantas eram as iguarias levadas ao fogo. No pote de barro sobre singela cantareira, feita com o colmo do  buriti, a água fresca da vereda. Ali o palpitar da vida se dava ao sol nascer e dormia logo ao seu cair no horizonte. Paz! Somente a paz! Em um mundo envolto de grande pureza. Tião tinha um belo burro ruão, que arriava todas as manhãs para percorrer as redondezas onde pastavam poucas cabeças de seu rebanho, de especial as vacas, que lhe forneciam o leite para o consumo e fabricação de queijo que, estocado, vendia no Núcleo da Escola Caio Martins onde estudavam seus filhos ou no comércio do Seu Miro. Cultura só mesmo a mandioca e moitas de cana, pois o solo do campo sujo é fraco – mandioca para o consumo e a cana para fabricar a garapa adoçante do café. No quintal do rancho, em jiraus, verdejavam os temperos e plantas medicinais: pimenta, coentro, salsa, cebolinha, arruda, manjericão, malvão, erva cidreira.  De admirar ainda se via moitas de algodão caboclo que dona Maria, esposa do Tião, cardeava e levava a um rude tear para tecer tecidos que ela empregava na confecção de calças, camisas e cobertas.

Não visitei outros ranchos nos Gerais. Na minha passagem pela Conceição, viajando pelos gerais, vi muitos e muitos deles plantados nas cabeceiras de veredas. Vendo-os, de longe, sem contato com os moradores, imaginava que as famílias que ali viviam eram sofredoras, abandonadas, carentes, tristes. Então, escrevi o poema O Homem das choupanas lamentando o seu abandono. Depois que conheci Tião Ema, que vivi mais de perto aquele universo, mudei de opinião e conclui que  muitos homens que vivem na cidade, usufruindo da “civilização”, têm uma vida muito mais sofrida e dependente,  que o homem dos gerais. Neste  universo, ele vive a sua dignidade, não depende da caridade pública, da compaixão alheia; nele ele encontra na flora diversificada o alimento, uma fonte enorme de vitaminas e na fauna outra fonte de alimento rica em proteína, a caça.  Não era rica a diversidade e a população de animais no cerrado. Contudo, por outro lado, a população humana era mais rara ainda. Desta forma, um veado ou uma capivara, animais de grande porte, abatido, servia como alimento para vários diais. A miúde tinham, ainda, as aves, tatus, teus e peixes O homem tinha, então, uma dieta muito equilibrada de vitaminas e proteínas e até carbo-hidratos e energéticos com a farinha de mandioca e a rapadura.

Infelizmente os tempos são outros, já não se vê tanta riqueza nos gerais, que se tornou hostil à morada do homem. O que escrevi, antes, foi vivência de tempos passados. Atualmente a situação não é a mesma. O cerrado vem sofrendo contínuo processo de degradação, um desastre. Para alimentar as carvoeiras centenas de milhares de hectares de toda espécie de árvores foram cortadas, em alguns casos sem condições de regeneração naturalmente. Onde imperavam os pequizeiros, jatobás do cerrado, araticum e outras fruteiras, foi plantado o eucalipto que, sem diversidade, sequer atrai a fauna, pelo contrário, a exclui do sistema mono. Em consequência, em primeiro plano, ficou o solo exposto ao sol inclemente, sem cobertura para reter as águas pluviais e, em consequência, abrindo caminho à erosão, comprometendo as veredas e cursos d´água – atualmente, muitos deles são intermitentes ou secos de vez.

Por outro lado, a caça foi proibida severamente. O conjunto de fenômenos causados pela ação do homem de fora dos gerais na destruição do cerrado e a proibição da caça inviabilizaram a  vida do homem ali levando-o ao êxodo.

O que se vê, então, atualmente, são ranchos transformados em taperas e rareada a presença humana, como ser vivente, nos gerais.

 

VI - O VÃO

 

Na linguagem do urucuiano o vão  é o terreno que se estende do sopé da serra às baixadas dos rios.  É a depressão do terreno, o plano abaixo do altiplano.

Nesta minha volta ao Urucuia concentro-me no vale do rio Conceição, onde plantamos um núcleo das Escolas Caio Martins em 1957.

