sábado, 3 de fevereiro de 2018

SÃO FRANCISCO – JANEIRO: SOCORRO!

Reagir enquanto há tempo
Um problema crítico e que vai sendo, sempre, empurrado às calendas: a situação crítica do rio São Francisco. Muita conversa, muitas promessas e nada, mas nada mesmo é feito – pelo menos aqui no Norte e Noroeste de Minas. Centenas de ribeirões, córregos e até rios entram em fase terminal – alguns mortos de vez, outros intermitentes e outros, pouquíssimos, com fiapos de água. Enquanto isso, empresários que devastaram o cerrado, “pai das águas”,causando o grave desastre ecológico, chegam, agora, noutra frente: perfuração de poços tubulares de maneira indiscriminadas, com aval de políticos que municiam os produtores de canos e caixas d´água, mesmo não tendo água. Acabaram com as fontes de água superficial e, agora, atacam as águas subterrâneas como se fossem elas infinitas.
Anivaldo Miranda, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) visitou o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, para tratar de agendas relacionadas ao Rio São Francisco. Ele entregou ao ministro o Plano de Recursos Hídricos da Bacia do Rio São Francisco, pontuando: “Nós queremos que todos os atores da Bacia Hidrográfica tenham acesso ao Plano, pois ele é um grande patrimônio de todos, foi construído com recursos da cobrança pela água bruta e é um instrumento que pode ser utilizado tanto pelo governo federal, quanto pelos governos estaduais”.
Uma importante iniciativa do presidente Anivaldo foi entregar ao ministro o Plano de Aplicação de Recursos na Bacia do São Francisco que aponta investimentos necessários para a revitalização da Bacia até 2016. Ele enfatizou ao ministro “Nós viemos pedir apoio para que, com os recursos que vê  para a Agenda Verde do Ministério do Meio Ambiente, o órgão possa executar esses recursos dentro das metas e diretrizes do Plano da Bacia.
No município de São Francisco – e região – os problemas hídricos são graves. Contudo trata-se de uma região esquecida, que mal existe no mapa. Mas o que dizer da situação do submédio São Francisco onde se localiza a importante barragem de Sobradinho e cujo cenário tem sido objeto de novelas de TV e célebres reportagens. “Sobradinho, no norte baiano, reúne cenários de desolação com a crescente redução do volume de água”, noticia a revista Travessia, editada pelo CBHSF, acrescentando” Onde hoje podemos caminhar em solo firme, existia muita água, quase 4 metros de altura e a cena que deparamos agora é de muita tristeza. Esse é o resultado não só da seca que nos assola há dez anos, mas é também da ausência de medidas contínuas de preservação”. E adverte: “Não temos mais tempo, precisamos revitalizar ou, em muito breve, não haverá mais rio”.
Prefeitos de São Francisco, Luislândia (onde não há um curso d´água perene), Brasília de Minas, Pintópolis, Icaraí de Minas e Chapada Gaúcha (da área do CBHSF9) precisam partir para ação contínua em defesa dos recursos hídricos da região – preservação e recuperação, pois como vai não é de se admirar que, muito em breve, até o rio São Francisco passará à categoria de córrego.