Desci a serra da Conceição na trilha cavaleira que vem do rancho de Tião Ema, passando pelo corredor de pedra (Corredor da Tocaia na história de dona Joaquina) alcancei o socalco, etapa final  da estrada que a direção do Núcleo intentou abrir como acesso à fazenda Brejo Verde. Logo abaixo cheguei ao vão. Dali meus olhos  alcançaram o capão de angicos às margens do rio Conceição com seus belos meandros, numa área de aluvião própria para o plantio de arroz, nas águas e feijão, na seca. O vão que visito vem do ponto de travessia do rio Conceição com destino à fazenda Boa Vista, dos Palma,  partindo da propriedade de Manoel Tempo Duro, às margens do córrego das Lajes. Naquele ponto, a serra é embeiçada no rio com o barranco lambido pelas águas. Vencido esta ponta de serra chega-se ao vão do Conceição, que passa pela sede do Núcleo, alcança – riacho Conceiçãozinho em direção da fazenda Santa Rita. Antes, encontro a bela área reservada para a cooperativa dos Bandeirantes, conforme planejado quando da preparação da Bandeira. Como diretor dela, o meu único ato foi arar uma área para o plantio de arroz, que não saiu da vontade. Não plantei arroz no terreno da cooperativa, mas fiz uma pequena roça de milho e arroz em parceria com Vicente Barbosa, na área da embocadura do riacho Conceiçãozinho com o rio Conceição. Quando fui transferido do Núcleo, vendi minha parte da lavoura, o que me deu bom lucro (dois cortes de linho para confecção de dois ternos e um par de sapatos, o que não tinha no Urucuia.

No meu passeios pelo vão da Conceição, fui à baixada que parte do sopé da serra, das cachoeiras do  Conceiçãozinho e do Imbé às margens do rio Conceição. Ali visitei o rancho de Zacarias, que foi personagem destacada no livro Joaquina, uma lenda urucuiana, de minha autoria, narrando histórias de dona Joaquina, a matriarca que imperou naquela fazenda no século XIX. Encontrei-o debruçado sobre uma fileira de tabaco colhendo folhas para fabricar o fumo de  corda. Lembrei-me, então, que à falta do Continental, cigarro tão raro no Núcleo, ele sempre levava toras de fumo, dos mais fracos, para nossos cigarros de palha. Noutros ranchos, próximos, moravam Chichico, os baianos João e Avelino e os pais de Maria, lavadeira  do Núcleo – todos agregados que prestam serviços diários ou por empreitada ao Núcleo. Gente simples, muito amável e, ao seu modo, muito feliz.

VII - RIO CONCEIÇÃO

Um recorte em meu passeio, assim que deixei a baixada das cachoeiras, para falar um pouco sobre o rio que nos conquistou por inteiro, o Conceição. E ali cheguei,  às suas margens. Então, voltei longe no tempo e recordei que na sua contemplação constante, instintivamente, voltava às aulas de História e Geografia do professor Afrânio Teixeira Bastos, do Curso Normal Regional de Esmeraldas – vinha-me à memória o delta do rio Nilo, a dádiva do Egito, cobrindo extensas áreas com o rico limo propiciando o desenvolvimento de variadas culturas, e o rio Jordão com seus meandros. De fato, na baixada dos angicos, uma meia lua formada pelo contorno do rio Conceição, a todo ano, com sua cheia, o Conceição deixava, também, o rico limo – fartas eram as culturas de arroz e feijão. Lembrando os meandros do Jordão, era o serpentear do Conceição, contornando o capão dos angicos, de quase se ver, estando no eixo da área, as margens do rio que chega com a outra margem do rio que passa.

Ainda no passeio pelo rio Conceição deleitei-me com a visão da areia branca, tão branca como neve, formando formosas praias, sombreadas pelas copas de frondosos juazeiros erguidos nos barrancos com a vantagem dos frutos para os peixes. Na curva fechada do rio, o poço famoso, muito escuro, onde nos esconsos, segundo moradores da região, dormia um enorme surubim roncador.

            Tão formoso Conceição!