UM PAPO E MÚSICA COM BRUNA FULÔ

A convite do radialista Altamir da FM 87,9 Rádio São Francisco, (Luiz Fernando), em companhia de Guilherme Barbosa Pereira (Paralelo 16 e Banda Raízes dos Gerais) e sua digital mágica, passamos mais de uma hora, numa rodada musical com Bruna Fulô e Umbelino (violão). Há tempo fiquei conhecendo o trabalho da Bruna Fulô através de uma entrevista trabalhada pelo Guilherme e publicada no Barranqueiro, cujo exemplar ela diz ter guardado com muito carinho.
Entre uma e outra conversa, falando sobre a vida artística de Bruna e também de sua ligação com São Francisco, ela nos brindou com interpretações, perfeitas, de várias canções da MPB e sertanejas.
Bruna Fulô, depois de anos na estrada   conseguiu firmar-se no mundo dos shows e tem apresentado em grandes praças. Com apoio de uma excelente banda – uma equipe formidável, segundo Guilherme – ela tem chamado atenção pela qualidade do seu trabalho, suas belas performances, sem dúvida com uma belíssima voz. Contudo, com todo sucesso que vem somando com seu trabalho, alcançando uma grande projeção no mundo artístico, ela não esquece de sua terra – São Francisco. Não se separa de suas raízes e sempre vem visitar seus parentes e amigos, e faz questão de participar da tradicional festa de São João do Angical, que há mais de 30 anos é promovida por sua tia Terezinha Vieira.
Ela é filha de José Márcio e Zilma Alves. Estudou o nas escolas Dr. Tarcísio Generoso e Brasiliano Braz e, depois, transferiu-se para Uberlândia onde atualmente vive.
  UM POUCO DA BRUNA
A música está no DNA de Bruna Patrícia Vieira Batista : “Bruna Fulô”. Seu avô materno (Domingos) foi sanfoneiro dos bons, aqui em São Francisco. Seu pai, José Márcio e seus tios já tocavam e cantavam na década de 90, mas optaram em seguir outras carreiras profissionais. Bruna começou a cantar ainda criança, aos 12 anos. Em São Francisco encontrou um grande amigo que tornou-se seu professor de violão (Umbelino – violonista e tecladista do Paralelo 16 e violonista do Raízes dos Gerais)
Bruna Fulô, em sua caminhada como cantora (ela é violonista e compositora) participou de vários festivais, entre ele o festival da Arcom in Concert – Uberlândia – MG, quando ganhou o prêmio  revelação. Completam o seu currículo participações em shows de duplas sertanejas mineiras. Lançou o primeiro disco independente, “Sussurros” com músicas de grandes compositores nacionais. Seus shows se caracterizam pelo esmero na escolha do repertório, complementado por sua voz marcante, desenvoltura e carisma naturais.
​Bruna Fulô lançou sua carreira solo há 5 anos. Desde então o criativo músico André Mineiro (ex-percussionista do Gustavo Lima) assumiu a produção de seus shows em Minas Gerais, Goiás e interior de São Paulo.  Nesse período ela fala com orgulho de ter participado de grandes eventos da música sertaneja como Festa do Peão de Barretos, Jaguariúna Rodeio Festival, Rodeio Camaru/Uberlândia, festas de aniversário de cidades e outros grandes eventos. Pisou também nos palcos de grandes baladas e clubes de Minas Gerais, Goiás e São Paulo.
Em seus shows, Bruna faz questão de exaltar o atual empoderamento feminino na música sertaneja, cantando sucessos de Marília Mendonça, Simone e Simaria, Maiara e Maraisa e Naiara Azevedo, mas nunca se esquecendo de outros grandes nomes femininos como Fátima Leão, Roberta Miranda e outras, bem como sucessos do sertanejo universitário.
As músicas de Bruna Fulô já foram tocadas em quase todos dos Estados do Brasil, em centenas de rádios, com predominância no Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Com destaques para as músicas: “A Noite” (versão sertaneja) e “Não Volta Pra Sua Ex” (composta por Alex Ferrari). Suas novas músicas, além das próprias composições, vêm de compositores consagrados no atual universo sertanejo.
No final de nosso encontro, eu e o Guilherme, sugerimos uma apresentação dela em São Francisco, o que teve ótima acolhida: “Teria o maior prazer e a maior alegria em poder cantar para o povo de minha terra, um grande show, com muita gente, tenho certeza” – disse ela sorrindo
Fica aí o recado para Deo, secretário municipal de Cultura e Turismo e empresário de São Francisco. Bruna Fulô canta muito, tem uma belíssima voz, muita simpatia e, o que vale muito, de grande simplicidade.