VIII - FAZENDA SANTA RITA

 

Na fazenda Santa Rita percebi a grande mudança, a transformação do modo de vida dos moradores dos gerais e do vão. Antes de chegar à fazenda Santa Rita, ainda no Núcleo, avancei em um trecho do vão, partindo das margens do rio às cachoeiras do Conceiçãozinho e do Imbé, uma ao lado da outra. Uma grande área de mata de transição. Vindo do sopé da serra, em seus vários boqueirões, encontrei um mata fechada com espécies várias: aroeira (esteios para construção de casas e postes para cercas) jatobá (para fabricação de carro de bois), pau preto (construção),  peroba (construção e móveis), cedro (móveis) angico (postes e estacas), pau d´óleo/copaíba (remédio), e outras tantas de menor destaque de utilização, mas formosas no conjunto esverdeado. Deixando o sopé na direção da baixada do rio, árvores de menor porte, a vaqueta e, por fim, área de aluvião enriquecida nas cheias do Conceição.

A fazenda Santa Rita sinaliza o modo de vida do povo da região que não tem nada parecido com os habitantes dos gerais.  Domingos Sales de Abreu,  no livro Às margens da incerteza, descreveu, com propriedade, como era aquela região “os posseiros de áreas maiores aproveitaram a oportunidade de negócios dividindo-as em glebas reduzidas, ou mesmo pequenas chácaras, aumentando sobremaneira a densidade demográfica.” Na região encontrei diversas propriedades bem formadas – casas, currais e outras melhorias. Na fazenda Santa Rita destaca-se o comerciante pernambucano Seu Miro. É o principal comércio da região, onde os moradores encontram variados produtos para comprar: arame farpado e grampos, pregos, sal, medicamentos básicos (melhoral, cibazol, leite de magnésia, sal-de-frutas, iodo, mercúrio, creolina); arroz, feijão, farinha, café em grão, rapadura. Interessante era o sistema de comercialização:  raro o pagamento com dinheiro. O morador faz a compra do necessário e Seu Miro tudo anota em um caderno. No período da colheita de arroz, milho e feijão, ele sai pelo sertão com uma tropa de burros recebendo cereais em pagamento, e até mesmo mantas de toucinho. De quando em quando, mercadores de Patos de Minas compravam os estoques do seu Miro

Depois da fazenda Santa Rita chego ao aglomerado onde, todos os anos no dia Primeiro de Maio celebra-se a Festa de Santa Cruz. O evento acontece em uma  clareira aberta na mata  de transição nas proximidades do Riacho Doce onde, no centro, tem erguida uma enorme cruz, local das devoções. O ponto de apoio é a casa de José Pereira, posseiro de uma boa gleba tendo como sede uma casa muito boa, levantada com tijolos e coberta com telhas de barro. Ali, anualmente reúnem-se centenas de moradores da região para a festa religiosa.

Mais na frente, seguindo o caminho beirando as fraldas da serra, às vezes sob um túnel formado pelas copas de portentosas aroeiras ou margeando vazantes forradas de capim rasteiro, encontro uma bifurcação. A estrada à direita leva à fazenda Poleiro de Pato, administrada por Juca Alkmim, um homem muito distinto, alegre e sintonizado com o que passa no país através de um rádio RCA Victor alimentado por bateria. A fazenda fica às margens do rio Conceição onde se faz a travessia para o fazenda Rodeio, nas margens do Rio Urucuia. Em princípio, nos preparativos da Bandeira do Urucuia, a fazenda Rodeio fora prometida à Cooperativa dos Bandeirantes,  que não saiu da promessa. Contudo, o nome rodeio não saia de nossas inspirações ou aspirações de nos tornarmos proprietários de uma bela fazenda às margens do rio Urucuia. Apenas eu, Raimundo e Francisco conhecemos a fazenda no giro pela região de Capão da Cinza e Vereda do Chico Velho de distinto encantamento.