PEQUENA CRÔNICA

PINÇANDO O SF
O pequeno “SF” – O Jornal de São Francisco – guarda um formidável acervo da história de São Francisco, retalhos do cotidiano, notícias interessantes, passagens de governantes. Era um jornal denso, recheado de letras, pois não havia, àquele época, o recurso da fotografia. Quando conseguia alguma ilustração era através de clichê, muito difícil e caro de conseguir, só possível em Belo Horizonte.
Todos sábados os são-franciscanos recebiam o jornal em sua casa, para muitos, com ansiedade, como no caso de Leonides Dourado, que foi além – organizou uma coletânea, muito preciosa e da qual nos valemos para pinçar uns fatos.
Para recordar, como gosta o Edmilson do Dínamo, com seu acervo fotográfico, o Portal vai pinçar algumas notas.
“ANO FUTEBOLÍSTICO”
“Os amantes do futebol, no ano de 1964 não podem se queixar ou reclamar que tenham sido privados de espetáculos do esporte rei, pois com poucos intervalos os clubes se movimentaram e procuraram preencher as tardes domingueiras com disputas, muitas das quais atraindo grande público.
Lamentavelmente, entretanto, que a Liga Esportiva de São Francisco não tenha se dignado de dar o ar da graça, tendo permanecido alheia e desinteressada pelas nossas atividades futebolísticas. Aliás, é bom que se diga, se dependesse da Liga, órgão fictício ou acéfalo, o são-franciscano não teria tido oportunidade de presenciar alguns dos bons espetáculos que lhes foram proporcionados.
O Campeão
O Dínamo campeão do último certame patrocinado pela Liga Esportiva no ano de 1963, não esteve na mesma evidência dos anos anteriores, eis que a agremiação de Edmilson Cavalcante andou, durante tempo mais que normal, afastada das canchas.
No entanto, retornando aos gramados, o Dínamo voltou a demonstrar suas virtudes de campeão realizando bons encontros e dando provas de que é sério candidato ao campeonato próximo. Em seus jogos, o Dínamo venceu Brasília de Minas 2×0, Mirabela 4×1, Bancários de Montes Claros 4×2, empatou três vezes com o Racing. sendo derrotado pelo Racing por 5×4 e por Brasília 4×3″.
COMENTANDO, estabelecendo um paralelo entre as duas épocas -janeiro de 1965, quando foi publicada esta matéria e, agora, janeiro de 2017.
São Francisco, de uns anos para cá, não tem Liga Esportiva, não tem campeonato, não tem estádio, não tem jogos senão partidas esporádicas disputadas no bairro Sagrada Família ou no “Poeirão”. O futebol da cidade está em banho maria e parece que a juventude e sociedade esportiva não estão nem aí.
O Dínamo de tantas glórias, tantas vezes campeão e representante lídimo de nosso futebol, com uma mística fantástica,agora é parte da história. O velho e valente capitão Edmilson pendurando as chuteiras, pendurou também o grande esquadrão.

COLÓQUIO SAUL MARTINS *

Saul Martins de formação militar, poderia ter seguido a carreira das ciências jurídicas, como poderia ser mestre da Matemática, por sua vocação cartesiana.
Nada disso. Ele seguiu o caminho das ciências humanas. Doutorou-se em Antropologia e dedicou-se ao estudo da cultura popular tradicional. Qual força o levou à opção pelas manifestações folclóricas?
Recuemos no tempo e no espaço
Mil novecentos e dezessete, Começo do fimda 1ª grande guerra. O mundo em transformações. Mês de novembro. Início das águas, período das chuvas. O sertão está em festa. O cerrado viçoso.  Desabrocham-se as flores multicoloridas. As mangabas estão caindo, madurinhas. Os pequizeiros carregados de frutos verdes. O grão-de-galo cheira longe. O cajuí ou caju do mato se oferece com seu travo gostoso. O cerrado, este pomar vastíssimo e sem dono é habitado por todos os bichos de pena e de couro.
O rio São Francisco toma as primeiras águas barrentas. Cresce. No fundo o caboclo d´água brinca com o surubim de bigode. A mãe d´água penteia os cabelos de ouro.
O vapor apita lá no pontal. Vem da Bahia, carregado de gente, sal querosene e algodão em rama.  No porto dos peixeiros a velha barca do coronel Caciquinho carregada de rapadura e cachaça, pronta para zarpar com sua bela carranca na proa. Uma velha preta vende beiju-cambraia com café quentinho. No varal do açougue luzem mantas de carne seca dois pelos. Mais adiante, no terreiro, debaixo de uma latada, uma animada rodada de lundu. Na política, a luta dos luzeiros e escureiros pelo poder é braba. No caminho da fazenda “Serrote” para a cidade, nasce prematuramente um menino de 6 meses. A mãe, dona Maria Moreira Martins, põe-no em uma caixa de sapatos cheia de algodão e o entrega à Nossa Senhora. O pai, Justino Alves Martins, fica alegre e apreensível. O menino salvará? Dá-lhe o nome de Saul Martins.
O menino sobrevive. Cresce. Mora na rua do Caminho do Brejo.
De pé no chão e de calças curtas, o menino toca arco ou roda, solta papagaio, toma banho pelado no rio, no cais de cima.
O menino se torna exímio canoeiro. Aquele toquinho de genteno piloto da canoa. Vai para ilha chupar melancia. Monta em cavalo-de-pau. Entrapara escola pública, depois Grupo Escolar Bias Fortes. Já rapazinho, vai para a fazenda do pai, onde faz de tudo. Capina na roça. Guia carro-de-boi. Trabalha na desmancha da mandioca, fazendo farinha; na moagem de cana. Engenho de pau.  Faz rapadura e cachaça da boa. Monta a cavalo nas vaquejadas pelo cerrado e caatingas. Na cidade trabalha na distribuidora do Laboratório Raul Leite. Decora todas as fórmulas do remédio. É o primeiro a matricular-se na recém Escola Normal.
Está explicada a opção de Saul pela Antropologia, pela ciência do Folclore, pelos aedos populares, pelo ethos do povo.
A força atávica do São Francisco, a meninice solta nas ruas de Januária e o espírito forte das carrancas nas proas das barcas de frete.
  • Esta belíssima crônica foi escrita por Domingos Diniz no dia 10 de agosto de 2001, à época presidente da Comissão Mineira de Folclore, que também foi presidida por Saul Martins, cofundador da instituição..
Euguardava em meus arquivos esta bela página que, agora, levo ao Portalveredas como uma homenagem dupla: ao autor, o caro amigo Domingos Diniz, por sua arte e sensibilidade, e a Saul Martins, nosso grande mestre, ambos encantados.
GANDARELA
Gandarela. Gandarela
Últimos suspiros
Deum povo
Gandarela. Gandarela
Derrota-a como ao cerrado
A ganância econômica
E a desgovernança
Amanhã o lamento.
Sem remédio.
BH, Montes Claros
Amanhã.

VOZES DOS CIDADÃOS

João Naves de Melo
A VIDA DE JOÃO PRÓBIO POR JOÃO CEARENSE
A vida é como se vive. Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, dizia que “viver é perigoso”. Certamente o disse porque retratava a saga de jagunços. Tivesse conhecido e visitado João Próbio, como fizemos, eu e o dr. Elmiro, nesses dias, poderia ter lapidado mais uma frase: A vida é uma alegria. Foi assim que encontramos João Próbio, um ancião que, com seus 94 anos, nos aguardava na varanda da casa de um filho, relendo sua vida em versos – que ele escreveu, com os próprios punhos, em letras grandes e legíveis – ultimamente com as duas mãos – para nos contar.
Lúcido, lendo com facilidade – algumas vezes sem óculos -, ele transformava seus versos em música, com sua voz cantada de nordestino. A sua audição, bem deficiente, exigia a ajuda do filho para nossa conversação por algum tempo (que não vimos passar), tomando café e saboreando deliciosos pães-de-queijo da casa. Foi uma lição. Ali estava um homem quase centenário a falar das coisas da vida, com a maior alegria, dizendo com uma certeza profunda que ainda vai escrever muitos versos no ano 2000 – o que faz nos tempos da política e para jovens estudantes que sempre o procuram.
O que conversamos daria para escrever muitos artigos. Fomos obrigados a resumir, viajando a princípio em seus versos, um achado de pureza, carregado de muita sensibilidade, como se cantasse, docemente, a saudade guardada na alma.
Origem
Eu me chamo João da Penha.
O Próbio era meu paizinho.
Morava em Juazeiro
na terra de meu padrinho
Cícero Romão Batista
que se dizia santinho.
Eu nasci em uma fazenda
por nome de Umbuzeiro
num dia de terça-feira
a vinte e quatro de janeiro,
sendo que daquele casal
eu fui o filho primeiro.
Esse nome de Penha
nasceu de minha madrinha,
pois é nossa Senhora da Penha
que é a madrinha minha,
a padroeira do Crato,
cidade nossa vizinha.