A estrada à esquerda leva à fazenda Cabo Verde onde foi plantado um segmento do Núcleo Colonial da Escola Caio Martins, com um professor lecionando para as crianças da região e assistindo os moradores locais. A sede foi plantada nas margens do Riacho Morto, também conhecido como Corrente. Na frente da sede estende-se uma formidável vereda de formosos buritis, razão por  que a fazenda também é conhecida como Buritizeiro. Pousando o pensamento no Cabo Verde volto no tempo encontrando Emílio Milton (Lourinho), companheiro de curso normal e bandeirante, com sua esposa Terezinha e o primogênito Gilson.  Um grave incidente desencadeou na partida dele e família do Urucuia. Substituiu-o o bandeirante Raimundo Melo, que revolucionou o meio com a construção de uma capela com uma torre futurista – Raimundo era um gênio sonhador.

Do outro lado do Riacho Morto encontro a fazenda Corrente de Antônio Torres, meu guia nas andanças pelo sertão urucuiano cadastrando eleitores para a Comarca de São Romão.

No Cabo Verde, nas margens do riacho Morto ou Cabo Verde, dá-se o final do vão da Conceição. Do outro lado do riacho Morto começa o vão da Serra Constantino que se estende até às margens do rio Urucuia onde desemboca o rio Conceição.

Nas minhas andanças com Antônio Torres deixei a Serra da Conceição rumo à Serra Constantino, passando pela Fazenda Brejo Verde onde  foi instalado, também, uma escola sucursal do Núcleo. O primeiro a lecionar na fazenda foi o professor bandeirante Geraldo Moreira, substituiu-o o professor Geraldo Saldanha.  Lembrei com certo carinho as visitas que fiz aos dois, em duas ocasiões: uma levando suprimento alimentar transportado pelas trilhas do gerais em uma carreta puxada por  trator; a outra foi com a nossa trupe teatral levando a peça o Diamantão. Lembro-me, com saudade, o pavor que a peça causou nos assistentes, gente humilde da região. Numa cena, bem montada pelo Raimundo,  um garimpeiro é ferido gravemente por índios, mas ao tombar desfere um tiro de garrucha em seu agressor. O índio com sangue escorrendo da boca e do peito (anilina) estatela no chão. Ao troar do tiro, mal esvaída a fumaça, o público desapareceu da sala em disparada. Ainda bem que se tratava do ato final. Espanto foi no outro dia: quando os atores deixaram a casa, de manhã, deparando-se com muitos moradores escanchados na cerca de varões na frente da casa. Subiu o burburinho com muito  espanto ao verem o  homem baleado vivinho da silva. A fazenda é localizada em  um local extremamente inóspito e de terras áridas, cobertas de lobeiras. O que de especial tem a fazenda é  cachoeira do Riacho Brejo Verde, que é deslumbrante. Tem ela a profundidade de perto de cem metros de queda livre entre paredes de pedras negras forradas de farta vegetação de imbés e samambaias cujas folhas bailam com o respingo da água desprendida do alto (calculei a altura dela tendo como referência a cachoeira da Fazenda Extrema, que visitei com outro guia, João Palma – segundo informação local, ela tinha a altura de 110 metros, medida feita com cordas pelo padre Guerino, pároco de São Romão em suas desobrigas pelo sertão). Abre-se, cortando a serra, um formidável cânion. Foi com alegria que revi a cachoeira.

 Um pouco depois, uma nova e exuberante visão: o vale do riacho Mundo Novo. Fiquei, deveras, encantado com o deslumbrante panorama lembrando-me do livro que li quando aluno da Escola Normal de Esmeraldas, Vale Aprazível de Louis Bromfiield – um éden.

IX - A VIDA NO VÃO

E como é a vida naquele vão? Certamente, pelo que já descrevi, ela é diferente do modo de vida do homem dos gerais. Verifica-se pela qualidade das terras agricultáveis, propícias à cultura de cereais e criação de gado; oferta abundante de água,  clima agradável, meios de comunicação e vizinhanças.  Nas proximidades do Riacho Doce conheci um criador de cavalos, José Braga, homem de estatura baixa, atarracado, muito afável e sempre usando um chapéu de aba larga. Comprei na mão dele um cavalo que dei o nome de Sputinik, que, infelizmente não aprendeu esquipar, nem o viageiro, ganhando, com isso, a liberdade no campo, livre dos arreios. Preocupava José Braga os seus filhos, que se envolviam em muitas confusões, especialmente nas festas.