DICOTOMIA II

O Brasil não vai encontrar o seu caminho se persistir a dicotomia esquerda e direita para modelar um sistema no sentido de conduzir o país. A história já registrou que os regimes extremos não levam a lugar nenhum e que por mais propaganda que se faça deles, no fim, sempre redundam em fracassos. Lamentavelmente as lições não são aprendidas e, se o ação, deixam de lado quando o resultado não satisfaz  interesses pessoais ou de grupos.
O Nazismo, pela extrema direita, apesar do poderia de Hitler, redundou em uma grande fracasso, uma catástrofe para a humanidade cujos reflexos, que ainda em dias atuais são sentidos e comentados.
O Comunismo implantado na Rússia, criando-se o império da União Soviética, com quase toda metade da Europa e parte da Ásia, ainda que criado à força, depois de anos de glória e decantado no meio de artistas e intelectuais, esfacelou-se, como foram esfaceladas as estátuas de Lênin e Stálin.
Do comunismo ou socialismo, de maior expressão, resta a China, que de comunismo só tem o partido, a nomenklatura, pois o modelo é do capitalismo, invadindo o mundo todo com seus produtos e, pelo que sabe, na produção desses bens, não se vê nem sinal da mais valia.
Cuba, idolatrada pelos intelectuais e artistas brasileiros – só no falar, porque na hora de passear e investir, o fazem nos EEUU ou na França – tem um regime ditatorial, o mesmo acontecendo, em escala muito pior, com a Coréia do Norte belicista e isolada do mundo.
O ambiente sempre é propício à existência da dicotomia – esquerda e direita. Uma, de um lado, sempre sonhando com “revoluções sociais” e a outra na manutenção do status quo, ou sistema que lhe é favorável. Raymond Aron, no livro O ópio dos Intelectuais, analisa o fato observando que “Assim como o conceito de esquerda, o conceito de revolução não cairá em desuso. Ele igualmente exprime uma nostalgia que vai durar enquanto as sociedades forem imperfeitas e os homens quiserem reformá-las”.
Aqui no Brasil a esquerda, há muitos anos no poder, deixou de promover a revolução sonhada, a implantação do socialismo como salvação das classes menos favorecidos, porque, infelizmente, desviou-se do caminho e caiu na malha da corrupção. No caso, o mesmo Raymon Aron observa: “Os secretários de sindicatos aceitam sem muita dificuldade uma sociedade que não lhes recusa a participação do poder e nas suas vantagens” – e ainda alimenta o sonho da revolução ameaçando o mundo da “direita”.
Isso explica muito o que aconteceu com o país em suas história recente.