O vão da Conceição não tem a diversidade da flora dos gerais, mas a compensação está na riqueza das terras, em especial nos terrenos de aluvião muito férteis pelos sedimentos deixados nas cheias do Conceição. Outro fator importante é o convívio social: festas, comemorações religiosas, ternos de foliões  – conheci um terno muito famoso na região, os Serranos tendo deles, inclusive, a gravação de uma música cantada durante a dança (guaiana) do Quatro.

Outro aspecto de destaque é o do vestuário. O guarda-roupa dos moradores do vão é mais sortido e, na maioria de roupas confeccionadas (calças de brim jeans), calçados de botinas e botas, boas roupas de “festas”, especialmente as mulheres, que também fazem uso de maquiagem – o ruge e pó de arroz; chapéus de feltro. O homem dos gerais tem pouca roupa, geralmente tecida em casa; calçado é a precata de couro e o chapéu da cerda do buriti. É muito modesto.

A alimentação do homem do vão é mais farta e variada: arroz, feijão, farinha, carne de porco ou galinha, ovos, mandioca, leite, queijo. Tem mais verdura cujo plantio é facultado pela qualidade do terreno.

 

X – POSSEIROS E AGREGADOS

Na minha primeira passagem pelo Urucuia tomei conhecimento que o Núcleo da Escola Caio Martins fora assentado na fazenda Conceição, que nos fins do século XIX, fora propriedade de dona Joaquina Pereira da Mota, famosa matriarca cuja história se transformou em uma lenda. Dona Joaquina teve um fim trágico – foi processada e condenada à prisão em São Romão e, no final de sua vida se encontrava em estado de miséria. Suas fazendas foram desapropriadas pelo Estado. Dizia-se, na ocasião, que eram quatro fazendas: Conceição, São João, Boqueirão e Rodeio, terras de  não acabar, mais de 20 mil hectares. O quanto exato nunca fiquei sabendo, mas pelas minhas viagens no lombo de burros aquilatei sua extensão. Partindo da sede do Núcleo até a fazenda Brejo Verde, pelos gerais, para vencer a extensão levava-se um dia de viagem a cavalo; igualmente era o tempo que se levava para chegar à fazenda Cabo verde. Para chegar ao extremo da Vereda Chico Velho, na fazenda Conceição, levava-se três dias de viagem a cavalo, com pousos no Poleiro de Pato, Capão da Cinza e na  entrada da Vereda do Chico Velho. As Escolas Caio Martins receberam as terras do Estado para instalar, nelas, um núcleo sócio-educacional de apoio ao homem do campo. Implica, isto, que lá já existiam muitos moradores, todos posseiros. Não tendo as Escolas recebido a escritura da fazenda, também ela ali se encontravam como posseira, mas, de certa forma, responsável por imensa área ainda não posseada. Diante da realidade, não interferiu na situação dos posseiros, pelo contrário até mesmo passou a trabalhar com eles. Alguns posseiros constituíram propriedades sólidas, com extensas áreas tendo, nelas, instalados muitos posseiros. Entre os posseiros existiam muitas famílias oriundas da região de Pompeu sendo eles tratados como “os pompeanos”. Essa ligação remete até mesmo à dona Joaquina que era conhecida, na região, como Joaquina do Pompéu. Na verdade a Joaquina de Pompéu era outra, uma rica e famosa fazendeira da região de Pompéu, amiga da corte portuguesa na Brasil.

Outras figuras que exerciam importante papel na fazenda Conceição (Caio Martins) e região era a dos agregados. A eles era permitido  construir, com um pequeno cercado onde podiam ter suas plantações. Nas terras da Escola e de proprietários da região pelo uso de áreas mais extensa, geralmente para o plantio de arroz, feijão e milho, era cobrada uma renda de até 20% do que produziam.

 

XI - FIM DE JORNADA

Volto à realidade, tão longe do meu Urucuia. Fora o sonho não tenho como comprazer-me das veredas, dos córregos, da flora e fauna dos gerais; das fornidas árvores dos boqueirões, das cachoeiras do Conceiçãozinho e do Imbé – modestas no volume de água, mas tão mimosas ornadas por imbés e samambaiais como cortinas viridentes que reluzem no respingo da água prateai dos gerias de campos virginais.