CAIO MARTINS, RETRATO DE UM BRASIL DE HOJE

                                                                                                           XXVII - Parte

A CERCA

 Um momento marcante que vivi nas Escolas Caio Martins aconteceu no Núcleo Colonial do Urucuia, em 1980: a construção de uma cerca. Tudo aconteceu quando no exercício do cargo de diretor de núcleos e chefe do setor de produção da Fucam, tomei conhecimento que fazendeiros da região estavam tentando tomar posse de importantes áreas  do Núcleo que, infelizmente estava no aberto. Visitei a área e constatei que seria necessária salvar, de imediato, uma extensa área. Assim, fiz um projeto objetivando preservar uma boa parte da área e o apresentei à diretoria da Fucam, que o aprovou, aviando os recursos necessários, ainda que mínimos. Assim, formei um grupo de 15 alunos do curso de agropecuária e embarcamos rumo ao Núcleo. Em Buritizeiro foram recrutados outros alunos e servidores para compor o grupo. Fretamos um ônibus e lá fomos para o Núcleo Colonial do Urucuia, Fazenda Conceição.
Foi um trabalho fantástico querelato através de uma carta remetida ao coronel Almeida, fundador das Escolas Caio Martins e seu principal prócer.
A CERCA – CARTA AO CORONEL ALMEIDA.
Vista da Conceição
Núcleo do Urucuia, 20 de julho de 1980. Prezado Cel. Almeida, Escrevo-lhe esta carta do sopé da Serra da Conceição, onde, em 1957, plantamos mais uma semente de Caio Martins. À primeira vista é estranho que eu lhe escreva uma carta, quando posso falar-lhe pessoalmente todos os dias. É que este momento é impostergável, quando devo registrar emoções sentidas, agora, no Urucuia. Estamos vivendo a essência do nosso lema “caminhar com as próprias pernas”, enquanto procuramos influir junto à comunidade local para que ela alcance o desenvolvimento. Há, neste momento, o sincretismo do ideal da turma de bandeirantes que fundou o Núcleo, com uma nova expressão do idealismo, dos caiomartinianos de Esmeraldas e Buritizeiro, aqui representados por um grupo, que no período de férias, revive os projetos de nossas bandeiras de anos atrás. É a concreção histórica de um ideal. Nisto somos todos obstinados e queremos vencer etapas, sem medir sacrifício, arrebanhando mais companheiros durante a caminhada. Ideais e utopias devem ser reabilitados sempre, pois enquanto temos a centelha da fé, ardendo, seremos capazes de penetrar nas trevas; seremos dinâmicos, transportando barreiras do imutável, provando que temos forças para vencer. É que, entre outras coisas, admitimos que desfrutamos de oportunidades de influir diretamente, mas com certeza, nos destinos de nosso País, e, por isso, sentimos as mudanças substanciais a nosso favor. E como posso admitir isso? Não é por mim,numa auto-avaliação, mas pela boca e pelo coração de pessoas sensíveis que vêm conhecer a Escola. Foi o que ouvi do Gal. Henrique Geisel em sua visita ao CT de São Francisco, quando emocionado, diante de nossos meninos, disse: “Vocês são o Brasil”. Foi o que vi daquele padre canadense que nos visitou em Esmeraldas, encontrando na Escola e em você, o significado da palavra “patriotismo, que tanto o intrigava”.
A empresa é enorme? É sim, mas temos toda disposição e não nos sentimos, de modo algum, como D. Quixote na sua recalcitrante luta contra moinhos. Temos lá nossos problemas, mas nossa preparação é para superá-los, bem ao nosso modo.
Assim é, por exemplo, o assunto desta carta: a construção da cerca da larga que estamos construindo no Núcleo (área com mais de 200 alqueires). Trata-se de uma obra comum, mas que acaba tendo um significado todo especial para nós, que transcende o seu aspecto físico. Lembro, a propósito, suas preleções em Esmeraldas… estamos construindo uma Catedral. O paralelismo não é impertinente. Pela narração que se segue, o sr. poderá, certamente, reviver grandes momentos da vida caiomartiniana.
O primeiro marco da cerca foi fincado ao pé de um buriti, na cabeceira da vereda do Capão santo (fonte do ribeirão das Lajes), e, rasgando os gerais, onde brota dadivoso “capim de raiz”,tangenciando as cabeceiras das veredas do riacho dos Porcos e Conceição, a cerca se encomprida, fazendo linha até à dobra da serra da Conceição. Cada pau, cada esticador, posso afirmar, tem uma história, desde quando tombou nos íngremes boqueirões, ao transporte nos ombros dos meninos, no carro-de-bois, trator e caminhão, até chegar à praça de trabalho, onde outro grupo de jovens – de 10 a 18 anos -deita neles as mãos, erguendo-os ao céu, numa crença mística que,  com aquele gesto, cobrem-se de honra, construindo uma Escola. Em cada um há uma fiscalização minudente para que as diversas fases do trabalho se desdobrem com zelo, carinho e atenção; há, em cada um, disposição incomum e um sorriso permanente – nenhuma palavra ou gesto de desânimo Eu os acompanho de perto. Sei e posso sentir o que lhes vai no espírito – eles não estão apenas construindo uma cerca, edificam uma escola, defendendo-a. Na sua manifestação: “Agora a Escola poderá criar 500 cabeças de gado nesta larga e ninguém vai invadir nosso pasto, nem tomar nossas terras”, e nas suas mãos calejadas e rasgadas pelo arame, nos ombros feridos, nas faces queimadas, tudo refletido, sem dor, num semblante feliz, temos o atestado da certeza, anteriormente enunciada, em figuras: construímos uma catedral.
Paralelamente, temos motivo de preocupação e temor. Vejo estes jovens trabalhando – todos são felizes e dispostos e acreditam no que estão fazendo: protegem um patrimônio do Estado que a Escola tem sob a sua guarda. Acreditam que com a construção da cerca o milagre vai acontecer – ninguém mais invadirá as terras da Escola Fico aflito, muito aflito com a nossa responsabilidade, pois não muito longe dali, de onde trabalham, está a marca do homem invasor. Percorri, hoje cedo, por mais de 4 horas, a cavalo, a área que um vereador de São Romão, cercou para si em terrenos da Escola. É terra que some no horizonte, sem lindes aos olhos. Ele tem, ainda, a petulância de verberar que terra do Estado é de todos e que a Escola sem escritura, é posseira como qualquer um.
No seu rastro vieram tantos outros fazendeiros que têm suas posses afastadas, mas que também querem o seu quinhão. Tomam conta de tudo, vorazmente, com ameaças de agressões físicas e armadas.
Vi cercas penetrando por toda parte e pensei nos nossos meninos ali perto num trabalho feito com tanto amor, construindo a catedral que será invadida por hordas de bárbaros que vão profaná-la. Não terão amparo contra esses gananciosos e covardes invasores? Não receberão apoio na defesa do patrimônio da Nação? Será tão difícil ser patriota? Já perdemos Cabo Verde, Ponte Grande e quase a metade da larga; a sede do Núcleo está prensada. Neste ritmo de invasões, muito em breve teremos de pedir licença para educar as crianças da região e ajudar o homem do campo, pois ele, o que não tem força, também está desamparado, mais só.
Esta é a história da nossa cerca.
Interessante anotar, também, coronel, que à noite, quando regressam do trabalho, nossos jovens desenvolvem um trabalho comunitário muito ao estilo caiomartiniano. Visitam lares, reúnem-se com o povo, num sarau divertido com muita música, histórias e palavras de ajuda. Movimentam o escotismo, incentivando os garotos do Núcleo. Programas esportivos e até culto dominical, fazem parte do seu trabalho. É uma plêiade formidável que bem parece ter ouvido os acordes do nosso hino: “Se da Pária os anseios ouvis/ Se quereis uma infância feliz/ Com vigor trabalhai este chão/ Este solo é também o de Caio.
No dia 26 vamos terminar a cerca, ainda de sobra deixaremos a reforma do lar dos meninos do Núcleo bem adiantada (em nossa turma, temos meninos pedreiros, carpinteiros, eletricistas, bombeiros, etc.). Deixamos mais, o Núcleo fervilhando de esperança. Eles fizeram a parte que lhes tocou e mostraram, mais uma vez que o”Ideal está em Marcha!”. Não importa o revés, pois ele serve como estímulo, mas queremos que não haja ambivalência do bem e do mal. Precisamos, com urgência de um trunfo para superar a força do mal e dar curso à história, transformando o Núcleo do Urucuia num posto de atalaia, encravado no longínquo sertão, com forças capaz de ser a presença do governo, através da Escola, gerando a paz, o bem-estar social, a educação e a felicidade de um sofrido povo. Precisamos deste trunfo: a escritura das terras.
Bem sei que o senhor compartilha da nossa aflição e das nossas alegrias. Se, agora, não posso poupar-lhe da primeira, espero, que a alegria de saber os nossos jovens reconduzidos à trilha do ideal seja maior e mais reconfortante, como agradecimento ao seu gesto de semeador. Abraço-o afetuosamente, João Naves de Melo”.
Texto e fotos: João Naves de Melo