Fim de jornada, mas não de um sonho alimentado, a cada lembrança, pelo paraíso oferecido pela natureza, bondade de Grande Arquiteto do Universo.


FIM







sábado, 22 de janeiro de 2022

QUEM É QUE ME TOCOU?



Despretensiosamente, dias atrás, dei-me com uma passagem bíblica que me emocionou muito e, de imediato, levou-me a algumas digressões. A frase  está em citação de Lucas, 8: 45-46. Narra um fato singelo, se não tomado em sua extensão. Uma pobre mulher que padecia de um mal incurável, fluxo de sangue, que não encontrara cura com médicos, tendo esgotado todos seus recursos. Soube ela da passagem de Jesus  onde ela morava e o viu, meio a enorme turba, passando pelo caminho. Com esforço aproximou-se dele. E o que fez? Tocou-lhe, com um dedo, o manto e, imediatamente curou-se do mal. Jesus percebeu e disse: “Alguém me tocou: porque eu conheci que de mim saía uma virtude”. Ninguém pôde respondê-lo e ele insistiu. Nisto a mulher se aproximou e postou de joelhos aos seus pés e se desculpou. Jesus, complacente, a ela dirigiu: “Filha a tua fé te salvou: vai-te em paz”.

            Esplendor de duas virtudes pregadas por São Paulo: fé e caridade. Deu-me a consistência do entendimento da missão de Jesus na terra: a Luz, a misericórdia de Deus revelando Seu amor aos homens. Tão excepcional foi o fervor daquela mulher acreditando que com um simples toque no manto de Jesus seria curada; e Jesus, ao sentir a virtude desprendida dele: a caridade. O amor que resume inteiramente a doutrina de Cristo. Que melhor poderíamos ter buscando Jesus?

            Nada mais precisaria ser dito. Mas refleti: não estamos vivendo um tempo em que se faz necessário ressaltar a presença de Jesus iluminando nossa seara? Nisso, lembrei-me de uma pregação do padre Leo (um santo homem) inspirado em Colossenses, concitando-nos: buscai as coisas que são lá de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. “Cuidai das coisas lá de cima, não nas coisas que há sobre a terra”.

            Então encontramos força, especialmente em espírito – pois é através dele que podemos chegar ao Pai, não em matéria. “Encontrar uma meta e manter o passo firme em direção às coisas que estão no Alto é próprio daqueles que sabem superar os desafios e que não se deixam abater diante das dificuldades. Para aqueles que não querem parar nem desanimar diante dos problemas, é preciso continuar!” – Pe. Leo.

            O que vamos levar carimbado, em nossa vida na terra, para depositar aos pés do Criador como legado de uma vida que se passou, da qual nada fica para merecer refrigério na vida espiritual? Tenho  certeza, como tantos brasileiros, sem querer fazer qualquer juízo, mas na reflexão do que vejo e sinto, que  em nosso sofrido País, muitos políticos e magistrados  estão agarrados aos bens temporais, carimbando o perverso que, certamente, não serão propícios ao Criador. Serviria de consolo? Não, seria de imensa tristeza.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

VIVÊNCIAS – CONTOS

ÉRAMOS DOZE
Os doze na viagem para instalar o Núcleo Colonial Vale do Urucuia


Éramos doze! Juntos nos vimos, em dia distante, no meio de uma clareira entre a serra da Conceição e o ribeirão da Conceição de olhos num rancho de palha que seria nossa moradia no sertão inóspito apenas com uma motivação especial: conhecer as veredas tropicais e bater de frente com as morenas de olhos verdes. Às vezes, em noites escuras, rodeávamos uma fogueira assando ubre de vaca, cantando Uchained Melody, Inamorata, Índia, Boneca Cobiçada. A gente ria feliz naquele recanto esquecido, perdido na geografia mineira, espalhando alegria. E foi que demos por conta como levamos o élan do idealismo cultivado nos bancos da escola-mãe exercitando-o com exuberância, na força que explode na natureza chegada a Primavera. Era, então, o nosso mundo e passamos vivê-lo com intensidade na crença de estar criando um mundo novo naquele sertão esquecido.
            Éramos doze! Vivíamos um mundo de novidades e encantos, vistos nas coisas mais simples a qualquer olhar. Quem poderia admirar o rio Conceição com seus meandros, águas claras, praias de areia brancas, brilhantes como a neve, sombreado pelas copas do pajeú, e com esconsos onde dorme o surubim? Quem poderia ficar parado diante de um capão de angicos só para assistir, em suas densas copas,  às estripulias dos barbados depois da colheita de milho na sua roça? Quem poderia contemplar extasiado o despontar da lua no fundo do capão de angicos precedido de suave brisa? Quem poderia contemplar os raios da lua cheia mais subida aos céus infiltrando nos ranchinhos entre as palmas de buriti da sua cobertura? Quem poderia resvalar nos imbés despontado de frestas de lajes da cachoeira do Conceiçãozinho de águas puras e cristalina, que no correr dos séculos como paciente arquiteto lapidaram piscinas e canais de belezas incomuns? Quem poderia se aventurar no universo/cerrado resvalando-se entre árvores tortas, umas floridas e perfumadas? Quem poderia, naqueles gerais, acompanhar a carreira de emas buscando esconderijo para suas crias? Quem poderia pousar à entrada de uma vereda, descansar os pés na sagrada água do sertão, ouvir a canção das palmas sopradas pela brisa do cerrado e entreter-se com a algazarra de araras e jandaias em busca do fruto vermelho do buriti? Quem poderia estancar o burro à porta de um humilde ranchinho de pau a pique e coberto de palha e ser recebido com generosidade pelo morador que não tendo nada, com um sorriso dá as boas-vindas e oferece água, e dele ouvir tantas histórias nunca antes contadas? Quem poderia estar em um lugar esquecido, isolado, inóspito, distante, sentindo que estava no centro do mundo, construindo uma história?  Quem poderia estar abrigado em um rancho com tapumes de palha de arroz e coberto com palmas de buriti, piso de chão batido, achando, assim mesmo, que estava morando em um palácio? Quem poderia viver na isolada  fazenda Brejo Verde, cercada  de lobeiras, assentada em terras secas cobertas de pedregulhos –  de verde só tinha a certeza de  ali acender a luz da esperança, do amanhã no coração de crianças? Quem viveria na planície à beira do Riacho Morto na erguida fazenda Cabo Verde, em terra perdida no tempo e isolada para levantar uma escola e levar esperança para crianças e gente então abandonada? Quem veria o corredor de pedras no alto da Serra da Conceição, parte da lenda de Joaquina, matriarca  que primeiro fez a história da fazenda Conceição? Quem poderia sentir arrepios e se emocionar diante das ruinas do casarão de dona Joaquina e da  ermidinha que inspirou Manoel Ambrósio a escrever o romance A Ermida do Planalto narrando a saga de dona Joaquina? Quem poderia, por tempo e no tempo correndo, viver, conhecer e compartilhar a vida de urucuianos, homens, mulheres e crianças que não tinham nenhum contato com a civilização, que viviam em mundo isolado, sem estradas, sem qualquer assistência; homens que em situação mais desvantajosas que a dos índios, tinham que inventar a vida para viver? Quem poderia tirar lições de vida da vida dessa gente e com eles aprender? Quem poderia com eles cantar versos narrando fatos daquele universo, nos ternos de folia ou a beira de uma fogueira?
Assim éramos os doze no começo de uma grande missão. Juntos por bons tempos vivemos  e desfrutamos daquela alegria. Depois, por contingências do trabalho, fomos divididos em células – no próprio universo e fora dele. Contudo a alma de cada um ficou presa, adormecida no Urucuia e no coração entrelaçado de cada um dos doze, eram irmãos.
A  fogueira arde. Apenas ela o luzeiro na imensa escuridão. Crepita! Estrelinhas acendem-se ao céu bordado de estrelas siderais. De repente, meus olhos percebem seis estrelas mais luminosas desgarrando-se do nosso universo. O que veem meus olhos sensibiliza minha alma, sou tomado pela emoção e imensa dor, pois ali vejo que não somos mais doze. Seis estrelas que se desgarram do nosso mundo são seis dos nossos irmãos que se encantaram.
Éramos doze. Os Doze Bandeirantes do Urucuia.